'Livre para escolher'

Na Itália, juiz cria programa para afastar as crianças da máfia

O projeto, promovido pelo juiz Roberto Di Bella, é o primeiro do gênero e visa evitar que crianças sigam os passos de seus pais no mundo do crime organizado

Agência France Presse
postado em 14/01/2021 14:16 / atualizado em 14/01/2021 14:21
 (crédito: ANDREAS SOLARO / AFP)
(crédito: ANDREAS SOLARO / AFP)

Lúcia pediu aos seus gêmeos de seis anos que entrassem no carro rápido e silenciosamente no meio da noite. Somente quando estavam a bordo do avião que os levava da Calábria (sul) para um destino secreto no norte, ela finalmente se sentiu livre de seu marido mafioso e de sua família.

"Eu sabia que não bastava mudar de bairro ou de amigos, tínhamos que fugir de tudo o que este mundo representava, aquela mentalidade", contou à AFP.

Essa fuga organizada da pequena cidade de Cinquefrondi fez parte de dezenas de operações desse tipo que começaram em 2012 para retirar crianças, e muitas vezes suas mães, de famílias pertencentes à poderosa e temida máfia calabresa, a 'Ndrangheta.

O projeto, promovido pelo juiz Roberto Di Bella, é o primeiro do gênero e visa evitar que crianças sigam os passos de seus pais no mundo do crime organizado.

O marido de Lúcia, o cunhado e sua sogra haviam sido condenados por crimes relacionados com a máfia, seu sogro, por homicídio. Lúcia foi libertada sob fiança, à espera de um recurso contra sua condenação por associação com a máfia.

"Se fosse condenada à prisão, teria que deixar meus filhos com a família do meu marido e a ideia me apavorava", assegura Lúcia, de 36 anos, cujo nome foi mudado para proteger seu anonimato, em depoimento por escrito enviado à AFP.

"Eu tive que impedir que isso acontecesse!", diz. Apesar das críticas iniciais, o programa judicial se tornou um protocolo antimáfia aprovado pelo governo italiano, do qual mais de 80 menores já se beneficiaram.

O juiz Di Bella acredita que poderia ser estendido a outras regiões da Itália, bem como ao exterior, para evitar que crianças sejam vítimas de grupos criminosos.

Para alguns, também pode servir como uma ferramenta contra a inclusão de menores em organizações extremistas, como o grupo jihadista Estado Islâmico.

A 'Ndrangheta, que vê esta semana várias centenas de seus membros em julgamento na Calábria, é tecida por laços de sangue e não se baseia no recrutamento por mérito, como é o caso em outras organizações mafiosa.

"O perverso poder de sedução" 

"Crianças com certos sobrenomes estão condenadas a um destino do qual não podem escapar: a morte ou a prisão", explicou o juiz em entrevista à AFP.

A 'Ndrangheta, a máfia italiana mais poderosa, presente em todos os cinco continentes, gera bilhões de euros por meio de várias atividades ilegais, que vão do tráfico de cocaína à extorsão. Embora exista desde meados do século XIX, a 'Ndrangeta foi oficialmente classificada como máfia em 2010.

"Essas crianças vivem e respiram a cultura da máfia desde o berço: uma cultura de controle e violência (...), que se aplica até contra os próprios parentes, caso corram o risco de violar o código de honra", lembra Roberto Di Bella.

Essa mentalidade também "tem o poder perverso de seduzir adolescentes", observa Rossella Marzullo, especialista em Ciências da Educação da Universidade de Reggio Calabria, que assessorou o juiz na elaboração do projeto.

"Estão imersos, sem esforço, num sistema que lhes dá um status facilmente identificável e os faz sentir 'visíveis' (...) algo que consideram crucial para a sua popularidade", analisa em entrevista à AFP. Aos 57 anos, Di Bella, que vive sob a proteção da polícia, tem 30 anos de experiência na máfia calabresa.

Afirma que consegue reconhecer quase de imediato os menores pertencentes às várias "ndrine", os clãs que constituem a 'Ndrangheta, porque os treinam desde muito jovens a esconder as emoções para evitar que se traiam.

"Muitas vezes viram seu pai, irmão ou avós morrerem assassinados. E de acordo com o código da máfia, eles têm que vingá-los. Por isso a violência exige mais violência, uma espiral sem fim", acrescenta.

