Manifestação

Diferentes facções se enfrentam no Quirguistão; presidente se dispõe a renunciar

O chefe de Estado assinou um decreto que impõe o estado de emergência na capital do país da Ásia central

Agência France-Presse
postado em 09/10/2020 16:47
 (crédito: VYACHESLAV OSELEDKO / AFP)
(crédito: VYACHESLAV OSELEDKO / AFP)

Dois grupos de manifestantes que apoiam políticos rivais se enfrentaram nesta sexta-feira (9) em Bishkek, capital do Quirguistão, onde o presidente Sorronbai Jeenbekov, que não aparece em público há quatro dias, se disse disposto a renunciar.

O chefe de Estado assinou um decreto que impõe o estado de emergência na capital do país da Ásia central, mas nada indica que será aplicado, visto que vários clãs políticos tomaram o controle dos diferentes organismos governamentais.

O Quirguistão está mergulhado em uma grave crise desde que teve início um movimento de protesto contra uma suposta fraude nas eleições legislativas de domingo, vencidas por dois partidos próximos a Jeenbekov. O presidente anunciou nesta sexta em um comunicado que está "disposto" a renunciar "quando forem aprovadas as autoridades executivas legítimas" e se volte "à via da legalidade".

Esta demissão poderia também se concretizar depois que se realizem mudanças no governo e se estabeleça uma data para as novas eleições, destacou a Presidência em um comunicado. A primeira condição foi cumrpida, visto que Jeenbekov assinou um decreto que destitui o governo.

Entretanto, partidários de diferentes personalidades políticas exerciam pressão nas ruas de Bishkek, e aparentemente já se preparam para o período pós-Jeenbekov.

Nesta sexta, no centro da cidade ocorreram confrontos entre partidários do ex-presidente Almazbek e o nacionalista Sadyr Japarov, que na terça-feira foi nomeado primeiro-ministro em circunstâncias muito nebulosas.

Um jornalista da AFP viu partidários de um deles quebrar janelas de carros, enquanto os serviços de segurança do outro campo fizeram disparos para o alto.

Retorno de Atambayev 

Milhares de pessoas se reuniram nesta sexta-feira em um parque próximo aos escritórios do primeiro-ministro para apoiar Japarov, libertado da prisão esta semana por seus simpatizantes, após 11 anos e meio de pena por ter participado de uma tomada de reféns em uma das crises políticas anteriores no país.

Japarov foi nomeado chefe de governo por parlamentares em um hotel de Bishkek. "Será primeiro-ministro e presidente, e então tudo ficará bem", disse um orador à multidão, agressivo, chegando a ameaçar vários jornalistas.

Atambayev, a quem seus partidários também libertaram da prisão esta semana, é o antecessor e ex-mentor político Jeenbekov, que o abandonou à própria sorte. Cumpria pela de 11 anos de prisão por ter mandado soltar um chefe da máfia. Além disso, esperava um segundo julgamento por ter resistido armado à sua prisão.

Atambayev organizou nesta sexta-feira a própria manifestação, aonde seus partidários levavam cartazes que pediam a saída de Jeenbekov. Partidários dos dois lados entraram em confronto, mas desde a segunda-feira também o fazem com a polícia. Por enquanto, o balanço conhecido é de um morto e mais de mil feridos.

Nesta sexta, uma terceira manifestação foi convocada por membros da sociedade civil contra o crime organizado que corrói a política do país. Na véspera, personalidades de vários partidos da oposição disseram controlar a Procuradoria e o Ministério do Interior. Não se via presença policial em frente aos principais edifício do governo.

Esta ex-república soviética, a mais pluralista, mas também a mais instável da Ásia central, viveu duas revoluções e três de seus presidentes foram detidos ou exilados desde a sua independência. No entanto, é considerada uma exceção democrática em uma região onde os regimes autoritários são a regra.

Os poderosos serviços de segurança (GKNB) exortaram a classe política a restaurar a ordem, e a Rússia, a potência regional, admitiu a autoridade de quem tomou o controle deste organismo em meio ao caos dos últimos dias, Omurbek Suvanaliev.

Stanislav Zas, secretário-geral da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CTSC), uma união político-militar patrocinada pela Rússia, ofereceu sua ajuda para "desempenhar um papel de mediador". Mas nem sequer Moscou parece estar certa de poder influenciar em uma solução para a crise política.

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