ORIENTE MÉDIO

Irã cobra ação dos EUA sobre acordo nuclear

Em recado ao presidente Joe Biden, Ali Khamenei diz que "palavras são inúteis" e promete contrapartida do Irã sobre acordo nuclear, em caso de avanço da Casa Branca. Pacto com Teerã será debatido hoje, durante reunião em Paris

Rodrigo Craveiro
postado em 18/02/2021 06:00
 (crédito: Khamenei.ir/AFP)
(crédito: Khamenei.ir/AFP)

O discurso virtual do aiatolá Ali Khamenei, guia supremo do Irã, teve a importância amplificada por ter ocorrido a poucas horas da retomada das negociações sobre o Plano de Ação Conjunta Global (JCPOA), o acordo nuclear assinado por Teerã, China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia. “Hoje, só quero dizer uma coisa: temos escutado muitas palavras bonitas e promessas, que, na prática, não apenas foram violadas, mas o oposto foi feito. (…) As palavras são inúteis. Desta vez, será apenas sobre ações. Assim que virmos a ação do outro lado, também agiremos. Ao contrário de antes, desta vez, a República Islâmica não será convencida apenas por palavras ou promessas”, declarou Khamenei. O recado teve destinatário certo: o presidente norte-americano, Joe Biden, empossado em 20 de janeiro. Foi uma resposta ao anúncio da Casa Branca sobre o desejo de readerir ao JCPOA.

Hoje, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, receberá seus colegas Heiko Maas (Alemanha) e Dominic Raab (Reino Unido), em Paris, para uma conversa por videoconferência com Antony Blinken, secretário de Estado norte-americano. Por meio de comunicado, o Ministério das Relações Exteriores francês explicou que a reunião “será dedicada principalmente ao Irã e à segurança regional no Oriente Médio”. O encontro também é visto como uma oportunidade para tentar salvar o JCPOA, depois que o então presidente Donald Trump abandonou o acordo de modo unilateral. Será a primeira vez que a gestão Biden abordará o tema do enriquecimento de urânio e do programa nuclear iraniano.

Biden admite a readesão ao JCPOA e a imediata suspensão das sanções econômicas a Teerã, com a condição de que os iranianos voltem a cumprir o acordo em sua totalidade. Os dois lados trocam acusações mútuas de violações dos compromissos firmados pelo pacto. A retomada das negociações ocorre sob intensa pressão. O Irã está determinado a restringir as inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a partir de domingo, caso os EUA não suspendam as sanções impostas há três anos. No próximo sábado, o diplomata argentino Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA,visitará Teerã para “conversas técnicas”. O presidente do Irã, Hassan Rohani, desmentiu a expulsão de inspetores da AIEA e culpou a “propaganda estrangeira”. “Por que estão mentindo?”, indagou, ao garantir que o seu país está determinado a dialogar com Grossi.

Rohani recebeu um telefonema incomum, ontem, da chanceler alemã, Angela Merkel. Ela externou “preocupação com o contínuo fracasso do Irã em cumprir suas obrigações no acordo nuclear”, segundo nota da chancelaria de Berlim.

Sanções

Hossein Gharibi, embaixador do Irã no Brasil (leia Entrevista), defendeu que “a situação brutal e desumana para pressionar o povo iraniano tem de terminar imediatamente — uma alusão às sanções impostas ao país. “Os Estados Unidos e os europeus não podem ter nada mais importante do que isso em sua agenda para a reunião desta quinta-feira (hoje)”, afirmou ao Correio. Ao ser questionado sobre o motivo pelo qual o mundo demonstra tanto incômodo com o programa nuclea iraniano, o diplomata disse que “o Irã quer ser independente”. Segundo Gharibi, Teerã provou que pode se sustentar por conta própria, sem precisar da ajuda de nenhuma outra potência.

