Violência

'Vieram para matar', contam sobreviventes de massacre no Níger

Em sua maioria, os ataques jihadistas no Sahel são relâmpago, sejam eles dirigidos contra civis, sejam contra acampamentos militares

Agência France Presse
postado em 11/01/2021 11:14
 (crédito: SOULEYMANE AG ANARA / AFP)
(crédito: SOULEYMANE AG ANARA / AFP)

"Olhe para o meu corpo, recebi tantas balas que não sei exatamente quantas. As pessoas pensaram que eu estava morto, fiquei imóvel" até o fim do ataque - conta Nouhou Issoufou, um dos sobreviventes de um massacre de civis cometido por extremistas islâmicos no Níger.

Ao todo, 105 civis foram assassinados em 2 de janeiro em Tchuma Bangu e em Zarumadareye, no oeste do Níger, uma região onde ataques islâmicos ocorrem com frequência, mas nunca antes em tamanha escala. Ainda em estado de choque, moradores, que se refugiaram em Ouallam, capital do departamento do qual dependem as duas aldeias, contam o que aconteceu naquele dia fatídico.

Zarumadareye fica em uma região onde o grupo Estado Islâmico do Grande Saara (EIGS, filiado ao EI) está profundamente enraizado, na área conhecida como as "três fronteiras" - entre Mali, Burkina Faso e Níger.

Nesta vasta região rural pastoril, as comunidades vivem entre um país e outro, fora do alcance da autoridade do Estado central.

Às 9h, Nuhu Issufu e outros moradores de Zarumadareye ouviram ruídos de motor distantes. "Saímos de dentro de casa, vimos as motos, eram muitas", explica o jovem, deitado sobre uma esteira no hospital de Ouallam. Ele levanta a camisa para mostrar os curativos. "Não deu tempo de entrar em casa, eles atiraram em nós", relata.

Salve-se quem puder 

As rajadas se sucederam, enquanto os habitantes corriam. Nuhu correu para a vegetação rasteira e ficou lá. Várias balas o atingiram na omoplata e no braço.

Em sua maioria, os ataques jihadistas no Sahel são relâmpago, sejam eles dirigidos contra civis, sejam contra acampamentos militares em Burkina Faso, no Níger, ou em Mali. Normalmente, há dois combatentes em cada motocicleta.

Os grupos jihadistas se reagruparam pouco antes dos ataques e imediatamente se dispersaram em diferentes direções depois do crime. Andar de motocicleta é proibido há meses na área, na tentativa de impedir tal estratégia.

Trinta e três pessoas morreram em Zarumadareye no sábado. "Até pessoas da minha família, muitos primos. Quem atirou em mim é um peul (também conhecido como fulani), então ele atacou meu amigo e cortou sua garganta com uma faca".

A nove quilômetros de distância, a barbárie também atingiu a aldeia de Tchuma Bangu.

Os dois vilarejos são habitados principalmente por zarmas, um grupo étnico sedentário de agricultores. Em uma região com fortes tensões entre comunidades, principalmente por terras, vários fulani (que são nômades) foram mortos nas duas aldeias alguns dias antes, segundo fontes locais.

Os agressores dr sábado se dividiram em duas colunas para atacar as aldeias, disse o prefeito do município de Tondi Kiwindi, Almu Hassan, responsável pelas duas localidades atacadas.

"Eles falavam a língua peul", afirma Abdelkarim Yayé, deslocado em Oullam. Diversas fontes próximas às autoridades afirmam que os agressores eram membros da etnia zarma.

Pessoas queimadas 

No sábado, as autoridades organizaram um fórum em Ouallam com líderes comunitários, religiosos e políticos da área, para reafirmar a presença do Estado e promover a coesão social. Uma personalidade disse que o líder do ataque era um chefe local do Estado Islâmico, Hamidu Hama, um zarma de Tingara.

Abdelkarim, com um cafetã cinza sobre os ombros, considera que os aldeões são "como animais" amedrontados pela ameaça jihadista.

Em todas as partes do Sahel, a pressão dos grupos armados é tão forte que poucos ousam denunciar publicamente sua presença.

"São pessoas que antes (do ataque) patrulhavam entre as aldeias para cobrar o zakat (imposto islâmico), não se escondem quando estão nas nossas aldeias", afirma. "Não são gente que se esconde", insiste.

"Quando eles vieram, não perguntaram por ninguém em particular, apenas abriram fogo. Seja crianças, mulheres, ou homens, eles vieram matar todo mundo", diz Abdelkarim.

Ele declara que queimaram os celeiros de milho, onde a colheita da aldeia é armazenada em antecipação à estação seca. Algumas pessoas estavam escondidas ali e foram mortas. "Queimaram todos os campos. Queimaram todo o milho. Queimaram as pessoas", enumera.

Setenta e duas pessoas morreram em Tchuma Bangu, incluindo o irmão mais velho de Abdelkarim. Nuhu e Abdelkarim estão em Ouallam. Estão entre as três milhões de pessoas que tiveram de fugir de suas casas no Sahel, devido à violência. "Não podemos ficar na aldeia. Não sobrou ninguém", desabafa.

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