ESCUDO DE TROIA

Megaoperação prende mais de 800 pessoas

Ofensiva contra o crime organizado é realizada em 16 países depois que o FBI, a polícia federal americana, descriptografou celulares distribuídos a suspeitos. Além das detenções, buscas em 700 locais resultaram na apreensão de US$ 48 milhões, drogas e armas

Correio Braziliense
postado em 08/06/2021 21:44

Quatro meses após o fim de uma bem-sucedida infiltração comandada pelo FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, uma gigantesca operação internacional contra o crime organizado, realizada em todos os continentes, culminou com a detenção de mais de 800 pessoas. A ofensiva, que recebeu o nome de Escudo de Troia, deslanchou depois que foram descriptografadas as comunicações entre bandidos que utilizaram, sem saber, celulares distribuídos pelos agentes norte-americanos.
As buscas foram realizadas em 700 lugares de 16 países. Além das prisões, a operação internacional apreendeu oito toneladas de cocaína, 22 de maconha, duas de anfetamina, 250 armas de fogo, 55 carros de luxo e mais de US$ 48 milhões (R$ 242 milhões) em diversas moedas e criptomoedas, segundo a Europol.
O ponto de partida das investigações, segundo reportagem divulgada no portal americano Vice, foi um acordo de redução de penas proposto — pelo FBI a um ex-traficante americano. O condenado, que desenvolvia softwares, aceitou a oferta e passou a colaborar, vendendo a seus ex-comparsas aparelhos com um aplicativo desenvolvido pelas polícias americana e australiana.
Esses celulares substituíram os telefones munidos com os sistemas Phantom Secure e Sky Global, que criptografavam as mensagens e as deteletavam em caso de apreensão do aparelho. “O fechamento dessas duas plataformas criptografadas de comunicação criou um vazio importante nesse mercado”, explicou a polícia da Nova Zelândia.
Os celulares com o sistema Anom não tinham e-mail nem serviço de ligação ou GPS. Os aparelhos eram adquiridos apenas no mercado clandestino, por US$ 2 mil. Além disso, era necessário um código enviado por outro usuário do Anom. “Os criminosos tinham que conhecer outro criminoso para conseguir um aparelho”, afirmou a polícia australiana em um comunicado.
Durante três anos foram distribuídos milhares de aparelhos que deveriam passar despercebidos entre membros da máfia, dos sindicatos do crime organizado asiático, dos cartéis de drogas, entre outros delinquentes. Isso permitiu o acesso da polícia de 16 países a mais 20 milhões de mensagens que os criminosos trocaram por meio dos celulares especiais.
“Essas informações levaram a centenas de operações policiais em escala mundial, da Nova Zelândia e Austrália a Europa e Estados Unidos, com resultados impactantes”, declarou o vice-diretor de operações da Europol, Jean-Philippe Lecouffe, ao anunciar o resultado da ofensiva. O diretor adjunto do FBI, Calvin Shivers, destacou que a operação permitiu salvar “mais de 100” vidas ameaçadas.

Disseminação

Para distribuir os dispositivos, a polícia internacional utilizou pessoas que tinham influência nos círculos criminais, incluindo um traficante foragido na Turquia. Segundo os agentes australianos, os aparelhos passaram a circular de forma orgânica e se tornaram populares entre os criminosos, que confiavam na legitimidade do aplicativo porque figuras reconhecidas do crime organizado os defendiam.
Os criminosos influentes “colocaram a Polícia Federal australiana no bolso” de centenas de supostos bandidos, celebrou o comissário da Polícia Federal australiana, Reece Kershaw.
Ao mesmo tempo, a polícia começou a divulgar boatos. Para promover o Anom, criaram uma fake news sobre a suposta vulnerabilidade de um sistema rival, o Ciphr.
No total, 11,8 mil dispositivos foram distribuídos em todos os continentes. Austrália, Espanha, Alemanha e Holanda foram os países que mais receberam aparelhos.
A infiltração acabou em março de 2021, quando um blogueiro detalhou as falhas de segurança do Anom, apresentado como um dispositivo vinculado à Austrália, Estados Unidos e aos outros membros da aliança FiveEyes. A publicação foi apagada.
Mas, quando isso aconteceu, a polícia já estava munida de material consistente para agir. Segundo a Polícia Federal australiana, apenas no país foram presas 224 pessoas, enquanto seis laboratórios de drogas foram fechados e as autoridades conseguiram apreender armas de fogo e o equivalente a US$ 35 milhões. O primeiro-ministro Scott Morrison disse que a operação “desferiu um duro golpe no crime organizado, não apenas no país, mas que irá repercutir em todo o mundo”.
A Suécia prendeu 155 pessoas, a Finlândia anunciou a detenção de 100, a Alemanha, 70, e a Holanda, 49. A polícia da Nova Zelândia, onde aconteceram 35 detenções, em sua maioria por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, informou que essa foi “a ação policial contra o crime organizado mais complexa do mundo até hoje”.

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