JORDÂNIA

Meio-irmão destituído da sucessão ao trono é acusado de complô contra o reino

Sob acusação de complô para desestabilizar a monarquia, meio-irmão do rei Abdullah II está em prisão domiciliar. Autoridades revelam "plano malicioso" e anunciam 16 detenções. EUA prestam apoio a Amã

Rodrigo Craveiro
postado em 05/04/2021 06:00
 (crédito: KHALIL MAZRAAWI/AFP)
(crédito: KHALIL MAZRAAWI/AFP)

Um meio-irmão destituído da sucessão ao trono é acusado de um complô para “desestabilizar” o reino hashemita da Jordânia. As autoridades de Amã anunciaram o desmantelamento de um “plano malicioso” e ordenaram a prisão domiciliar de 16 pessoas, entre elas, o ex-príncipe herdeiro Hamzah bin Hussein, 41 anos, o filho mais velho do falecido rei Hussein e da rainha Noor Al Hussein. Ayman Safadi, vice-primeiro-ministro da Jordânia, revelou que “os serviços de segurança monitoraram interferências e comunicações com atores no exterior sobre o tempo certo para desestabilizar a Jordânia”.

Segundo Safadi, as atividades e os movimentos de Hamzah, de Sherif Hassan bin Zaid (ex-chefe da Corte Real) e de Bassem Awadallah (ex-ministro de Planejamento e de Finanças) foram acompanhados pelas investigações durante um longo período. Um dos dados suspeitos coletados pelo reino seria um contato de uma “agência de inteligência do exterior” com a princesa Basma Otoum, esposa de Hamzah, para a fuga do casal da Jordânia.

O escândalo veio à tona no sábado, quando a emissora britânica BBC recebeu um vídeo, enviado pelo advogado de Hamzah, na qual o ex-príncipe herdeiro relatava estar impedido de sair de casa, depois de uma visita do general Yousef Huneiti, chefe do Estado-Maior do Exército. Na gravação, Hamzah insiste que é inocente e denuncia “a corrupção e a incompetência que prevaleceram em nossa estrutura de governo nos últimos 15 a 20 anos e tem piorado a cada ano”. “Não sou o responsável pela falta de fé das pessoas nas instituições. (…) Não sou parte de nenhuma conspiração, organização nefasta ou grupo apoiado por estrangeiros.”

A rainha Noor, mãe de Hamzah, escreveu no Twitter que “ora para que a verdade e a justiça prevaleçam para todas as vítimas dessa calúnia perversa”. “Deus os abençoe e os mantenha em segurança”, afirmou. “Ninguém está acima da lei; a segurança e a estabilidade da Jordânia têm precedência sobre qualquer consideração”, declarou o general Huneiti. Os Estados Unidos e aliados do Golfo Pérsico demonstraram apoio à Jordânia, avaliada como um pilar estabilizador no Oriente Médio. O mesmo movimento foi seguido por Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

Jamal Al Shalabi, professor de ciência política na Universidade Hashemita (em Zarqa, a 35km de Amã), admitiu ao Correio que a luta pelo poder teve início na ascensão de Abdullah II ao trono, em 1999, depois da morte de seu pai, o rei Hussein. “Tudo indicava que Hamzah era o mais próximo de assumir o poder, mas as normas constitucionais determinam que o filho mais velho do rei deve ser o coroado e exigem que o mesmo tenha experiência. Hamzah carece de ambos os requisitos. Por isso, Abdullah II tornou-se o quarto rei da Jordânia, depois de seu pai, Hussein, de seu avô, Abdullah e de seu bisavô, Talal”, explicou.

Ressentimento

Segundo Al Shalabi, Hamzah se ressente do fato de o meio-irmão, o rei Abdulla II, tê-lo excluído da condição de príncipe herdeiro. “Em 2004, o rei Abdullah II o removeu de todas as missões ligadas ao reino, e apontou o filho Hussein bin Abdullah como príncipe herdeiro. Parece que Hamzah pretendia levar vantagem do estado de pobreza, corrupção e endividamento que a Jordânia experimenta para se restaurar como um rei em potencial”, afirmou o jordaniano.

Al Shalabi adverte que a instabilidade pode impactar a segurança nacional. “A maioria das nações árabes apoia os passos tomados pelo rei ao que ele vê como um perigo e uma linha vermelha. No entanto, o meu país mantém longas fronteiras com Estados em guerra, com os quais não trava uma boa relação: Síria, Iraque, Israel e Arábia Saudita. Se houver instabilidade na Jordânia, ela deixará a região em apuros: seria um momento crucial para terroristas e fundamentalistas.”

O especialista jordaniano em geopolítica Amer Al Sabaileh, morador de Amã, aposta que o incidente se limite à dinastia hashemita e à política interna. “Creio que os elementos que mais representem risco para a monarquia sejam a covid-19, a pobreza, o desemprego, a frustração e os problemas socioeconômicos. A falta de um plano de reforma política sério e os riscos às liberdades, à democracia e aos direitos humanos podem representar mais desafios a essa situação”, disse ao Correio. Saibaileh acha que a manobra de Hamzah não vai desestabilizar o país. “No entanto, suas críticas ao sistema começam a incomodar as autoridades.”

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