ESTADOS UNIDOS

A nove dias de transmitir o poder, Trump enfrenta pressão pela renúncia

Julgamento político do então presidente norte-americano começa formalmente hoje

Rodrigo Craveiro
postado em 11/01/2021 06:00
 (crédito: AFP / Andrew CABALLERO-REYNOLDS)
(crédito: AFP / Andrew CABALLERO-REYNOLDS)

O homem mais poderoso do mundo foi “amordaçado” pelas redes sociais, enfrenta a ameaça de impeachment e entra para a história por ter colocado em xeque uma das democracias mais sólidas do planeta. Donald Trump pode se tornar o primeiro presidente dos Estados Unidos a ser submetido a um julgamento político no Congresso por duas vezes. O vice, Mike Pence, também não descarta invocar a 25ª Emenda da Constituição, a qual possibilita o afastamento do chefe de Estado por incapacidade de governar.

Em carta aos colegas democratas, a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, se disse pronta a iniciar o segundo processo de impeachment. “Ao proteger nossa Constituição e nossa democracia, agiremos com urgência, pois este presidente representa uma ameaça iminente para ambos. Com o passar dos dias, o horror do ataque contínuo à nossa democracia perpetrado por este presidente é intensificado, assim como a imediata necessidade de ação”, escreveu a deputada na mensagem.

Os artigos de impeachment deverão ser submetidos ao Comitê Judiciário da Câmara, hoje, e votados em plenário amanhã. No entanto, o julgamento político no Senado pode ser adiado — uma forma de evitar turbulências políticas durante o novo governo. “Vamos dar ao presidente eleito (Joe) Biden 100 dias. Poderíamos enviar os pedidos (de impeachment) um pouco mais tarde”, disse o deputado democrata James Clyburn à emissora CNN.

Ontem, republicanos somaram-se aos democratas na defesa do afastamento do magnata. O senador Pat Toomey pediu a imediata renúncia de Trump. “Ele caiu em um nível de loucura absolutamente impensável. Acho que o melhor para o país é o presidente renunciar e partir o mais breve possível. Não parece existir consenso ou vontade para exercer a opção da 25ª Emenda. E não acho que haja tempo suficiente para impeachment. O melhor seria uma demissão”, comentou o republicano.

Na quinta-feira, o deputado Alan Kitzinger também tinha defendido a saída voluntária de Trump. Ex-governador de Nova Jersey, Chris Christie disse à emissora ABC que o que ocorreu no Capitólio foi um “incitamento à rebelião”. “Tivemos pessoas mortas; para mim, não há muitas dúvidas aqui. Se incitamento à insurreição não é (passível de impeachment), eu realmente não sei o que é.”

Bruce Ackerman, professor de direito da Universidade de Yale, explica ao Correio que a Constituição dos Estados Unidos somente prevê o impeachment como uma ferramenta para remover um presidente enquanto estiver no cargo. “O texto contém uma cláusula que rege a situação de Trump, uma vez que ele deixar a Casa Branca, no dia 20. O texto estipula que Trump fica automaticamente impedido de cumprir outro mandato se ele ‘anteriormente tiver se envolvido em insurreição ou rebelião contra a Constituição’. Na verdade, ele prevê que, se Trump pretende concorrer novamente, deve persuadir o Congresso a remover tal deficiência pelo voto de dois terços de cada Casa.”

A Seção 3 da 14ª Emenda da Constituição, aprovada depois da Guerra Civil, visava impedir autoridade civil ou militar que tivesse servido ao país, antes do confito, de exercer novamente posição de liderança, caso tenha obedecido ao Sul durante a rebelião contra os EUA. “Poucos anos depois da promulgação da Seção 3, o Congresso perdoou aqueles homens por traição, com base na Lei de Anistia de 1872. Se Trump quer voltar ao cargo, precisa convencer dois terços de ambas as Casas a conceder-lhe perdão similar. Mas, Pelosi parece crer que, se o Congresso quiser barrar Trump de um segundo mandato, o impeachment por dois terços do Senado é necessário, mesmo que o julgamento se estenda após 20 de janeiro”, disse Ackerman.

25ª Emenda

Em entrevista ao programa 60 Minutes, Pelosi admitiu apoiar a invocação da 25ª Emenda, uma forma de remover o presidente antes de 20 de janeiro. A líder da Câmara explicou, no entanto, que o fato de Trump tornar-se inabilitado politicamente é uma das justificativas dos entusiastas de um impeachment. “Gosto da 25ª Emenda porque ela nos livra dele (Trump)”, comentou, antes de tomar a decisão sobre encaminhar o impeachment.

Segundo Allan Lichtman, historiador político da American University (em Washington), o legado de Trump não será conhecido até que se avalie as consequências de seu ataque à democracia, ao longo dos próximos anos. “A democracia é preciosa, mas frágil. Os americanos não podem, passivamente, assumir que ela vá prosperar. Eles devem ativamente defendê-la, com suas vozes, seu dinheiro, seu ativismo e seu voto”, disse ao Correio.

