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Entre vacina e nova cepa, Europa se arma contra a covid-19

Nova cepa do Sars-CoV-2 se espalha e infecções são registradas na Espanha, Itália, França e Suécia. Os 27 países-membros da União Europeia iniciam, hoje, esforço de guerra conjunto para imunizar toda a população. Alemanha, Hungria e Eslováquia se anteciparam

Rodrigo Craveir
postado em 27/12/2020 06:00
 (crédito: Matthias Bein / dpa / AFP)
(crédito: Matthias Bein / dpa / AFP)

Edith Kwoizalla nasceu durante a pandemia da gripe espanhola, que matou pelo menos 50 milhões de pessoas. Ao receber a vacina do consórcio Pfizer/BioNTech, em um asilo de Halberstadt (centro-norte da Alemanha), a idosa de 101 anos sorriu por detrás da máscara azul. Hoje, enquanto a nova cepa do Sars-CoV-2 espalha-se pelo continente, cidadãos dos 27 países-membros da União Europeia (UE) deverão começar a experimentar a mesma sensação de alívio sentida por Edith, a primeira cidadã alemã a ser imunizada.

A Comissão Europeia, órgão executivo do bloco, pretende estender a campanha de imunização até terça-feira. Além da Alemanha, a Hungria e a Eslováquia anteciparam a vacinação de seus cidadãos e aplicaram as primeiras doses ontem, quando o mundo passou da marca de 80 milhões de infectados pelo coronavírus. Até o fechamento desta edição, a covid-19 tinha matado mais de 540 mil pessoas na Europa e 1,75 milhão em todo o planeta.

Os primeiros carregamentos do fármaco da Pfizer/BioNTech foram entregues a hospitais da França, da Espanha e da Itália. Terão prioridade na imunização os idosos e os funcionários do setor de saúde envolvidos na resposta à pandemia. “Nós estamos começando a virar a página em um ano difícil. Hoje, é o dia da entrega e, amanhã, a vacinação contra a covid-19 inicia-se em toda a União Europeia”, declarou, em vídeo divulgado, ontem, nas redes sociais, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. “A vacina estará disponível, ao mesmo tempo, a todos os países da UE. As pessoas começarão a tomá-la em Atenas, Roma, Helsinque, Sófia. Nosso Dia da Vacinação Europeia é um tocante momento de unidade e uma história de sucesso da Europa”, disse.

Ursula assegurou que a UE garantiu doses suficientes para os 450 milhões de cidadãos de países-membros do bloco. “A vacinação nos ajudará a ter a nossa vida normal de volta, de modo gradual. Uma vez que um número suficiente de pessoas for vacinado, poderemos começar a viajar, encontrar nossos familiares e amigos novamente. Até lá, precisamos continuar a ser cautelosos e proteger a nós mesmos e aos nossos entes queridos do vírus.” A agência de notícias France-Presse informou que caminhões frigoríficos carregados de vacinas saíram da fábrica da Pfizer em Puurs, nordeste da Bélgica, escoltados por forças de segurança.

Apesar do otimismo ante a imunização, o temor da nova cepa do Sars-CoV-2 paira sobre o mundo. A variante, 70% mais infecciosa, foi detectada pela primeira vez no Reino Unido e na África do Sul. Ontem, os primeiros casos foram registrados na Espanha, na Suécia, na Itália, na França, no Japão e no Canadá. O jornal espanhol El País divulgou que quatro cidadãos de Madri foram infectados. Alemanha, Dinamarca, Holanda e Austrália haviam confirmado a circulação da nova variante.

Especialistas

O epidemiologista Antoine Flahault (leia Duas perguntas para) — diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Genebra (Suíça) — afirmou ao Correio que somente metade dos europeus expressou a vontade de ser imunizada contra a covid-19. “Há muita hesitação sobre a vacinação, o que não é algo totalmente inesperado. Além de ser de um tipo totalmente novo (RNA mensageiro), a vacina foi produzida rapidamente e tem sido altamente politizada”, comentou. “No entanto, meu sentimento é o de que, após milhões de pessoas serem imunizadas em todo o mundo, sem efeitos colaterais importantes registrados, veremos, progressivamente, mais adesão à vacina em todos os lugares.”

Flahault considera importante que os idosos e a população de alto risco estejam sendo imunizados. “As pesquisas indicavam que essa parcela da sociedade era a mais resistente. Se conseguirmos proteger uma parte significativa dela rapidamente, a vacina pode mudar o jogo no curso da pandemia. Os lockdowns foram implementados para evitar a sobrecarga dos hospitais”, observou. “Resguardar idoso e vulneráveis pode evitar hospitais lotados e prevenir lockdowns, antes de se pensar na erradicação do coronavírus.”

