ESTADOS UNIDOS

"Temos que reverter a eleição. Foi fraudada", segue o discurso de Trump

Dois dias depois de autorizar o início da transição de governo, presidente republicano volta a denunciar fraude na votação, em conversa com senadores da Pensilvânia. Joe Biden avisa que país não aceitará desrespeito aos resultados das urnas

Rodrigo Craveiro
postado em 26/11/2020 06:00
 (crédito: Samuel Corum/AFP)
(crédito: Samuel Corum/AFP)

Na véspera do Dia de Ação de Graças, feriado em que as famílias norte-americanas costumam se confraternizar, o presidente Donald Trump emitiu uma mensagem controversa em direção à discórdia. Ao lado do advogado Rudy Giuliani, o magnata falou pelo viva-voz do telefone com senadores republicanos do estado da Pensilvânia. “Temos que reverter a eleição. Esta eleição foi fraudada”, declarou. “Foi uma eleição que ganhamos facilmente. Ganhamos por muito. É um momento muito importante na história de nosso país. E vocês fazem um serviço muito importante para nosso país”, acrescentou. Depois da conversa telefônica com os senadores, transmitida para a sala de conferências de um hotel da cidade de Gettysburg, a multidão presente gritou: “Trump! Trump! Trump!”. O republicano participaria da audiência com os congressistas, mas cancelou a presença sem justificativa. À noite, ele convidou os senadores da Pensilvânia à Casa Branca.

Horas antes, Trump tinha escrito no Twitter: “Eleição manipulada”. O tuíte, como tantos outras nos últimos 19 dias, foi marcado pela rede social com um aviso de que a alegação sobre fraude eleitoral era motivo de contestação. Enquanto isso, o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, cobrava um fim “à sombria temporada de divisões” no país e avisou que a população não vai tolerar o desrespeito ao resultado das eleições de 3 de novembro.

Alerta

“Nos EUA, temos eleições íntegras, justas e livres, e depois respeitamos os resultados. O povo e as leis deste país não aceitarão outra coisa”, advertiu o democrata, em discurso à nação alusivo ao Dia de Ação de Graças. Biden disse que o feriado ocorre em meio a “uma longa batalha contra o coronavírus, que devastou a nação (…) e custou tantas vidas” e instou os cidadãos a redobrarem os esforços para combater a covid-19. Ele prometeu que, a partir de seu primeiro dia, mudará o curso da pandemia, com mais testes de diagnóstico, equipamentos de proteção individual para empresas e escolas, orientações claras para manter os estabelecimentos comerciais. “Toda decisão que tomarmos importará e servirá para salvar vidas. Tudo será baseado em ciência real”, avisou. “Eu sei que poderemos vencer este vírus. A América não perderá esta guerra.”

Segundo o presidente democrata eleito, o Sars-CoV-2 intensificou as divisões políticas nos EUA. “Ele (o coronavírus) nos dividiu. Nos enfureceu. E nos colocou um contra o outro. Sei que o país está cansado do embate. Nesta sombria temporada de divisões, a demonização vai dar lugar a um ano de luz e de unidade”, avaliou Biden.

As declarações de Trump parecem não preocupar Alan Dershowitz, advogado de Trump durante o processo de impeachment. “Acredito que a transição será tranquila. O presidente Trump pode não admitir que perdeu as eleições de forma justa, e isso é um direito dele. No entanto, não acho que haverá violência”, afirmou ao Correio o também professor da Faculdade de Direito da Universidade de Harvard. Até o fechamento desta edição, os EUA registravam 12,7 milhões de casos da covid-19 e 261,8 mil mortes causadas pela pandemia. Entre terça-feira e ontem, mais de 2.100 pessoas morreram, o maior número desde maio.

A menos de dois meses de deixar a Casa Branca, Trump não se apoia em nenhuma evidência sobre a fraude eleitoral. Na terça-feira, a Pensilvânia certificou oficialmente os resultados da votação. Biden recebeu o maior número de votos da história (80 milhões) contra quase 74 milhões para o rival democrata. No Colégio Eleitoral, enquanto Biden somou 306 delegados — eram necessários 270 para a vitória —, Trump teve 232. Em 14 de dezembro, o Colégio se reunirá para determinar constitucionalmente o novo mandatário.

China

Ontem, o presidente chinês, Xi Jinping, enviou uma mensagem de felicitações a Biden pela eleição. “Os Estados Unidos e a China devem comprometer-se a não buscar conflitos nem confrontos, ao respeito mútuo e a um espírito de cooperação” para promover “a nobre causa” da paz mundial e do desenvolvimento. Segundo Xi, “o desenvolvimento saudável e estável das relações entre EUA e China é consistente com os interesses fundamentais dos dois povos”. O vice-presidente chinês, Wang Qishan, também transmitiu felicitações a Kamala Harris, a vice-presidente eleita dos Estados Unidos.

Perdão a Michael Flynn

A 56 dias da posse de Joe Biden, o presidente norte-americano, Donald Trump, concedeu ontem o indulto ao ex-assessor de Segurança Nacional Michael Flynn, que se declarou culpado, em 2017, de mentir ao FBI (a polícia federal dos Estados Unidos), sobre seus contatos russos. “É uma grande honra para mim anunciar que o general Michael T. Flynn recebeu um indulto total”, escreveu o republicano. Flynn foi o primeiro assessor do presidente investigado por suspeitas de conluio entre Moscou e a equipe de campanha do magnata.

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