Estados Unidos

Mesmo com expectativa de alta para esta segunda, Trump não poupa polêmicas

Após sofrer duas quedas no nível do oxigênio e de receber tratamento com esteroide usado em casos graves da covid-19, presidente surpreende e visita apoiadores. Médico da Casa Branca prevê alta para hoje. Infectologistas criticam saída e avaliam condição clínica

Rodrigo Craveiro
postado em 05/10/2020 06:00 / atualizado em 05/10/2020 07:16
 (crédito:  AFP / ALEX EDELMAN)
(crédito: AFP / ALEX EDELMAN)

O presidente dos Estados Unidos deu a dica em um vídeo de 1 minuto e 13 segundos, gravado por volta das 17h20 (18h20 em Brasília), de dentro do Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, em Bethesda (Maryland). Donald Trump disse que tinha preparado uma “pequena surpresa” para os “grandes patriotas”. “Não vou contar para ninguém, a não ser para vocês, mas farei uma pequena visita surpresa. Talvez eu chegue lá antes que vocês me vejam. Mas, quando vejo o entusiasmo... Temos entusiasmo como provavelmente nunca tivemos (…) e talvez mais do que qualquer um”, declarou o líder, que se recupera da covid-19. “Essa tem sido uma jornada interessante. Tenho aprendido muito sobre a covid. Eu aprendi como se estivesse indo para a escola, esta é a escola verdadeira. Eu entendi (a lição). Nós amamos os Estados Unidos e nós amamos o que está acontecendo”, acrescentou. Pouco depois, o magnata republicano foi visto em um comboio do lado de fora do hospital. Sem sair do carro e usando máscara, Trump acenou e bateu palmas para a multidão, que reagiu com euforia.

O candidato democrata Joe Biden não comentou o rápido “passeio” do adversário. Apenas tornou a pedir coesão nacional. “Antes de sermos democratas, republicanos ou independentes, somos americanos. Não podemos nos esquecer disso”, escreveu no Twitter. “Hoje, marca 30 dias até as eleições. Trinta dias até que comecemos a restaurar a alma da nação.” Biden fez mais um teste para a detecção do coronavírus — e o resultado foi negativo.

Horas antes, Sean P. Coley, médico da Casa Branca, anunciou que a condição de saúde de Trump havia melhorado e que poderia lhe dar alta ainda hoje. No entanto, admitiu que o presidente apresentou duas quedas no nível de oxigênio, entre sexta-feira e sábado. Segundo Coley, a equipe de médicos decidiu tratá-lo com a dexametasona, um esteroide utilizado de forma experimental contra a covid-19, a fim de reduzir inflamações. De acordo com o protocolo, a droga costuma ser aplicada em pacientes com estado grave. “Na sexta-feira pela manhã, o presidente teve febre alta e sua saturação de oxigênio caiu abaixo de 94%”, comentou.

Peter Chin-Hong, especialista em doenças infecciosas pela Universidade da Califórnia em São Francisco, explicou ao Correio que o passeio de Trump fora do hospital não sugere que o presidente esteja fora de perigo. “Depois de esteroides, todo mundo se sente pouco melhor no começo”, disse. “Mas, Trump pode ficar muito doente por volta do sétimo dia. Ou se sentir melhor.” Ele acredita que as quedas da saturação de oxigênio sugerem uma inflamação dos pulmões de Trump. “Pessoas que vão a óbito com a covid-19 não morrem por causa da reprodução do Sars-CoV-2, mas da resposta imunológica do corpo e da inflamação. Quando alguém começa a precisar de oxigênio, significa que atingiu a fase inflamatória”, afirmou.

Trump tinha recebido um coquetel de anticorpos, para neutralizar o coronavírus, e o antirretroviral remdesivir, o qual surte mais benefícios em pacientes que dependem de oxigênio suplementar.

Dexametasona

“O esteroide dexametasona atinge a inflamação nos pulmões, não o vírus. Somente é usado em pessoas submetidas à oxigenação extra. Se for dado cedo demais, não ajudará na recuperação. Pode até ser prejudicial, pois suprime o sistema imunológico quando se necessita de função imunológica, especialmente no início da doença”, disse Chin-hong, segundo o qual a dexametasona mostra-se mais eficiente em pacientes com muita necessidade de oxigênio suplementar. “O presidente também toma zinco, famotidina e vitamina D, que não se revelaram eficazes em ensaios clínicos randomizados. Eu não os utilizaria no tratamento da covid-19.” O médico sublinhou que “jamais daria alta a Trump”. “Esta semana será crucial. Ele pode piorar muito, ainda que pareça melhor agora.”

