EUA

Democracia sob ataque

No primeiro discurso internacional sobre a política externa, na Conferência de Segurança de Munique, Joe Biden adverte sobre os perigos representados por "autocracias", ao citar China e Rússia, e afirma compromisso com a Otan. Washington volta ao Acordo de Paris

Correio Braziliense
postado em 19/02/2021 20:51

Foram sinais distintos de que os Estados Unidos voltaram ao caminho do multilateralismo. No primeiro discurso de política externa internacional, na Conferência de Segurança de Munique (Alemanha), o presidente Joe Biden proclamou o retorno à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), acenou com a aproximação a aliados históricos e advertiu sobre um ataque à democracia. Mais cedo, o Departamento de Estado norte-americano tinha anunciado a readesão dos EUA ao Acordo de Paris sobre o Clima. Segundo Antony Blinken, chefe da diplomacia de Washington, o pacto “é uma estrutura para ação global sem precedentes”. “Seu propósito é simples e expansivo: ajudar todos a evitar o aquecimento global catastrófico e construir resiliência ao redor do mundo aos impactos das mudanças climáticas, que já vemos”, declarou o secretário de Estado.
“Envio uma mensagem clara ao mundo: a América está de volta. A aliança transatlântica está de volta”, afirmou Biden aos países-membros da aliança transatlântica, por meio de videoconferência. “Os Estados Unidos estão totalmente comprometidos com a nossa aliança da Otan”, acrescentou, ao prometer trabalhar em “estreita colaboração” com os “parceiros da União Europeia”. “Os EUA estão determinados a se engajar novamente com a Europa, a consultá-los, a recuperar nossa posição de liderança confiável”, disse ele.
O líder democrata lembrou que “a democracia não acontece por acidente”. “Temos de defendê-la, lutar por ela, fortalecê-la, renová-la”, sublinhou. Biden citou “um ponto de inflexão entre aqueles que argumentam que (…) a autocracia é o melhor caminho a seguir, e aqueles que entendem que a democracia é essencial”. “Eu acredito que, em cada grama de meu ser, a democracia irá e deve prevalecer”, disse.
Os responsáveis pelos ataques à democracia foram citados nominalmente por Biden: China e Rússia. “Devemos nos preparar, juntos, para uma competição estratégica de longo prazo com a China. (…) A competição com a China será acirrada”, assegurou. O presidente norte-americano afirmou que é preciso reagir contra “abusos econômicos do governo chinês e a coerção, que minam as bases do sistema econômico internacional”. Para Biden, todos os atores internacionais têm a obrigação de jogarem pelas mesmas regras.
Em alusão ao governo do presidente russo, Vladimir Putin, Biden acusou o Kremlin de atacar as democracias de transformar a corrupção em arma, com a intenção de minar o sistema de governança. “Os líderes da Rússia querem que as pessoas pensem que o nosso sistema é mais ou tão corrupto quanto o deles. Mas, o mundo sabe que isso não é verdade”, ponderou. De acordo com Biden, Putin busca enfraquecer o projeto europeu e a aliança da Otan. “Ele quer minar a unidade transatlântica e a nossa determinação, pois é muito fácil para o Kremlin intimidas e ameaçar países do que negociar com uma comunidade transatlântica forte e intimamente unida.”
Ao citar a crise nuclear iraniana, Biden disse que o mundo precisa estar preparado para o reengajamento nas negociações com Teerã. “Devemos abordar as atividades desestabilizadoras do Irã no Oriente Médio e trabalharemos em cooperação próxima com nossos parceiros europeus e outros aliados, à medida que avançarmos.”
Biden encerrou o seu discurso repetindo que a “América está de volta”. Foi um esforço para separar a doutrina de seu governo do lema “América em primeiro lugar”, implementado pelo governo do republicano Donald Trump e calcado no unilateralismo. “Vamos, juntos, demonstrar aos nossos bisnetos, quando lerem sobre nós, que a democracia funciona, e que, juntos, não há nada que não possamos fazer.”

Mudanças climáticas

Biden declarou que a comunidade internacional “não pode mais atrasar ou fazer o mínimo” para lidar com as mudanças climáticas. “Esta é uma crise existencial global, e todos sofreremos — todos sofreremos as consequências se falharmos”, alertou. “Precisamos acelerar rapidamente nossos compromissos de reduzir, agressivamente, nossas emissões e nos responsabilizarmos mutuamente pelo cumprimento de nossas metas e pelo aumento de nossas ambições. É por isso que, como presidente, imediatamente aderi ao Acordo de Paris. A partir de hoje, os Estados Unidos são oficialmente, mais uma vez, parte do Acordo de Paris, o qual ajudamos a construir.”

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