EUA

"Estarei pronto a trabalhar com Vossa Excelência", diz Bolsonaro a Biden em nota

Depois de o Brasil tornar-se o único país do G20 a não admitir a vitória de Joe Biden, Bolsonaro parabeniza democrata e afirma estar "pronto a trabalhar" com o presidente eleito. Para brasilianistas, o estrago já foi feito

Rodrigo Craveiro
postado em 16/12/2020 06:00
 (crédito: Drew Angerer/AFP)
(crédito: Drew Angerer/AFP)

Até as 17h de ontem, o Brasil era o único país do G20 — grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo e pela União Europeia (UE) — a reconhecer a vitória de Joe Biden nas eleições norte-americanas. Até mesmo os presidentes Vladimir Putin (Rússia) e Andrés Manuel López Obrador (México), as últimas nações do bloco, tinham cumprimentado o democrata. Foram necessários 38 dias para que Jair Bolsonaro, enfim, cumprimentasse Biden. “Saudações ao presidente Joe Biden, com meus melhores votos e a esperança de que os EUA sigam sendo ‘a terra dos livres e o lar dos corajosos’”, afirma uma nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores brasileiro em nome de Bolsonaro. “Estarei pronto a trabalhar com a Vossa Excelência e dar continuidade à construção de uma aliança Brasil-EUA, na defesa da soberania, da democracia e da liberdade em todo o mundo, assim como na integração econômico-comercial em benefício dos nossos povos”, acrescenta o comunicado. O mesmo texto foi reproduzido no Twitter de Bolsonaro.

Minutos antes da divulgação da nota do Itamaraty, em entrevista à emissora de tevê Band, Bolsonaro foi indagado se estaria prestes a reconhecer Biden. “Alguns minutos antes de entrar no ar, eu dei o ‘start’ para o nosso ministro Ernesto Araújo para ele fazer essa comunicação nossa nas redes oficiais do governo, depois da minha rede particular. Posso te mandar agora aqui, desligando o telefone, qual foi a mensagem que eu mandei para o presidente Biden”, respondeu. “Da minha parte, e da parte dele, com toda certeza, o americano é pragmático, nós vamos fazer um trabalho de cada vez mais aproximação.”

Sob pressão e isolado na comunidade internacional, o governo brasileiro não teve escolha. A decisão de reconhecer Biden como o 46º presidente dos Estados Unidos veio depois da ratificação da vitória democrata pelo Colégio Eleitoral, na segunda-feira. Biden obteve 306 votos dos delegados contra 232 para o mandatário republicano Donald Trump. O Correio apurou que a demora de Bolsonaro em parabenizar Biden causou desconforto na Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Entre os diplomatas norte-americanos, a percepção é de que a relação bilateral envolve os dois países, e não dois presidentes. Mais cedo, ao ser questionado por jornalistas sobre o motivo pelo qual Bolsonaro não admitia a vitória de Biden, o vice-presidente Hamilton Mourão respondeu: “Não sei”.

Danos

Brasilianistas consultados pelo Correio advertem que o estrago está feito para a imagem do Brasil. Para o historiador britânico Kenneth P. Maxwell, professor aposentado da Universidade de Harvard e fundador do Programa de Estudos sobre o Brasil, “a resposta embaraçosamente atrasada de Bolsonaro à vitória de Biden somente cimentará sua imagem como o arquétipo do ‘presidente não sei de nada’ — um líder que usa frases que possam parecer inócuas para algumas pessoas, mas comunicam uma mensagem mais insidiosa”. “É um presidente que adota uma forma de comunicar intolerância mal disfarçada. Os simpatizantes de Bolsonaro não parecem se opor a isso. Afinal, até Putin e a Suprema Corte dos Estados Unidos aceitaram a realidade da eleição de Biden, e o Colégio Eleitoral confirmou sua vitória”, comentou.

Maxwell lembra que Trump venceu no condado de Miami-Dade, na Flórida, graças aos votos hispânicos dos cubano-americanos, dos nicaraguenses, dos venezuelanos e dos colombianos, que acreditavam nos ataques espúrios do magnata republicano ao “socialista” Biden. O especialista de Harvard entende que o silêncio prolongado de Bolsonaro vai danificar ainda mais a imagem do Brasil como um protagonista responsável no sistema internacional.

Por sua vez, James Naylor Green — historiador político da Brown University (em Rhode Island) — acredita que Bolsonaro cometeu um grande erro ao imitar Trump, seja na recusa em utilizar a máscara, seja na insistência em comparar a covid-19 com uma “gripezinha”, seja na defesa da hidroxicloroquina. Segundo ele, a demora em reconhecer Biden “apenas distancia o Brasil dos EUA e do mundo”. “Bolsonaro será visto como um político de extrema-direita fanático na arena internacional”, afirmou.

Eu acho...

