Importações

China impõe medidas antidumping ao vinho australiano

Pequim acusa a Austrália de concorrência desleal na venda dos vinhos australianos na China e elevou as tarifas de importação do produto

Agência France-Presse
postado em 27/11/2020 09:24 / atualizado em 27/11/2020 09:26
 (crédito: STR / AFP)
(crédito: STR / AFP)

A tensão diplomática entre China e Austrália aumentou nesta sexta-feira, quando Pequim anunciou a imposição de medidas antidumping sobre as importações de vinho australiano, uma medida de pressão que as autoridades australianas consideraram "injusta".

O ministério do Comércio anunciou em comunicado que uma investigação mostrou que a indústria vinícola chinesa sofreu "dano material" devido ao dumping do vinho australiano, de forma que, a partir de sábado, as importações serão tributadas entre 107,1 % e 212,1%.

O dumping - ou concorrência desleal - de que Pequim acusa Canberra, capital da Austrália, é uma prática que consiste na venda de bens por uma empresa para o exterior a preços inferiores aos que costuma praticar em seu mercado interno.

As relações entre China e Austrália começaram a se deteriorar em 2018, quando Canberra excluiu o grupo chinês de telecomunicações Huawei da construção de sua rede 5G, alegando razões de segurança nacional.

Pequim também criticou o pedido do primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, de uma investigação internacional sobre a origem da pandemia de coronavírus, detectado pela primeira vez no fim do ano passado na cidade chinesa de Wuhan.

A China considera que a demanda, alinhada com a posição dos Estados Unidos, é hostil e tem motivações políticas.

No final de abril, o embaixador chinês em Canberra, Cheng Jingye, alertou que a demanda australiana poderia levar a um boicote por parte dos consumidores chineses.

"As pessoas podem perguntar: 'por que beber vinho australiano?' ou comer carne australiana?'", alertou o embaixador no que soou como uma ameaça velada.

A China, principal sócio comercial da Austrália, suspendeu algumas semanas depois a importação de carne bovina de quatro grandes fornecedores australianos e adotou tarifas de 80,5% à cevada do país.

Em junho, Pequim aconselhou aos turistas e estudantes chineses que evitassem a Austrália, justificando a recomendação pelos incidentes de caráter "racista" contra pessoas de origem chinesa.

Em agosto, o ministério do Comércio chinês anunciou a abertura de uma investigação antidumping sobre os vinhos australianos importados em 2019. Oficialmente, a medida atendia uma demanda da Associação Chinesa de Bebidas Alcoólicas.

A Austrália reagiu ao anúncio das tarifas elevadas por parte da China.

O ministro do Comércio, Simon Birmingham, criticou uma decisão "claramente injusta e inadequada".

A Austrália "defenderá de maneira enérgica" seu setor de vinicultura contra as taxas impostas por Pequim, afirmou o ministro da Agricultura, David Littleproud, que prometeu recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Nesta sexta-feira, as ações da Treasury Wine Estates, uma das principais empresas produtoras de vinho do país, caíram 11% na Bolsa de Sydney.

Em Pequim, o porta-voz do ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, defendeu nesta sexta-feira as medidas adotadas pela China para proteger seus produtores e consumidores.

Ele culpou a Austrália pela deterioração das relações bilaterais e pediu "introspecção" e que o país "comece perguntando se respeitou os interesses chineses".

Em volume, a Austrália foi o maior exportador de vinho para a China no primeiro semestre de 2020, à frente de França e Chile, segundo a Câmara de Comércio de Alimentação Chinesa (CFNA).

As exportações de vinho australiano para o gigante asiático alcançaram no ano passado 1,25 bilhão de dólares australianos (919 milhões de dólares), segundo Canberra.

Ação "brutal"

Em um contexto de grande tensão entre os dois países, outro fator aumenta a discórdia: os meios de comunicação.

Em agosto, Cheng Lei, uma apresentadora australiana da emissora de televisão pública chinesa em língua inglesa CGTN, foi detida na China por razões de "segurança nacional" e seu paradeiro é desconhecido desde então.

Poucas semanas depois, dois repórteres australianos fugiram do país pelo temor de detenção.

Uma deles se refugiou na embaixada da Austrália em Pequim e o outro no consulado australiano de Xangai. Após negociações diplomáticas, os dois aceitaram passar por um interrogatório antes da autorização para deixar o país.

Pequim acusou em setembro o serviço de inteligência australiano de executar operações nas residências de quatro jornalistas chineses na Austrália.

Os correspondentes foram interrogados e seus telefones, computadores e tablets confiscados, de acordo com a China. Pequim classificou o comportamento como "brutal".

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