Igreja

Justiça do Vaticano: Santa Sé divulga suas contas após escândalos financeiros

Os últimos balanços oficiais que a Cúria divulgou oficialmente datam de 2015

A Santa Sé, que esteve esta semana no centro de um escândalo sobre polêmicos investimentos, divulgou detalhadamente suas contas financeiras nesta quinta-feira, com o desejo de garantir maior transparência, como exige o papa Francisco.

"É possível que em alguns casos a Santa Sé tenha sido mal aconselhada, até mesmo enganada. Acho que estamos aprendendo com os erros e imprudências do passado", reconheceu em entrevista ao site do Vaticano o jesuíta espanhol Juan Antonio Guerrero Alves, que desde janeiro dirige o poderoso Secretariado para a Economia da Santa Sé.

A divulgação dos balanços consolidados de 2019 representa um passo importante, embora não inclua todas as contas do Vaticano.

A avalanche de testemunhos e documentos vazados para a imprensa italiana sobre a investigação aberta há um ano pela justiça vaticana sobre os opacos arranjos financeiros da Santa Sé, revelou uma rede de empresas e consultorias, quase todas italianas, que acabaram por criar um rombo de mais de 454 milhões de euros (cerca de 500 milhões de dólares), segundo a revista L'Espresso.

O patrimônio líquido de todas as instituições da Santa Sé é de 4 bilhões de euros (4,6 bilhões de dólares), incluindo a Cúria Romana, o Estado da Cidade do Vaticano -que administra os famosos museus-, o Banco do Vaticano, os fundos de pensões e várias fundações.

Doações, investimentos e lucros

"A economia da Santa Sé deve ser uma casa de cristal", reconheceu o prelado espanhol.

A Cúria Romana, governo central da Igreja, que congrega 60 entidades ao serviço do papa, tem um patrimônio líquido de 1,4 bilhão de euros (1,6 bilhão de dólares), calculando aplicações financeiras e receitas imobiliárias.

"A Santa Sé não funciona como empresa nem como Estado, não visa o lucro", sublinhou o padre Guerrero.

De acordo com os dados, a Santa Sé registou um déficit financeiro em 2019 de 11 milhões de euros (quase 13 milhões de dólares) contra 75 milhões (88 milhões de dólares) no ano anterior, melhoria que foi possível graças ao bom desempenho de aplicações financeiras e algumas transações extraordinárias.

Registrou 307 milhões de euros (360 milhões de dólares) em receitas e 318 milhões (373 milhões de dólares) em despesas. Obteve, por exemplo, 15 milhões de euros (17,6 milhões de dólares) com a venda de uma propriedade e adquiriu duas propriedades em Roma.

Os últimos balanços oficiais que a Cúria divulgou oficialmente datam de 2015.

De acordo com o chefe da Economia do Vaticano, um jesuíta próximo do pontífice, os recursos do "Obolus de São Pedro", que recebe doações de todo o mundo para as obras de caridade do papa, não foram usados para a polêmica compra de um edifício luxuoso no centro de Londres, operação sob investigação judicial.

Essa polêmica compra, feita em duas etapas, por intermédio de vários empresários, foi feita com "recursos reservados da Secretaria de Estado".

Este é um esclarecimento fundamental, já que as doações para o Obolus serão feitas no próximo domingo, em vez do final de junho, devido à pandemia do coronavírus e seu valor medirá o impacto do escândalo.

Em 2019, graças a donativos, foram arrecadados 53 milhões de euros (mais de 62 milhões de dólares), dos quais 10 milhões de euros (quase 11,7 milhões de dólares) destinados a fins específicos a pedido de doadores.

Essas doações podem ser utilizadas em investimentos seguros, como "faz todo bom pai de família", disse Guerrero, que excluiu o financiamento da indústria de armamentos, como exigiu o pontífice argentino.