“Entendemos que é o nosso povo que pode exercer sua autodeterminação e garantir a paz e a segurança ao país e à região. Não é a primeira vez que o Irã é alvo por exercitar seu direito de decidir sobre o próprio destino: sete décadas atrás, o Parlamento, sob a chefia de Mohammed Mossadegh, premiê eleito democraticamente, nacionalizou nossa indústria do petróleo. Em retaliação à manobra de Mossadegh, os EUA e o Reino Unido classificaram-na de contrária à paz e à segurança e impuseram duras sanções econômicas ao petróleo iraniano”, lembrou.

O embaixador explicou que, a exemplo de outras nações, o Irã pretende exercer os direitos de ter uma indústria nuclear pacífica. “Estamos totalmente comprometidos com as exigências do Tratado de não Proliferação (TNP), e o Irã tem sido objeto de inspeções pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Não podemos aceitar que os poderes intimidatórios, que permitem a outros de nossa região possuírem centenas de ogivas nucleares, ditarem seu desejo sobre nossa nação. A era da ordem colonial acabou há muito tempo, mas a mentalidade ainda existe”, acrescentou Gharibi.

» Entrevista / Hossein Gharibi, embaixador do Irã no Brasil

Que tipos de ações o Irã espera dos Estados Unidos e o que vocês esperam dar em troca a
Washington?
O importante para nós é como a Casa Branca se comporta, não quais são as promessas ou as juras falsas, já que estamos exaustos disso. Nós testemunhamos como o governo de Donald Trump supreendentemente violou a decisão do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Se os Estados Unidos voltarem aos seus compromissos, a história será diferente. O Irã disse, por várias vezes, que retomaremos rapidamente os nosso compromissos totais. E isso não levará muito tempo. Os EUA têm que mostrar que estão comprometidos com este acordo — que não o violarão novamente, não farão exigências fora do JCPOA (pacto nucler) e, basicamente, vão parar de causar danos ao Irã. O primeiro passo é a suspensão, por parte dos EUA, de suas violações do direito internacional, com o levantamento das sanções unilaterais ilegais. Isso não requer muitas discussões e negociações. Como outros passos catastróficos dados pelo governo Trump, a chamada “Pressão Máxima” deve ser desfeita de maneira rápida.

Como o senhor vê o esforço diplomático dos EUA e de três países europeus para salvarem o acordo nuclear?
Toda conversa deveria estar alinhada com o direito internacional e os compromissos de todas as partes envolvidas. O JCPOA foi baseado em um “dar e receber”, resultado de anos de conversas entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, a Alemanha e a União Europeia. O que se conseguiu foi fruto de negociações. Armas convencionais ou outras questões poderiam ser incluídas, mas todas as partes negociadores logo perceberam que a ampliação do escopo tornaria impossível obter qualquer resultado. Por isso, eles se concentraram no tema nuclear.

O que é necessário para um bom diálogo hoje?
Nós estamos prontos para nos engajar nas questões de segurança da região. O nosso plano para um acordo de segurança com Estados regionais está sobre a mesa. Nenhum outro tema deve ser usada como desculpa para violar seus compromissos. O acordo foi uma vitória para todas as partes. O Irã cumpriu seus compromissos, e 15 relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) provam que as outras partes não o fizeram. Os EUA abandonaram o acordo nuclear em maio de 2018 e reaplicaram sanções ao Irã, as quais impactaram severamente a economia iraniana e a nossa habilidade de vender petróleo e de cuidar da população durante a pandemia.

Londres pede prova de vida de princesa

 (crédito: Reprodução)
crédito: Reprodução

Depois de uma série de vídeos divulgados na terça-feira pela princesa Latifa, 35 anos, o Reino Unido pediu provas de vida da filha de Mohamed bin Rashid Al-Maktoum, primeiro-ministro e emir dos Emirados Árabes Unidos. “Gravo este vídeo em um banheiro, pois é o único ambiente onde há uma porta que posso trancar. (…) Sou uma refém. Todas as janelas estão fechadas com grades, não posso abrir nenhuma”, declarou Latifa. “Eu me preocupo todos os dias com a minha segurança e com a minha vida (...) A polícia me disse que ficarei na prisão por toda minha vida e que nunca mais verei o sol”, acrescentou. Ontem, o ministro das Relações Exteriores britânico, Dominic Raab, disse que gostaria de ter evidências sobre as condições em que a princesa se encontra.

