Conexão diplomática

Silvio Queiroz
postado em 23/10/2020 21:48

Amizade ou interesses?

Com a eleição presidencial americana a pouco mais de uma semana, a natureza das relações entre o Brasil e os EUA se coloca outra vez em pauta, não importa quem saia vencedor nas urnas, em 3 de novembro. Entre outros fatores, por conta da perspectiva de atrito crescente entre Washington, com a influência preponderante que exerce nas Américas, e a China, que ameaça a hegemonia americana e ocupa já a posição de nosso principal parceiro comercial.
Sintomático que o Brasil e a América Latina mal tenham figurado entre os temas do debate da última quinta-feira entre o presidente Donald Trump, do Partido Republicano, e o desafiante da oposição democrata, Joe Biden. No primeiro enconro entre os dois, Biden chegou a mencionar as queimadas e o desmatamento na Amazônia e no Pantanal, mas no âmbito de uma discussão mais ampla sobre a questão do meio ambiente e das mudanças climáticas.
Ainda durante a campanha vitoriosa de 2018, e desde os primeiros dias no Planalto, Jair Bolsonaro enunciou como linha-mestra de sua política externa o realinhamento com a Casa Branca. Em nome de romper com o que classificou como “diplomacia ideológica”, atribuída aos governos Lula e Dilma, o novo presidente perseguiu acordos e acertos com Trump.
Os dados mais recentes sobre comércio exterior demonstram a queda das transações bilaterais com os EUA. Mais importante, o saldo das trocas, no período, variou de maneira desfavorável para o Brasil, a despeito das demonstrações de amizade pessoal entre os dois mandatários.
Noves fora, vale para Bolsonaro e para o chanceler Ernesto Araújo, entusiasta de primeira hora da nova orientação, a máxima segundo a qual os países não têm amigos, mas apenas interesses.

Pelo avesso

Questionado certa vez sobre esse axioma da diplomacia, no contexto das relações cultivadas com os vizinhos latino-americanos e com outros países do eixo sul-sul, o titular do Itamaraty nos oito anos de governo de Lula, Celso Amorim, propôs certa vez uma leitura heterodoxa. Segundo o embaixador, o ocupante mais duradouro do posto desde o barão do Rio Branco, muitas vezes, é do interesse do país ter amigos, tantos quantos seja possível.


Amigo de quem?

Nessa já quase metade de mandato, marcada irremediavelmente pelo cenário imprevisível da pandemia de covid-19, o que distinguiu a guinada na política externa brasileira foi a associação explícita entre Bolsonaro e Trump. Mais do que uma reaproximação entre estados, o que se delineou foi um alinhamento entre governos, inclusive em temas como o Oriente Médio, no qual os opositores de Lula e Dilma apontavam o “viés ideológico” adotado na questão Israel-Palestina.
Desde os primeiros dias como presidente, Bolsonaro indicou claramente o apoio a iniciativas adotadas por Washington, como a transferência da embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, ainda que a Cidade Santa não tenha reconhecimento internacional como capital israelense. No caso brasileiro, a mudança da representação diplomática chegou a ser mencionada, e só não foi adiante em resposta a pressões do agronegócio, que teme pelos reflexos negativos para o comércio com o mundo árabe e islâmico — estimulado, em boa medida, pela diplomacia agressiva adotada por Lula e Amorim na região.

Faz diferença?

Ao longo desses dois anos, sempre com a eleição de novembro no horizonte, críticos de Bolsonaro apontaram para o risco de que as relações com os EUA pudessem sofrer arranhões, caso as urnas negassem a Trump o segundo mandato. Mais importante do que uma improvável represália pelo alinhamento indisfarçado do Planalto com um candidato eventualmente derrotado, porém, é a constatação de que, na geopolítica norte-americana, o lugar reservado ao Brasil é o de um ponto de apoio vital na América do Sul. E o relevo dado pelo Departamento de Estado àquilo que define como “o hemisfério” — as Américas — pode ser medido pela frequência reduzida com que o tema figurou na agenda externa dos EUA nas últimas duas décadas.
Em linguagem mais prática e menos diplomática — ou ideológica —, o Brasil terá pouco a ganhar (ou a perder) com o resultado da disputa pela Casa Branca. Seja Trump ou Biden o vencedor, o tema crucial seguirá sendo definir os termos da relação entre Washington e Brasília.

Voz das urnas

Não é apenas nos EUA que as urnas se perfilam como uma espécie de oráculo para que os governos vizinhos decifrem o sentido dos ventos políticos e descortinem os rumos a traçar no cenário internacional imediato. Uma semana depois de a Bolívia consagrar a vitória do Movimento ao Socialismo (MAS), do presidente deposto Evo Morales, amanhã será a vez de o Chile votar em um plebiscito de importância crucial.
Praticamente no aniversário de uma explosão social que só foi efetivamente contida pela irrupção da pandemia, os chilenos decidirão sobre a renovação da Constituição legada pela ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). De acordo com as pesquisas de opinião, a tendência é de que saia vencedora não apenas a elaboração de uma nova Carta, mas a opção de fazê-lo por meio da convocação de uma Assembleia Constituinte a ser eleita exclusivamente para essa função.
O presidente Sebastián Piñera forma, com Bolsonaro e o colombiano Iván Duque, a trinca de governo sul-americanos mais afinados com a Casa Branca de Donald Trump. Alvo principal da onda de protestos e levantes deflagrada em outubro de 2019, Piñera se vê diante de missão difícil no encaminhamento da sucessão, dentro de dois anos.
Passado quase meio século desde o golpe militar que derrubou Salvador Allende, o primeiro socialista a chegar ao governo pelas urnas na América Latina é o candidato do Partido Comunista, Daniel Jadue, quem lidera as primeiras pesquisas de opinião para a eleição, marcada para dentro de pouco mais de um ano.

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