Ao lado dos pais e da irmã, Sarah Saftawi, 23 anos, se apegava à fé, em Al Sudanya, bairro da Cidade de Gaza. Passava das 22h10 (16h10 em Brasília), quando Israel bombardeava o norte do enclave palestino. “O céu está repleto de caças F-16. Nós os escutamos o tempo todo. A cada bombardeio, nossa casa chacoalha. A cada 10 minutos, escutamos uma explosão ou o lançamento de foguetes”, contou ao Correio. Até o fechamento desta edição, os ataques aéreos israelenses tinham deixado 20 mortos, incluindo nove crianças, e 65 feridos. Horas antes, Sarah não se conteve ao assistir às imagens dos confrontos na Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém Oriental, o terceiro local mais sagrado para o islã.
Pelo menos 331 palestinos ficaram feridos depois que a polícia de Israel disparou granadas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Os árabes lançaram pedras contra os policiais e ergueram barricadas, durante protesto em que exigiam o cancelamento de uma marcha ultranacionalista dos judeus. A tensão coincidiu com o Dia de Jerusalém — data que marca a tomada de Jerusalém Oriental pelo Exército judeu. A marcha teve o roteiro alterado, para evitar se aproximar da Cidade Velha de Jerusalém.
O movimento fundamentalista islâmico Hamas exigiu que os policiais deixassem a Esplanada das Mesquitas e o bairro Sheikh Jarrah, possível alvo de desocupação, até o meio-dia (18h em Brasília). Exatamente às 18h, o Hamas começou a disparar mais de 150 foguetes em direção a Israel. A maior parte dos projéteis foi interceptada pelo escudo antimísseis Domo de Ferro, sem deixar vítimas. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, advertiu que o Hamas cruzou uma linha vermelha e pagaria alto preço. Ele elogiou a atuação das forças de segurança para garantir a “estabilidade” em Jerusalém. Os EUA e a União Europeia exortaram os dois lados a reduzirem a tensão. Um dos palestinos mortos em Beit Hanun (norte de Gaza) é Muhammad Fayad, líder da ala armada do Hamas.
Em Ashkelon, no sul de Israel, a britânica Beverly Jamil, 58, o marido e os dois cães se refugiavam no “Mamad”, aposento revestido com concreto de 1m de espessura. “É assustador. Provavelmente, não dormiremos à noite”, afirmou, pelo WhatsApp, por volta das 16h. “Acabo de escutar oito explosões. Temo uma escalada. Nessa situação, tenho que pensar antes de fazer qualquer coisa. Posso tomar banho? E se eu estiver dirigindo e a sirene antiaérea começar a tocar? Geralmente, temos apenas 30 segundos para buscar um local seguro.” Beverly vive em Israel desde 1981.
“Zona de guerra”
Chefe do Departamento Político da Embaixada de Israel, David Atar culpou o cancelamento das eleições por parte do presidente palestino, Mahmud Abbas, e disse acreditar que o incidente na Esplanada das Mesquitas foi usado como cortina de fumaça. O diplomata acusou alguns palestinos de armazenaram pedras e erguerem barricadas, além de lançarem rochas e fogos de artifício em direção ao Muro das Lamentações, ao lado, onde centenas de judeus oravam. “Os palestinos transformavam o lugar sagrado da mesquita em zona de guerra. Além disso, a polícia israelense temia que algo pudesse ocorrer ontem. O dia 10 de maio marca a reunificação de Jerusalém”, explicou. “A Autoridade Palestina e o Hamas espalharam sentimentos muito nacionalistas, como a informação de que Israel conquistaria as mesquitas. A polícia israelense entrou no local apenas para restaurar a ordem.”
Para Ibrahim Alzeben, embaixador palestino no Brasil, os incidentes na Mesquita de Al-Aqsa “fazem parte de um processo geral de ocupação israelense da Palestina”. “Israel faz o que sempre fez: expulsar a população palestina de sua terra, tomar seus lugares, casas, negócios, cultivos e criações. Soma-se a isso a busca de impedir que se realizem eleições palestinas. Há a tentativa de salvar Netanyahu de perder o poder e de ser preso por corrupção. Quando Israel persegue seus objetivos, não há limites para a violência”, declarou. “Israel vai escalar ainda mais a violência, buscando justificativas, ainda que artificiais e absurdas. Daí vem todo o resto: feridos, mortos e destruição.”
