FRANÇA

Professor é decapitado na França por exibir charge de Maomé; Macron reage

Vítima mostrou caricaturas do profeta islâmico em aulas de história e geografia, ao debater liberdade de expressão. Assassino fotografa cabeça e publica imagem no Twitter. Macron fala em "ataque terrorista comprovado". Quatro pessoas são detidas

Rodrigo Craveiro
postado em 17/10/2020 07:00
 (crédito: AFP / POOL / ABDULMONAM EASSA)
(crédito: AFP / POOL / ABDULMONAM EASSA)

A mensagem teria sido publicada pelo próprio assassino, em seu perfil no Twitter, às 16h55 (11h55 em Brasília). Intitulado de “Macron, o líder dos infiéis” e direcionado ao presidente da França, Emmanuel Macron, o texto trazia a foto da cabeça da vítima, separada do corpo, e acompanhava uma oração islâmica. “Eu executei um de seus cães do inferno que ousou menosprezar Maomé”, escreveu. O homem havia acabado de decapitar, no meio da rua, um professor de história e geografia, perto do colégio de ensino médio Bois d’Aulne, em Conflans-Sainte-Honorine — uma pequena cidade de 35 mil habitantes situada a 39km de Paris.

A polícia localizou o suspeito em Éragny, a apenas 3km da cena do crime. Ao ser abordado, por volta das 20h (hora local), ele vestia um colete de explosivos e demonstrava atitude ameaçadora, de acordo com a polícia, que acabou por matá-lo. Antes de ser baleado, o homem teria gritado “Allahu Akbar!” (“Alá é grande”, em árabe). O professor decapitado tinha exibido aos alunos caricaturas do profeta Maomé, durante aula sobre liberdade de expressão. O Ministério Público Antiterrorismo abriu investigação por “assassinato em conexão com empreendimento terrorista” e “associação criminosa terrorista”. De acordo com o jornal Le Monde, a polícia encontrou o documento de identidade do assassino — ele era russo e tinha 18 anos. No fim da noite, uma fonte judicial informou à agência France-Presse que quatro pessoas, incluindo um menor, foram detidos em conexão com a decapitação.

Acompanhado de outras autoridades, entre elas o ministro do Interior, Gérard Darmanin, que interrompeu uma viagem a Marrocos, Macron visitou Conflans-Sainte-Honorine e confirmou a suspeita de terrorismo islâmico no 33º atentado a golpear a França desde 2017. Em 25 de setembro, um paquistanês utilizou um cutelo para ferir gravemente dois funcionários de uma agência audiovisual, perto da antiga redação do Charlie Hebdo, alvo de um massacre em 2015. O jornal satírico publicou as imagens de Maomé usadas na aula em Bois d’Aulne.

“Um de nossos cidadãos (…) foi assassinado, hoje, por ensinar aos alunos sobre a liberdade de expressão. A liberdade de crer e de não crer. Nosso compatriota foi vítima de um ataque terrorista islâmico comprovado”, declarou Macron. “Se este terrorista matou um professor, é porque queria abater a República, o Iluminismo, a possibilidade de tornar livres os filhos de nossos cidadãos. Essa batalha é nossa. (…) O obscurantismo e a violência não vencerão. Isso é o que eles estão buscando, e devemos permanecer juntos”, acrescentou, ao apelar ao povo que se una pelos mesmos valores e pelo mesmo destino. “Eles não passarão”, tuitou, pouco depois. Por sua vez, o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, denunciou que “a República foi atacada, com o assassinato desprezível de um de seus servidores, um professor”. “Nossa unidade e nossa firmeza são as únicas respostas à monstruosidade do terrorismo islamita.”

A aula ministrada com caricaturas de Maomé foi alvo de reclamações de um ou mais pais de alunos muçulmanos. Copresidente da FCPE, a maior associação de pais de alunos da França, Rodrigo Arenas condenou o crime hediondo contra o professor. “Não existe razão para que um professor, um jornalista ou um adolescente presente em um show perca sua vida nas mãos de simpatizantes do islamismo fanático, assassino e regressivo. A República e seus filhos devem se proteger dessa barbárie”, afirmou ao Correio.

Para Pierre François Le Louët, presidente da Federação de Indústrias Criativas da França, o ataque de ontem teve como alvo a República Francesa em sua integridade. “A República Francesa é laica. Isso significa que a religião é de foro privado. Há uma separação estrita entre o Estado e as religiões, desde 1905. Os professores são pagos pela República. Hoje (ontem), um professor foi morto por ter expressado as regras básicas da República Francesa: liberdade de expressão, de pensar, de falar e de escrever”, disse ao Correio. “A barbárie e o obscurantismo lutam contra os espíritos do Iluminismo herdados do século 18”, acrescentou.

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“Desenhos são desenhos. Se representam Maomé, o papa ou outra pessoa, não é problema. Você pode gostar deles ou não. A conclusão importante é que os cartunistas devem ser capazes de produzir o que quiserem.” Pierre-François Le Louët, presidente da Federação de Indústrias Criativas da França.

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