COLÔMBIA

Exército colombiano matou mais de 6 mil civis entre 2002 e 2008

Tribunal para investigar crimes durante o conflito com a guerrilha anuncia que o número de execuções extrajudiciais cometidas por tropas, entre 2002 e 2008, é quase o triplo do conhecido. Familiares de vítimas falam ao Correio

Rodrigo Craveiro
postado em 19/02/2021 06:00
 (crédito: AFP / Luis ROBAYO)
(crédito: AFP / Luis ROBAYO)

O rosto de Oscar Alexander Morales está gravado para sempre no braço direito da mãe, Doris Tejada. Ele tinha 26 anos quando desapareceu, em 31 de dezembro de 2007. “Meu filho foi assassinado. Dezesseis dias depois de seu sumiço, o corpo dele foi encontrado dentro de uma fossa comum no município de El Copey, no departamento (estado) de Cesar”, contou Doris ao Correio, por meio do WhatsApp. “Levo Weimar comigo, em minha pele; daqui, ninguém o arrancará”, desabafou à reportagem Beatriz Méndez Piñeros — o filho, Weimar Armando Castro Méndez, e o sobrinho Edward Rincón, ambos com 19 anos, foram executados em 21 de junho de 2004, em Ciudad Bolívar. Assim como Doris, ela carrega uma tatuagem com a face do filho. “Eram jovens inocentes, com sonhos e objetivos, com a vida toda pela frente”, acrescentou.

Oscar, Weimar e Edward tornaram-se estatística: fazem parte de 6.402 civis vítimas de execuções extrajudiciais pelo Exército colombiano entre 2002 e 2008 e apresentados como mortos em combate, durante o governo Álvaro Uribe. O número foi divulgado, ontem, pela Jurisdição Especial para a Paz (JEP), o tribunal que investiga os crimes do conflito colombiano.

O escândalo envolve também o ex-presidente Juan Manuel Santos. Ganhador do Prêmio Nobel da Paz, em 2016, e artífice do acordo de desmobilização da guerrilha maoísta Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Santos foi ministro da Defesa de Uribe, no período esmiuçado pela JEP. “Uribe e Santos devem responder pelas mortes, bem como o alto comando militar. Os generais, que sabiam de tudo e davam as ordens. Sempre soubemos que são mais de 10 mil mortos. A procuradoria tratava de ocultar os casos e apresentava as mortes como baixas em combate. Nossas Forças Armadas, nosso glorioso Exército, acabaram com civis inocentes”, afirmou Beatriz, integrante da organização não governamental Madres Falsos Positivos de Colombia (Mafapo) — “falsos positivos” é o termo dado pela sociedade colombiana ao envolvimento de militares nos assassinatos de civis.

Até o ano passado, o Ministério Público tinha reconhecido apenas 2.249 execuções de civis realizadas nesta modalidade entre 1988 e 2014 e investigava 29 generais. Para Doris Tejada, “todos são culpados” pelas execuções. “Desde os altos comandos militares até o presidente, o Ministério Público e muitos outros que estavam cientes do que ocorria e nada fizeram”, defendeu.

Moradora de Bogotá, Jacqueline Castillo, representante legal da Mafapo, relatou ao Correio que o irmão, Jaime Castillo, sumiu em 8 de agosto de 2008. “O cadáver dele foi encontrado em Santander, quatro dias depois, como se fosse um guerrilheiro abatido em conbate. É bastante gratificante, para nós, familiares, saber que a JEP reconheceu os 6.402 casos. Esses fatos ocorreram sob o mandato de Uribe e se intensificiaram em sua chamada ‘política de segurança democrática’. Os militares receberam promoções, medalhas, férias e dinheiro”, disse.

Uribe

Em comunicado à imprensa, Uribe denunciou uma tentativa de colocá-lo em descrédito. “Sempre privilegiei a desmobilização e a captura às baixas. Os resultados mostram que houve 35 mil paramilitares e 18 mil guerrilheiros desmobilizados, sem o custo institucional, nem a completa impunidade do recém-denominado processo de paz”, escreveu. “A segurança democrática tornou-se irrepreensível ao provar que protegia todos os colombianos. Não há um único militar que possa dizer que recebeu de mim um mau exemplo ou uma insinuação indevida. Creio que sou um dos colombianos que, como governador e presidente, mais tem falado com integrantes das Forças Armadas.” Até o fechamento desta edição, Juan Manuel Santos não tinha se pronunciado.

Jacqueline defende uma “investigação a fundo”, que contemple guerrilheiros, militares e paramilitares. “Temos depoimentos de paramilitares que contaram ter entregue cadávares ao Exército para que as tropas tivessem resultados. Em troca, os paramilitares teriam caminho livre para delinquir. Para alcançarmos o caminho para a paz de que tanto necessitamos, todos os atores do conflito precisam ter o compromisso com a verdade plena. Só assim haverá um processo de reconciliação e de perdão na Colômbia”, comentou.

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“O novo avanço da Jurisdição Especial para a Paz no caso das execuções extrajudiciais reafirma que a Justiça de Transição é a chave para a consolidação da paz. Agora, 6.402 famílias aguardam a verdade e uma reparação abrangente. Em Bogotá, sempre terão um aliado no processo.” Vladimir Rodriguez, alto conselheiro para os Direitos das Vítimas, a Paz e a Reconciliação de Bogotá.

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