Política

Turquia condena 337 pessoas à prisão perpétua por tentativa de golpe de Estado em 2016

Quase 500 pessoas foram julgadas pela tentativa frustrada de golpe de Estado de 2016 contra o presidente turco Recep Tayyip Erdogan

Agência France-Presse
postado em 26/11/2020 08:53 / atualizado em 26/11/2020 10:08
Policiais turcos montam guarda na entrada da Instituição Penal Sincan no 4º Tribunal Penal Pesado, perto de Ancara, antes do julgamento dos 500 suspeitos da tentativa de golpe de 2016.  -  (crédito: STRINGER / AFP)
Policiais turcos montam guarda na entrada da Instituição Penal Sincan no 4º Tribunal Penal Pesado, perto de Ancara, antes do julgamento dos 500 suspeitos da tentativa de golpe de 2016. - (crédito: STRINGER / AFP)

Um tribunal da Turquia condenou 337 pessoas nesta quinta-feira (26/11), incluindo oficiais e pilotos da Aeronáutica, pela tentativa frustrada de golpe de Estado de 2016 contra o presidente Recep Tayyip Erdogan, ao final de um grande julgamento em Ancara.

Todos foram declarados culpados de "tentativa de derrubar a ordem constitucional, tentativa de assassinato do presidente e homicídios voluntários", segundo um resumo do veredicto, ao qual a AFP teve acesso.

Entre as pessoas condenadas estão pilotos que bombardearam áreas emblemáticas da capital Ancara, como o Parlamento, e oficiais que lideraram a intentona a partir da base militar de Akinci.

Outras 60 pessoas foram condenadas a penas menores, e 75 foram absolvidas, segundo documento.

No total, 475 pessoas eram julgadas neste processo, considerado o mais importante sobre a tentativa frustrada de golpe da madrugada de 15 para 16 de julho de 2016 na base aérea de Akinci, o centro de operações dos militares golpistas.

O então comandante do Estado-Maior e atual ministro turco da Defesa, Hulusi Akar, e outros oito militares de alta patente foram sequestrados nesta base e libertados na manhã de 16 de julho, após o fracasso do golpe, que terminou com 251 mortos e mais de 2.000 feridos.

Naquela noite, caças F16 bombardearam o Parlamento turco em três ocasiões, assim como estradas ao redor do palácio presidencial, o quartel-general das forças especiais e da polícia de Ancara.

Os bombardeios deixaram 68 mortos e mais de 200 feridos na capital turca. Nove civis perderam a vida em uma tentativa de resistir aos golpistas na entrada da base.

"Justiça foi feita"

O julgamento gigantesco, que começou em agosto de 2017, aconteceu na maior sala de audiências do país, construída especialmente no complexo penitenciário de Sincan, na província de Ancara.

Apesar da pandemia de covid-19, muitos parentes das vítimas seguiram até o local para assistir à última audiência.

"Justiça foi feita. O Estado não deixou o sangue dos mártires e dos feridos em vão", afirmou Ufuk Yegin, presidente de uma associação de parentes das vítimas.

"Acreditamos que as sentenças foram decididas de acordo com as leis existentes", completou.

O governo atribui a tentativa de derrubar o presidente Erdogan ao pregador Fethullah Gülen, um ex-aliado que mora nos Estados Unidos há duas décadas. O religioso, que tem um pedido de extradição solicitado por Ancara, nega as acusações.

Gülen e Adil Öksüz, um professor de Teologia de Ancara que é considerado pelo governo o líder operacional dos golpistas, foram julgados à revelia. Seus casos foram separados para outro processo.

Quase 3.000 prisões perpétuas

Desde a tentativa de golpe de Estado, as autoridades perseguem de forma incessante os partidários de Gülen e organizaram expurgos sem precedentes na história moderna da Turquia. Dezenas de milhares de pessoas foram detidas e mais de 140 mil foram demitidas, ou suspensas de seus cargos, ou funções.

As ondas de detenções prosseguem até hoje, mas com um ritmo menos intenso cinco anos depois da tentativa de golpe.

Outros julgamentos, com um número maior de acusados, estão em curso. Mais de 520 pessoas sentaram no banco dos réus em um processo relacionado com as atividades da guarda presidencial.

Ao menos 290 julgamentos relacionados com a intentona golpista foram concluídos. Outros nove ainda realizam audiências.

Os tribunais condenaram até o momento cerca de 4.500 pessoas, quase 3.000 à prisão perpétua, de acordo com dados oficiais.

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