Numa colina no coração da Calábria, a cidade de Cinquefrondi é um labirinto de vielas e praças. Seus habitantes sentam-se em cadeiras de plástico ao longo da rua principal, outros conversam das sacadas enquanto penduram roupas lavadas.

A cidade, de origem greco-bizantina, que hoje tem 6.500 habitantes, tornou-se sinônimo de máfia depois que dois menores, um deles de apenas 13 anos, foram mortos em um tiroteio em um salão de videogame em 1998.

Segundo o atual prefeito, Michele Conia, de 44 anos, que já foi alvo de ameaças de morte, a cidade ficou profundamente traumatizada com aquele episódio.

"Tinha medo" 

No âmbito do programa desenvolvido pelo juiz Di Bella, os tribunais podem ordenar que os menores infratores, pertencentes a alguma 'ndrine, recebam sessões de psicoterapia, aulas de educação cívica e apoio de serviços sociais.

Se necessário, podem ser temporariamente isolados em abrigos para evitar que cedam a tentações como a posse de armas ou drogas.

Se isso não bastar, o tribunal pode decidir, com a ajuda da associação anti-máfia Libera e da Igreja Católica, que as crianças sejam transferidas para fora da Calábria e acolhidas por outras famílias até atingirem a maioridade.

As famílias não têm escolha: a polícia e os serviços sociais chegam às suas casas sem avisar para cuidar das crianças afetadas.

Sair de Cinquefrondi não foi fácil para Aurora, filha de um mafioso encarcerado, enviada aos 12 anos para outra família, depois que sua mãe também foi presa.

"Chorei a viagem toda. Queria saber o que tinha feito de errado! Fiquei com medo", conta à AFP, lembrando aquela viagem em 2015 com uma assistente social e escolta policial.

"Sempre achei que tinha sido um castigo. Mas com o tempo aceitei", diz Aurora, cujo nome também foi mudado.

Por muito tempo, a menina teve pesadelos com imagens de "morte, armas, cenas de guerra em que tinha que sobreviver ou salvar um ente querido", relata um membro de sua nova família por e-mail.

Cinco anos depois, continua "dividida entre o desejo de fazer a coisa certa e de ser reconhecida e apreciada por sua família de origem". Há três anos Aurora não tem nenhum contato com seu pai, após romper definitivamente com ele.

"É egoísta. Ama sua vida de criminoso e passou 90% de sua vida atrás das grades, como um animal em um zoológico. Ele arruinou a vida da minha mãe, mas também a do resto da família", explica a jovem.

Aurora se sente culpada por ter convencido a mãe a "dar uma segunda chance ao pai" durante uma de suas estadas fora da prisão. "Para que pudéssemos ser uma família unida, aquela que eu tanto queria, como todas as meninas", diz.

Para Rossella Marzullo, os adolescentes da 'ndrine "passam por um doloroso e precoce processo de entrada no mundo adulto" e sofrem terríveis episódios de medo e angústia.

"Viúvas" 

"Algumas crianças de dez ou onze anos são capazes de empunhar armas, sabem onde esconder drogas e como escapar do controle policial. Desde a infância são usadas como mensageiras de criminosos foragidos, chantageiam os comerciantes usando seus sobrenomes (...) totalmente envolvidas nas disputas locais, às vezes até assumindo o papel de assassinos", resume o especialista.

Alguns pais apelaram da decisão da justiça de levar seus filhos, na maioria das vezes sem sucesso.

Mas para as mães, preocupadas com o futuro de seus filhos, isso representa, em última análise, um corte na rede com a 'Ndrangheta.

No caso de Lúcia, os tribunais tiveram que agir rapidamente quando ela perguntou em 2016 se poderia se esconder com seus gêmeos.

Seu marido era um 'capo' poderoso, suspeito de assassinato, e a polícia temia que sua família tentasse impedi-la de partir, como às vezes acontece com "suicídios inexplicáveis ou desaparecimentos repentinos", diz Roberto Di Bella.

"Estava apavorada na noite em que fugimos", confessa. Reuniu a coragem necessária com a ideia de construir um "futuro diferente e livre" para seus filhos.