 (crédito: Arquivo Pessoal)
crédito: Arquivo Pessoal

“A política de Joe Biden em relação ao Brasil deverá ser mais hostil. O democrata acredita fortemente nos danos causados pelas mudanças climáticas e na necessidade de enfrentar a crise com urgência. Com Jair Bolsonaro, o Brasil tornou-se pária. Até o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, é um entusiasta de uma agenda ‘verde’ e, no próximo ano, sediará uma grande conferência internacional sobre mudanças climáticas. Sob o governo Bolsonaro, o Brasil inevitavelmente estará no banco dos réus.” Kenneth P. Maxwell, professor aposentado da Universidade de Harvard e fundador do Programa de Estudos sobre o Brasil.

“Haverá membros do Congresso e integrantes do governo Biden que começarão a pressionar a nova gestão para se distanciar do Brasil. Também vão pressionar Jair Bolsonaro a mudar políticas, não apenas em relação ao desmatamento, mas também à defesa dos direitos humanos e civis e a temas articulados pelos movimentos sociais e políticos no Brasil que encontram eco nos Estados Unidos. É possível que Biden se una a governos europeus para isolar Bolsonaro, por conta de suas políticas.” James Naylor Green, historiador político da Brown University (em Rhode Island).

Até o senador Mitch McConnell cedeu...

 (crédito: Jim Watson/AFP - 20/7/20)
crédito: Jim Watson/AFP - 20/7/20

O líder da maioria republicana do Senado, Mitch McConnell (E), reconheceu a vitória do democrata Joe Biden nas eleições e o parabenizou, em contraste com a postura de Donald Trump (D). “Ontem os eleitores (do Colégio Eleitoral) se reuniram em 50 estados e, a partir desta manhã, nosso país tem oficialmente um presidente eleito”, declarou o influente senador em um discurso. “Sendo assim, hoje quero parabenizar o presidente eleito Joe Biden”, acrescentou. McConnell foi um pilar fundamental de Trump para governar e seu papel no Senado foi crucial para avançar na agenda do governo.

O primeiro gay a integrar o gabinete

 (crédito:  Scott Olson/AFP - 1/3/20)
crédito: Scott Olson/AFP - 1/3/20

O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, vai nomear seu ex-adversário nas primárias democratas, Pete Buttigieg (E), como secretário do Transporte, reportaram veículos de comunicação americanos. Buttigieg, 38 anos, foi uma revelação na campanha eleitoral, passando de prefeito de uma pequena cidade em Indiana a uma sensação midiática em nível nacional. Se for confirmado pelo Senado, Buttigieg será a primeira pessoa da comunidade LGBTQIA+ a assumir um cargo permanente no alto escalão do Executivo, destacou a ONG Victory Institute, que defende representatividade para o grupo. Buttigieg é casado com o professor Chasten (D).

Solenidade de posse readaptada

 (crédito: Stefani Reynolds/AFP)
crédito: Stefani Reynolds/AFP

A posse do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, em 20 de janeiro, terá presença física do público “extremamente limitada” — uma forma de evitar a propagação do coronavírus. “Em 20 de janeiro, o presidente eleito (Joe) Biden e a vice-presidente eleita (Kamala) Harris prestarão juramento no Capitólio durante uma cerimônia histórica, que incluirá protocolos muito rígidos de segurança e saúde”, anunciou o Comitê de Inauguração Presidencial (PIC), por meio de um comunicado. “A presença na cerimônia será extremamente limitada, e o desfile em sequência será reinventado”, alertou o comitê, que pediu aos cidadãos que não viajassem a Washington para o evento.

Muito aguardada, a cerimônia costuma ocorrer na escadaria do Congresso, de frente para o gramado do National Mall. A cada quatro anos, centenas de milhares de espectadores viajam para a capital dos Estados Unidos para assisti-la. Em janeiro de 2017, o evento desencadeou um dos primeiros conflitos entre o agora presidente Donald Trump e a imprensa, que evidenciou o número de participantes, objetivamente menor do que na posse de Obama, ocorrida em 2009. No entanto, a cerimônia de 2021 será realizada à sombra da pandemia do novo coronavírus, que matou 302 mil norte-americanos e infectou 16,6 milhões.

O PIC afirmou trabalhar para “garantir que a posse (...) honre e lembre as tradições sagradas americanas, enquanto protege os cidadãos e evita a disseminação da covid-19”. Para isso, uma renomada equipe de profissionais foi contratada para produzir o evento e “estabelecer um programa inovador, que dará aos americanos a possibilidade de participar com segurança da posse”.

Maju Varghese, diretor-executivo do comitê, fez menção no jornal The Washington Post a “modelos que vimos durante a pandemia”, como as telas que os espectadores mostram durante os jogos de basquete ou a transmissão de eventos de vários ângulos. Outra incógnita para o evento será a presença ou não de Donald Trump, que continua sem reconhecer a derrota. O presidente em fim de mandato também não confirmou se receberá Joe e Jill Biden em sua visita formal à Casa Branca como parte do processo de transição.

 

 

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