Para Veer Pushpak Gupta, médico do National Health Service (NHS) que há oito meses trata pacientes com a covid-19 no Reino Unido, a vacinação na Europa é uma “ótima notícia”. No entanto, ele prefere a cautela. “A prevenção da disseminação do Sars-CoV-2 somente ocorrerá quando entre 60% e 70% da população tiver sido vacinada, o que levará a uma imunidade de rebanho eficaz”, explicou ao Correio. “Apesar de a nova cepa ser 70% mais infecciosa, isso não significa que haja um aumento na mortalidade ou na morbidade. Até onde sabemos, os testes de PCR e as vacinas são efetivas contra a nova cepa.”

Professor de epidemiologia da Universidade de Bremen (Alemanha), Hajo Zeeb celebrou a imunização na Europa como uma atitude para dar segurança à população nos próximos meses. “No geral, 60% dos alemães querem ser vacinados. A porcentagem é mais baixa na França, mas similar ou mais alta em muitos países. Todas as nações estão ansiosas em começar a vacinação e em enfrentar o grande desafio logístico de imunizar as pessoas”, afirmou à reportagem. Zeeb acha “muito provável” que a nova cepa se espalhe. “Provavelmente, ela já existia em setembro. Essa variante preocupa por sua maior infectividade. A boa coisa é que sabemos as medidas que funcionam contra ela.”

Eu acho...

“A nova cepa do vírus encontrada na Grã-Bretanha e na África do Sul naturalmente se espalhará pelas nações devido às viagens internacionais e à globalização. Na minha opinião, isso já ocorreu. Se os laboratórios de diversos países verificarem, descobrirão que a cepa existe dentro da população.” Veer Pushpak Gupta, especialista em medicina geral e em saúde global, médico do National Health Service (no Reino Unido).

 

Duas perguntas para

Antoine Flahault, epidemiologista, diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Genebra (Suíça), que monitora o avanço da covid-19 no mundo

Como o senhor vê a disseminação da nova cepa do Sars-CoV-2 pela Europa?

Os vírus de RNA são propensos a mutações. Essas duas variantes foram detectadas na África do Sul e no Reino Unido, dois dos países onde se buscam mais mutações genômicas do coronavírus. Não está certo nem mesmo se as variantes surgiram nesses dois países. Quando estão localmente associadas ao aumento observado de casos — uma segunda onda na África do Sul e um rebote na incidência de casos no sudeste da Inglaterra e no País de Gales —, nem mesmo se evidenciou que essas variantes causaram maior transmissão do que as cepas anteriores. Pode ser apenas uma associação espúria, ou seja, associada ao acaso. Não necessariamente uma relação causal. Então, claramente, precisamos de mais pesquisas.

Existe o risco de essa nova variante se espalhar pelo mundo?

Em primeiro lugar, precisamos sabe se essas variantes representam ameaças adicionais ou não. Pode ser apenas o resultado esperado no curso da evolução do vírus, sem qualqur efeito particular sobre a transmissão ou sobre a gravidade da covid-19. Em segundo lugar, temos de estudar se a vacina e as ferramentas de diagnóstico são afetadas por essas mutações. Se não houver efeitos das mutações sobre o diagnóstico de PCR e sobre a eficácia da vacina, então a ameaça parecerá limitada. Em terceiro lugar, temos de perceber que, quando as mutações ocorrem, cientistas e formuladores de políticas são frequentemente convencidos de que elas são a causa de quaisquer rebotes ou mudanças na situação epidemiológica observada. Veremos nas próximas semanas.

  • O médico Bernhard Ellendt (D) aplica imunizante da Pfizer/BioNTech em Edith Kwoizalla, 101 anos, em asilo de Halberstadt: primeira alemã protegida
    O médico Bernhard Ellendt (D) aplica imunizante da Pfizer/BioNTech em Edith Kwoizalla, 101 anos, em asilo de Halberstadt: primeira alemã protegida Foto: Matthias Bein/AFP
  • A húngara Adrienne Kertesz, médica de Budapeste, recebe a vacina, administrada pelo infectologista Janos Szlavik
    A húngara Adrienne Kertesz, médica de Budapeste, recebe a vacina, administrada pelo infectologista Janos Szlavik Foto: Szilard Koszticsak/AFP
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    Emoção e otimismo: mulher faz o "V" da vitória ao ser inoculada, em hospital universitário de Nitra (Eslováquia) Foto: Vladimir Simicek/AFP
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