Conexão diplomática

por Silvio Queiroz
postado em 19/02/2021 19:18

Nada é distante na Terra redonda

Ao contrário do que sugere a imagem do mapa-múndi — e ainda que se leve em consideração a curvatura do globo —, não é assunto remoto e indiferente para a diplomacia brasileira o ensaio do governo Joe Biden para retomar as negociações com o Irã sobre o programa nuclear do regime islâmico. A iniciativa foi anunciada pelo secretário de Estado, Antony Blinken, durante reunião por vídeo com os chanceleres de Alemanha, França e Reino Unido. Os três aliados europeus, mais Rússia e China, formaram com os EUA o bloco de potências que assinou, em 2015, um acordo sobre o tema com o governo de Teerã.
Não apenas a decisão de Washington reverte mais um aspecto central da política externa seguida nos quatro anos de presidência de Donald Trump, que retirou o país do tratado em 2018 e impôs ao Irã um duro regime de sanções unilaterais. Blinken, diplomata de carreira, que teve como antecessor um político republicano saído da direção da CIA, classificou o texto assinado por Barack Obama — quando Biden era o vice e tinha no atual secretário seu braço direito — como “uma conquista da diplomacia multilateral”.
O gesto em direção ao regime iraniano, adversário de quatro décadas que Trump elegeu entre seus alvos centrais, em nome da aliança dos EUA com Israel, sinaliza em mais uma frente a mudança de abordagem por parte da Casa Branca e do Departamento de Estado. O unilateralismo de Trump, resumido no lema “América em primeiro lugar”, sai de cena e dá lugar a uma estratégia que prioriza a construção de alianças mais amplas e à mobilização dos aliados. Com Biden, o “telefone vermelho” deixa de operar apenas ligações “pessoa a pessoa” e volta a fazer chamadas coletivas.

Quem te viu...

Ainda que fosse apenas pelo peso acentuado que o presidente Jair Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araújo imprimiram à relação bilateral com Washington, a reorientação da diplomacia americana convidaria o Planalto e o Itamaraty a uma revisão profunda, para o indispensável ajuste de sintonia. Mais do que isso, as linhas de ação da principal potência militar e (ainda) econômica formam traços essenciais no contorno do cenário em que o país terá de atuar.
O reengajamento com o Irã, em especial, traz de volta à cena um processo no qual a diplomacia brasileira jogou papel reconhecido na época — e depois — por diferentes parceiros. O acordo assinado em 2015 por Teerã com as seis potências teve como base o texto acordado em 2009, na capital iraniana, pelo presidente Lula e pelo então premiê turco, Recep Tayyip Erdogan. A gestão tinha sido encorajada por Obama, mas a secretária de Estado Hillary Clinton optou por torpedear o acerto — retomado seis anos mais tarde, em condições mais favoráveis ao regime islâmico.

Sem marcha à ré

Pela perspectiva de Washington, o movimento do secretário de Estado no impasse com Teerã é parte de um elemento mais estratégico. Blinken construiu a ponte, em primeiro lugar, com as três potências europeias cossignatárias do acordo, antes de tratar o tema com China e Rússia, que completam o sexteto.
A herança deixada por Trump na frente externa inclui o distanciamento com os aliados do Velho Continente, que foram peças-chaves na geopolítica americana desde a vitória na Segunda Guerra Mundial. Em quatro anos, o magnata acostumado a governar como se dirigisse seu império imobiliário comprometeu até mesmo as relações no âmbito da Otan, a aliança militar construída na Guerra Fria contra a finada União Soviética.
Biden e Blinken acusam o golpe representado pela crescente articulação entre a Europa — com Alemanha e França no leme — e a China, definida desde o governo Obama como principal desafio estratégio para a hegemonia americana. A chanceler Angela Merkel e o presidente Emmanuel Macron nçao disfarçaram a satisfação pela derrota de Trump e pelo retorno dos EUA ao multilateralismo. Mas a história não dá marcha à ré: as relações no eixo transatlântico serão reaquecidas em um ambiente no qual Pequim passa a ser um fator incontornável, tanto no terreno econômico-comercial quanto no campo diplomático e militar.

Baile da vassoura

A movimentação das peças no tabuleiro global diz respeito a elementos centrais da política externa brasileira, em particular a busca de espaços para o comércio — até como estratégia para a recuperação econômica no pós-pandemia. Depois de “esfriar” a relação com os parceiros do Brics, o governo Bolsonaro acenou com prioridade para um “relançamento” do Mercosul. A mola propulsora seria o acordo comercial firmado em 2019 com a União Europeia, após décadas de negociações que se estenderam pelos governos FHC, Lula, Dilma e Temer.
À parte as arestas a aparar com Argentina, Uruguai e Paraguai, sócios no bloco sul-americano, a diplomacia brasileira se vê na berlinda por conta das pressões, no âmbito da UE, por cláusulas que condicionem a ratificação do acordo a medidas verificáveis contra o desmatamento na Amazônia. Não por acaso, comanda esse bloco Emmanuel Macron, patrono do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas — ao qual os EUA retornaram oficialmente ontem, em outra iniciativa de Biden para reverter a “trumplomacia”.
Veleidades políticas à parte, a linha-dura de Macron e Merkel com o governo Bolsonaro coincide com a exploração das opções que se abrem para a UE na relação triangular com EUA e China. Noves fora, o Brasil — com o Mercosul — pode se ver na situação constrangedora dos antigos bailes de adolescentes, em que um dos participantes “sobrava” sem par, dançando com a vassoura.

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