“As pessoas gostariam (...) de vê-la viva e em bom estado de saúde (...) e certamente ficaríamos felizes com isso”, disse Raab, depois que as emissoras BBC e Sky News difundiram os vídeos. “Essas imagens são muito angustiantes. É um caso muito difícil. E acho que é preocupante”, comentou o ministro. Em um vídeo, Latifa diz que está em uma mansão, que “virou prisão”. “As janelas estão fechadas, há cinco policiais do lado de fora e duas policiais do lado de dentro.”

Fuga frustrada

Na terça-feira, uma porta-voz do Alto Comissariado da ONU ra os Direitos Humanos disse à BBC que questionará os Emirados Árabes Unidos sobre a princesa. Em 2018, Latifa tentou, sem sucesso, escapar de barco de Dubai. Em março de 2020, a Justiça britânica determinou que o emir do Dubai ordenou o sequestro de duas de suas filhas, Latifa e Shamsa. Com apenas 18 anos, esta última tentou fugir do pai em 2000, durante as férias na Inglaterra. Segundo o relato de Latifa, Shamsa foi encontrada depois de dois meses, “drogada”, levada de volta para Dubai e “presa”.

Em 2019, a princesa Haya, irmã do rei da Jordânia, refugiou-se em Londres, onde se divorciou de Al-Maktoum. Ela o acusa de violência de gênero. A princesa Haya tornou-se, em 2004, a sexta esposa soberana dos Emirados, com quem teve dois filhos, que moram com ela no Reino Unido.

Diálogo inicial entre Netanyahu e Biden

 (crédito: Twitter/Reprodução)
crédito: Twitter/Reprodução

Exatamente quatro semanas depois da posse de Joe Biden, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos Estados Unidos falaram-se pela primeira vez, ontem. Por meio do Twitter, o gabinete do premiê israelense deu detalhes da conversa telefônica. “O primeiro-ministro falou esta noite com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. A conversa foi muito calorosa e amigável, e continuou por aproximadamente uma hora”, afirmou o governo de Israel. “Os dois líderes notaram sua conexão pessoal de longa data e disseram que trabalhariam, juntos, para continuar o fortalecimento da aliança inabalável entre Israel e os EUA.”

Segundo o gabinete, “Biden e Netanyahu debateram o futuro avanço dos acordos de paz, a ameaça iraniana e os desafios regionais, e concordaram em continuar com o diálogo”. “O presidente Biden elogiou o primeiro-ministro Netanyahu por sua liderança no combate ao coronavírus; os dois trocaram ideias sobre maneiras de lidar com a pandemia”, acrescentou.
Ao ser questionado por jornalistas, Biden respondeu que foi “uma boa conversa”, sem fornecer detalhes. Em nota divulgada no início da noite, a Casa Branca anunciou que o presidente “afirmou sua história pessoal de compromisso inabalável com a segurança de Israel e transmitiu sua intenção de fortalecer todos os aspectos da aliança EUA-Israel”.

Apoio

“O presidente enfatizou o apoio dos EUA à normalização das relações entre Israel e os países do mundo árabe e muçulmano. Ele ressaltou a importância de trabalhar para promover a paz em toda a região, inclusive entre israeleneses e palestinos”, sublinha o comunicado.
Os Estados Unidos são considerados como o principal aliado de Israel. Nikki Haley, embaixadora norte-americana na Organização das Nações Unidas (ONU) durante o governo do republicano Donald Trump, acusou Biden de “menosprezar um amigo como Israel”. Netanyahu chegou a qualificar o ex-presidente como o melhor amigo que seu país já teve. Trump chegou a mudar a embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém.

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