Venezuela

Partido de Maduro vence eleições parlamentares na Venezuela com alta abstenção

Boicotada por quase toda a oposição, a eleição apresentou 69% de taxa de abstenção em que mais de 20 dos 30 milhões de habitantes do país poderiam votar

Agência France-Presse
postado em 07/12/2020 09:10 / atualizado em 07/12/2020 09:11
O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, torcendo por apoiadores durante um comício de campanha em Caracas, em 3 de dezembro de 2020, antes das eleições parlamentares do fim de semana. -  (crédito: Jhonn ZERPA / Presidência venezuelana / AFP)
O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, torcendo por apoiadores durante um comício de campanha em Caracas, em 3 de dezembro de 2020, antes das eleições parlamentares do fim de semana. - (crédito: Jhonn ZERPA / Presidência venezuelana / AFP)

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, recuperou no domingo o controle do Parlamento, cinco anos depois de perder maioria na Assembleia, graças à vitória do chavismo nas eleições legislativas boicotadas por quase toda a oposição e marcadas por uma elevada taxa de abstenção de 69%, além da forte rejeição internacional.

O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e seus aliados receberam 67,6% dos 5.264.104 votos contabilizados em um primeiro boletim, com 82,35% dos sufrágios transmitidos, anunciou na madrugada desta segunda-feira Indira Alfonzo, presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

Alfonzo não informou, no entanto, quantas das 277 cadeiras em jogo ficarão nas mãos do chamado Grande Polo Patriótico.

A taxa de abstenção alcançou 69% em eleições nas quais poderiam votar mais de 20 dos 30 milhões de habitantes do país. Os principais partidos políticos de oposição, liderados por Juan Guaidó, chamaram as legislativas de "fraude" e pediram à população que ficasse em casa.

"Feliz madrugada da vitória", celebrou Maduro. "Temos uma nova Assembleia Nacional, conseguimos uma tremenda e gigantesca vitória".

Nas legislativas de 2015, quando a oposição rompeu 15 anos de hegemonia chavista, a taxa de participação foi de 71%. Em 2010, o índice alcançou 66,45%.

A abstenção de domingo foi a maior registrada em eleições legislativas desde 2004, quando apenas 25% dos eleitores compareceram às urnas. Na época, a oposição não participou da votação ao alegar que não havia condições para o pleito.

Muitos locais de votação permaneceram praticamente vazios ao longo do domingo. O uso de máscara foi obrigatório, com marcas no chão para manter o distanciamento físico pela pandemia de covid-19.

A oposição já havia boicotado a eleição presidencial de 2018. Ao acusar o chefe de Estado de reeleição fraudulenta, a maioria opositora do Parlamento declarou Maduro como "usurpador" e Guaidó se autoproclamou presidente encarregado da Venezuela, com o apoio de mais de 50 países, incluindo os Estados Unidos.

A votação de 2018 teve participação de 46,07% dos eleitores, a menor taxa para uma eleição presidencial na era democrática venezuelana, que começou em 1958.

"Tivemos paciência para nos livrarmos desta Assembleia Nacional nefasta (...) que trouxe a praga das sanções", declarou Maduro ao votar na principal instalação militar de Caracas, o Forte Tiuna. Ele mudou o local de votação no último minuto.

"Fraude consumada"

"A fraude foi consumada. A rejeição majoritária do povo da Venezuela é evidente (...). A maioria da Venezuela deu as costas a Maduro e sua fraude", declarou Guaidó, em referência à abstenção, em um vídeo publicado nas redes sociais.

O chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, chamou as eleições de "farsa" em uma mensagem no Twitter.

Washington lidera a pressão contra Maduro com sanções econômicas contra a Venezuela, incluindo um embargo petroleiro em vigor desde abril de 2019.

"Falou um zumbi (...). Tomara que em breve a diplomacia volte ao Departamento de Estado e à Casa Branca", reagiu o chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza, em uma alusão à derrota eleitoral do republicano Donald Trump para o democrata Joe Biden.

Brasil, Canadá, Colômbia, Costa Rica e Panamá não reconheceram os resultados das eleições de domingo. A União Europeia não considerou a votação confiável.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) já havia expressado sua rejeição ao processo.

Apesar do boicote, uma ala dissidente da oposição apresentou candidatos, incluindo alguns por partidos opositores que defendiam o veto, depois que a governista Corte Suprema entregou o controle das formações a adversários de Guaidó.

Os opositores dissidentes de Guaidó receberam 17,95% dos votos, segundo o boletim inicial da CNE. Pequenos partidos chavistas distanciados de Maduro e outras formações minoritárias levaram os outros votos.

Críticas e apoio

Guaidó convocou um plebiscito (7-12 de dezembro) para prolongar o mandato do atual Parlamento até que seja possível organizar "eleições livres, verificáveis e transparentes".

Será uma consulta simbólica, pois Maduro exerce controle territorial e institucional com o apoio das Forças Armadas.

Em meio às críticas internacionais, Maduro encontrou algumas vozes de apoio para as legislativas.

"Desejo que a União Europeia faça uma reflexão", disse o ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, que liderou tentativas frustras de diálogo na Venezuela e atuou desta vez como observador eleitoral. "Não reconhecer é ignorar? É necessário se comprometer”, acrescentou.

Os ex-presidentes Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Fernando Lugo (Paraguai), assim como a ex-senadora colombiana Piedad Córdoba, estiveram entre os convidados pelo governo chavista.

"Estas eleições vão fortalecer a democracia na América Latina", disse Morales.

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