A espada de Conan como símbolo da democracia

 (crédito: Twitter/Reprodução)
crédito: Twitter/Reprodução

Com a espada usada pelo personagem Conan, interpretado por ele, o ator e
ex-governador da Califórnia pelo Partido Republicano Arnold Schwarzenegger divulgou um vídeo no qual fez um defesa da democracia norte-americana, atacou o presidente Donald Trump e associou a invasão do Capitólio à “Noite dos Cristais” — um tumulto ocorrido em 1938, na Alemanha, em que turbas inspiradas pelo nazismo queimaram sinagogas e destruíram lojas pertencentes a judeus. “Vocês veem essa espada? Esta é a espada do Conan. Quanto mais você forjar uma espada, mais forte ela se torna. Quanto mais você a golpeia com um martelo e depois a queima no fogo, e a lança na água fria, e a golpeia novamente, e a mergulha no fogo e na água... Quanto mais você faz isso, mais ela se fortalece”, afirmou. “Nossa democracia é como o aço desta espada. (…) Nossa democracia foi forjada em guerras, injustiças e insurreições. (…) Nós sairemos mais fortes porque, agora, entendemos o que pode ser perdido”, acrescentou. Segundo Schwarzenegger, os vândalos que estilhaçaram os vidros do Capitólio também o fizeram com as ideias e pisotearam os princípios básicos sobre os quais a nação foi assentada.” O ator e político classificou Trump como um “líder fracassado”. “Ele descerá para a história como o pior presidente de todos os tempos. A boa coisa é que, em breve, será tão irrelevante quanto um velho tuíte”, disparou, antes de desejar sucesso ao presidente eleito, Joe Biden. “Nós o apoiamos com todos os nossos corações, enquanto você busca nos manter coesos. Para aqueles que pensam que podem reverter a Constituição dos Estados Unidos, saibam disto: vocês jamais vencerão.”

O futuro do país está nas mãos do vice discreto

 (crédito: Megan Varner/AFP)
crédito: Megan Varner/AFP

A animosidade entre Donald Trump e o vice, Mike Pence, poderá ser o fiel da balança do futuro político do magnata republicano. Depois de Trump avisar que não irá à posse de Joe Biden, Pence confirmou presença na solenidade, revelou a imprensa norte-americana. A decisão marca o contraponto entre as duas principais lideranças dos Estados Unidos. De acordo com a mídia dos EUA, Trump e Pence não se falam desde a quarta-feira, quando os vândalos assaltaram o Capitólio, depois de incitados pelo presidente. O atual titular da Casa Branca teria ficado enfurecido com o gesto do vice de não firmar oposição à certificação da vitória de Biden em uma sessão do Congresso comandada pelo próprio Pence, que acumula o cargo de presidente do Senado. “Um dos mais fiéis a Trump é, agora, o inimigo público número um no entorno do presidente”, resumiu o deputado republicano Adam Kinzinger, em entrevista à emissora ABC. Na quarta-feira, enquanto o Capitólio era invadido, Trump fustigava o companheiro de governo. “Mike Pence não teve coragem de fazer o que deveria ter feito para proteger o nosso país e a nossa Constituição”, tuitou. Vídeos publicados nas redes sociais mostram vários simpatizantes de Trump gritando “Enforquem Mike Pence”; outros chamavam o vice de “covarde”, enquanto caminhavam pelos corredores do Capitólio. Durante a confusão, Pence e a família estavam em um bunker do Congresso. Aos 61 anos, Pence é impassível e discreto. “É sólido como uma rocha, foi um vice fantástico”, comentou Trump, meses atrás. O futuro do magnata está nas mãos do vice. Se quiser, Pence pode invocar a 25ª Emenda da Constituição e abreviar o fim político daquele a quem mostrava lealdade.

Semana desastrosa

Confira os desdobramentos políticos que lançaram Trump no limbo

Domingo, 3 de janeiro
O jornal The Washington Post divulga uma gravação de áudio em que o magnata republicano insta Brad Raffensperger, a principal autoridade eleitoral da Geórgia, a “encontrar” 11.780 votos. “Não há nada em errado em dizer que você recalculou os votos”, sugeriu Trump. “Quero apenas encontrar 11.780 votos (…), porque vencemos nesse estado.”

Quarta-feira, 6 de janeiro
Em Washington, durante comício denominado “Salvem a América”, Trump exorta os simpatizantes a marcharem até o Congresso e avisa: “Se vocês não lutarem como o diabo, vocês não terão mais um país”. À tarde, vândalos invadem e depredam o Capitólio (foto), que se reunia para certificar a vitória eleitoral de Joe Biden. O ataque deixa cinco mortos.

Quinta-feira, 7 de janeiro
Depois de uma sessão histórica que se arrasta por toda a madrugada, o Congresso certifica a vitória de Biden. À noite, Trump divulga vídeo no Twitter em que se diz “perplexo com a violência e a ilegalidade”, pede reconciliação e reconhece, pela primeira vez, o governo de Biden. Os democratas começam a se articular para invocar a 25ª Emenda da Constituição e admitem a abertura de um processo de impeachment.

Sexta-feira, 8 de janeiro
Trump usa o Twitter para avisar que não comparecerá à posse de Biden, em 20 de janeiro, e volta a incitar os simpatizantes. “Os 75 milhões de grandes patriotas americanos que votarão em mim (…) terão uma voz gigante no futuro. Eles não serão desrespeitados ou tratados injustamente!!!”, escreveu. À noite, o Twitter cancela a conta de Trump.

Sábado, 9 de janeiro
As autoridades anunciam que mais de 90 pessoas foram presas pela invasão ao Capitólio. Cresce a pressão pela saída de Donald Trump, assim como a condenação internacional.

Eu acho...

“A invasão ao Capitólio é sinal de que a democracia norte-americana está sob cerco de uma determinada minoria, que não respeita as tradições que fizeram dela um farol para o mundo. Mas, não significa que a democracia esteja morrendo. A nação sobreviveu à Guerra Civil e ressurgiu, mais forte do que nunca. A nossa democracia está sob ameaça, mas não foi derrotada.” Allan Lichtman, historiador político da American University (em Washington).

 

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