Colega de Chin-Hong, a infectologista Monica Gandhi chamou de “ridícula” a atitude de Trump. “É ridículo que alguém com a covid-19 ativa e em tratamento saia do hospital apenas para mostrar a seus simpatizantes que está bem. Trump deveria ficar no hospital e permanecer isolado, pois ainda está infeccioso”, disse à reportagem. Ela explicou que as duas quedas na saturação de oxigênio podem indicar doenças mais graves a caminho. “O presidente corre mais risco de uma grave doença por ser idoso e obeso. Além disso, o fato de não usar máscara pode predispor-lhe a obter uma carga viral maior.”

Professor do Departamento de Doenças Infecciosas da Universidade de Vanderbilt (erm Nashville, Tennessee), William Schaffner classificou de “infeliz” o tour de Trump. “É contra todas as recomendações de saúde pública.” Ele considera improvável que Trump receba alta hoje. “Espero que o presidente fique hospitalizado por mais alguns dias, sob observação cuidadosa. A covid-19 pode se tornar mais séria rapidamente. A dexametasona é usada em pacientes internados que precisaram de tratamento com oxigênio suplementar”, disse ao Correio. Ele explicou que o rápido surgimento dos sintomas não é incomum para o coronavírus, especialmente pelo fato de que Trump tem 74 anos, é homem e está com sobrepeso. “As características colocam-no em risco elevado de doença grave.”

A luta contra o coronavírus

Cronologia do drama enfrentado por Trump desde a última quinta-feira

Quinta-feira, 1º/10
Diagnóstico
À 1h54 de sábado, Trump anunciou no Twitter que ele a primeira-dama, Melania Trump, testaram positivo para a covid-19.

Sexta-feira, 2/10
Primeira queda de saturação e tratamento emergencial
Pela manhã, o presidente teve febre alta e o nível de oxigenação do sangue caiu abaixo de 94%. Foi o primeiro episódio de queda da saturação.

Hospitalização
No fim da tarde, Trump é levado à internação no hospital militar Centro Médico Walter Reed, em Bethesda (Maryland). Ele deixa a Casa Branca a pé, de máscara, e acena para a imprensa, antes de entrar no helicóptero presidencial Marine One. Os médicos anunciam que Trump recebeu um coquetel de anticorpos experimental, o Regeneron.

Sábado, 3/10
Segunda queda de saturação e tratamento emergencial
No hospital, Trump apresenta o segundo episódio de queda de saturação de oxigênio. Os médicos decidem administrar a ele dexametasona, um esteróide usado para reduzir inflamações. Em entrevista à imprensa, Sean P. Conley, médico de Trump, diz que o paciente está “indo muito bem” e se recusa a confirmar se ele precisou de oxigênio suplementar. Em uma conversa informal, Mark Meadows, chefe de gabinete da Casa Branca, revelou a jornalistas que os sinais vitais do presidente eram preocupantes e que ele não estava fora de perigo.

Vídeo feito no hospital
À noite, Trump divulgou um vídeo em que disse se sentir melhor e que trabalha duro para retornar à Casa Branca e à campanha. “Só quero dizer a vocês que começo a me sentir bem. Os próximos dias serão o teste verdadeiro, vamos ver o que acontecerá”, afirmou.

Ontem, 4/10
Conley admitiu que o estado de saúde do presidente era mais sério do que anunciara, revelou detalhes sobre o tratamento e contou que Trump pode receber alta ainda hoje.

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Opiniões médicas

“A condição clínica de Trump parece mais grave do que a anunciada por seus médicos. Por duas vezes, o presidente precisou de tratamento com oxigênio suplementar. Os médicos também não dirão o que foi encontrado na radiografia do tórax e na tomografia. A equipe clínica que cuida de Trump não usou hidroxicloroquina, porque a droga não tem se mostrado eficiente em vários estudos.” William Schaffner, professor de medicina do Departamento de Doenças Infecciosas da Universidade de Vanderbilt (em Nashville, Tennessee).


“A evolução da covid-19 em Trump é preocupante. Estou muito preocupado. Pacientes que adoecem tão rápido geralmente não se dão bem. Isso significa que ele pode continuar a piorar mais do que alguém que leva muito tempo para apresentar os sintomas depois do diagnóstico. A outra explicação é que ele foi infectado havia um tempo sem saber e espalhou o coronavírus durante o debate e a campanha.” Peter Chin-Hong, especialista em doenças infecciosas pela Universidade da Califórnia em São Francisco.


“Reduções na saturação de oxigênio são comuns no tipo de lesão pulmonar vista em pacientes com covid-19. Está claro que a condição clínica de Trump era preocupante o bastante para a transferência até o hospital. O oxigênio suplementar sugere que o presidente tem mais do que sintomas ‘leves’ de infecção pelo coronavírus.” Russell Buhr, professor de medicina da Divisão de Cuidados Críticos e Pulmonares da Universidade da Califórnia (Ucla).

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