Países europeus isolam Reino Unido

Voos britânicos são suspensos temporariamente por 10 nações. Embaixadores do bloco continental reúnem-se, hoje, para avaliar medidas que evitem a disseminação da nova cepa. Com potencial maior de transmissão, variante não parece mais perigosa, nem imune às vacinas

Correio Braziliense
postado em 20/12/2020 21:39
 (crédito: Niklas Halle’n/AFP)
(crédito: Niklas Halle’n/AFP)

Depois de a Inglaterra anunciar um novo confinamento devido à detecção de uma variante do Sars-CoV-2 aparentemente mais infectante, 10 países europeus anunciaram a suspensão de voos, balsas e, em alguns casos, trens, procedentes do Reino Unido. A medida começou à meia-noite. O bloqueio imposto por Áustria, Bélgica, Alemanha, França, Itália, Irlanda, Holanda, República Tcheca, Romênia e Bulgária varia de um a dois dias, enquanto especialistas correm para avaliar o grau de periculosidade da nova cepa, surgida no sudoeste inglês.

Hoje, os embaixadores dos 27 Estados-membros da União Europeia (UE) reúnem-se, extraordinariamente, em Bruxelas, para discutir as restrições de viagem. Os Estados Unidos ainda não planejam proibir deslocamentos aéreos, mas, em entrevista à CNN, Mocef Slaoui, consultor da operação de logística da distribuição da vacina anticovid, afirmou que os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA estão “examinando com muito cuidado” a situação.

No sábado, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse que Londres e o sudeste da Inglaterra voltariam a um isolamento estrito devido à nova variante que, segundo dados preliminares, pode ser 70% mais contagiosa, embora não existam evidências de que ela seja mais perigosa nem mais letal. Também não deve ser imune às vacinas que começam a ser utilizadas no mundo.

Com a informação sobre a cepa, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu para os países europeus “reforçarem os controles” no continente. De acordo com a agência das Nações Unidas, a variante, além de “indícios preliminares de que pode ser mais infecciosa, poderia também afetar a eficácia de alguns métodos de diagnóstico”.

Sequenciamento

Fora do território britânico, foram detectados nove casos na Dinamarca, um na Holanda, um na Itália, um na África do Sul e outro na Austrália. Mas, de acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, sigla em inglês), é possível que haja mais pessoas infectadas por ela. “A maioria dos países da União Europeia sequencia o vírus em uma proporção muito menor do que o Reino Unido, então, não se pode descartar uma circulação maior fora de lá”, comunicou, em nota. Por isso, a OMS recomendou que “todos os países aumentem suas capacidades de sequenciamento do vírus Sars-CoV-2 sempre que possível e compartilhem dados internacionalmente, especialmente se as mesmas mutações problemáticas forem identificadas”.

O conselheiro científico do governo britânico, Patrick Vallance, afirmou que a nova variante do Sars-CoV-2, além de se propagar rapidamente, está se transformando na forma dominante do vírus no Reino Unido, o que gerou “um aumento muito forte” das hospitalizações em dezembro. A nova cepa teria aparecido em meados de setembro em Londres ou em Kent (sudeste), segundo ele. Chamada VUI 202012/01 (Variant Under Investigation — variante em investigação, na tradução livre), ela compreende várias mutações, incluindo uma chamada N501Y, na proteína spike, que permite ao vírus invadir a célula hospedeira. Segundo Matt Hancock, ministro britânico da Saúde, a nova versão do vírus circula “fora de controle”.

“As pessoas com vínculo epidemiológico com os portadores da nova mutação, ou que tenham viajado para os setores infectados, devem ser identificadas imediatamente”, destacou o ECDC. “É uma notícia muito ruim”, comentou o professor John Edmunds, da London School of Hygiene & Tropical Medicine. “Parece que esse vírus é muito mais infeccioso que a cepa anterior.”

A informação “sobre a nova cepa é muito preocupante”, disse o professor Peter Openshaw, imunologista do Imperial College de Londres. “Principalmente porque parece ser entre 40% e 70% mais transmissível”, explicou.

Seguindo os passos da Holanda, onde a suspensão dos voos de passageiros procedentes do Reino Unido entrou em vigor ontem e será mantida até 1º de janeiro, a Bélgica interrompeu voos e trens procedentes da Inglaterra a partir de 0h, assim como a Itália. A Alemanha, que fechou o espaço aéreo para o território inglês, anunciou que, a partir de hoje, limitou as vias marítimas, ferroviárias e rodoviárias aos cidadãos do Reino Unido e da África do Sul. A França vetou os deslocamentos de pessoas procedentes da Inglaterra, inclusive, os “relacionados ao transporte de mercadorias” a partir de 0h e por 48 horas. “Apenas o transporte de carga desacompanhada será autorizado”, anunciou o governo.

Nova Zelândia faz doação

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacina Ardern, anunciou que o país oferecerá vacinas gratuitas contra o coronavírus para as ilhas vizinhas do Pacífico. Foram adquirdas mais de 23 milhões de doses de vários laboratórios, para o país de apenas 5 milhões de habitantes. As doses gratuitas serão fornecidas para Tokelau, Ilhas Cook, Niue, Samoa, Tonga e Tuvalu. A ministra das Relaçoes Exteriores, Nanaia Mahuta, disse que o governo está comprometendo US$ 65 milhões para ajudar as nações do Pacífico a “terem acesso a vacinas contra covid-19 seguras e eficazes na primeira oportunidade”.

Mutações não impactam vacina

 (crédito: Paul Sancya/AFP)
crédito: Paul Sancya/AFP


As vacinas para covid-19 são eficazes contra a cepa mutante detectada no Reino Unido, disseram especialistas europeus, segundo o ministro da Saúde alemão, Jens Sapn. “Pelo que sabemos até agora, e após discussões que ocorreram entre especialistas das autoridades europeias, a nova variante do vírus não tem impacto sobre as vacinas”, disse, para o canal de televisão pública ZDF, assinalando que continuam “tão eficazes” quanto antes.

“Precisamos saber se a variante promove uma replicação viral mais eficiente ou se as mutações acarretem uma melhor ligação às células que revestem o nariz e o pulmão”, diz Peter Openshaw, ex-presidente da Sociedade Britânica de Imunologia e professor de medicina experimental no Imperial College London. “Atualmente, não há evidência direta de que o vírus seja capaz de escapar da imunidade gerada por infecção passada ou por vacinação, mas há boas razões para pensar que não. Tudo isso precisa ser investigado.”

Recomendação

Openshaw destacou que, no momento, é “notável” que 350 mil pessoas já tenham recebido a primeira dose da vacina Pfizer/BioNTech. “É vital que a vacinação seja acelerada o mais rápido possível para controlar os efeitos da infecção nos mais vulneráveis e para proteger os trabalhadores da linha de frente. Eu recomendo veementemente a todos que estão recebendo a oferta de vacinação que sejam vacinados”.

A Agência Europeia de Medicamentos deve se reunir hoje para, em princípio, aprovar a primeira vacina a ser usada em território da UE, a desenvolvida pelos laboratórios Pfizer/BioNTech, utilizada em vários países, incluindo Estados Unidos e Reino Unido.

Nos EUA, o imunizante da Moderna começou, ontem, a ser despachado. A previsão é de que a vacinação com a substância seja aplicada, a partir de hoje, prioritariamente em profissionais de saúde e residentes de lares de longa permanência. O conselho do Comitê Consultivo em Práticas de Imunização decidirá quem, depois desse grupo, deve receber as doses restantes.

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