"Ninguém que experimentou a liberdade volta para uma jaula por sua própria vontade", resume. Na minha vida anterior, "todos os meus movimentos eram condicionados à autorização de outras pessoas", lembra. "Mais do que uma esposa, eles basicamente me tratavam como uma escrava", diz.

Roberto Di Bella também lembra de quando foi secretamente contatado por "viúvas na mira", mulheres jovens, casadas à força com homens que não conheciam e que mais tarde acabaram na prisão ou fugitivos. Cerca de 20 foram transferidas para destinos secretos com seus filhos.

"Os homens sabem que a solidez do sistema se baseia na docilidade das mulheres. Se o sistema se rompe, a força monolítica e inexpugnável da 'Ndrangheta desaba", observa o juiz. De acordo com o código de honra, "as esposas que deixam suas famílias devem pagar com a vida" por essa decisão.

Di Bella teve que processar menores que tentaram matar sua própria mãe em nome da honra da família. Em cinco casos, as famílias tentaram, sem sucesso, localizar as crianças e mães, fazendo com que tivessem de ser removidas rapidamente.

Quatro crianças do programa também voltaram para a Calábria quando atingiram a maioridade para se reunirem com suas famílias mafiosas. Todas as quatro estão na prisão.

"Lavagem cerebral" 

O programa do juiz foi adotado na legislação italiana e permite que as crianças sejam separadas de seus pais quando a situação familiar prejudica sua educação e bem-estar. Em 1979, um tribunal ordenou a 'exfiltração' de dez menores de Reggio Calabria após um massacre. Foi a primeira vez que se tomou essa decisão, que foi aprovada pela opinião pública.

Mas quando o programa "Livres para escolher" foi lançado, as reações foram menos entusiasmadas, em meio ao ceticismo e indignação.

Roberto Di Bella, que deixou a Calábria em 2020 para chefiar o tribunal de menores de Catania, na Sicília, publicou um livro sobre essa experiência no qual se lembra de ter sido apelidado de "o ladrão de crianças".

Em um editorial, o prestigioso jornal Il Corriere della Sera acusou-o de organizar uma ação digna de "regimes autoritários ou totalitários".

Ele também recebeu ameaças de pais presos, embora alguns tenham recebido seu projeto com satisfação. Um deles até se juntou à família no esconderijo designado no norte da península.

Anna Sergi, criminologista da Universidade de Essex, acredita que é muito cedo para avaliar o sucesso do programa, mas acredita que, em teoria, poderia ser aplicado a outros grupos criminosos nos quais a adesão é passada de geração em geração.

Por exemplo, o Reino Unido passou por problemas semelhantes aos apresentados pelo programa de Di Bella para proteger menores que vivem em ambientes familiares imersos em extremismo religioso, de acordo com Rossella Marzullo.

O juiz Giuseppe Spadaro, que trabalhou durante anos na Calábria, explicou que os meninos 'ndrine "são criados como soldados do Estado Islâmico, sofrem lavagem cerebral e são submetidos a treinamento militar todos os dias".

Um grupo de organizações especializadas em prevenção ao crime, incluindo o centro de pesquisa italiano Transcrime, defende a implementação do programa do juiz Di Bella na Sicília, contra a máfia Cosa Nostra.

Mas para Federico Varese, especialista em crime organizado da Universidade de Oxford, é "um tanto otimista" acreditar que a 'Ndrangheta pode ser derrotada afastando seus filhos.

É uma "medida extrema que deve ser usada com muita cautela", alerta, já que os mafiosos também "têm direito a ser pais". Lúcia conhece bem os limites do programa. Depois de fugir para o norte, ela foi presa e seus filhos foram entregues a uma família de acolhida.

Após um ano, foi libertada e seus gêmeos voltaram a morar com ela. Agora, passa seu tempo com eles em atividades mais adequadas à idade, como aulas de natação, e não os ensina a navegar no mundo da máfia. Mas continua vivendo em angústia.

"Mais do que o medo de ser ferida, temo que todos esses esforços sejam em vão. Posso fazer tudo o que puder para incutir em meus filhos os valores da liberdade e da legalidade, mas não posso ter certeza do que eles decidirão fazer em suas vidas no futuro", reconhece.

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