Keiko na ofensiva

Partido da filha de Alberto Fujimori busca anular "grande quantidade de votos" e evitar derrota para Pedro Castillo. Candidato esquerdista admite vitória e promete respeitar a democracia. Forças Armadas se negam a intervir nas eleições, após denúncias de fraude

Correio Braziliense
postado em 09/06/2021 21:01 / atualizado em 09/06/2021 21:54
 (crédito: Ernesto Benavides/AFP)
(crédito: Ernesto Benavides/AFP)


À medida em que uma das eleições mais acirradas da história peruana se aproximava do fim, o partido de direita Fuerza Popular, da ex-deputada Keiko Fujimori, anunciou que apresentará, “nas próximas horas”, uma “grande quantidade” de pedidos de anulação de votos. Por sua vez, o candidato de esquerda Pedro Castillo Terrones declarou-se presidente eleito do Peru, recebeu os cumprimentos do ex-líder boliviano Evo Morales, recomendou aos seguidores que não caiam em provocações e agradeceu às personalidades de “diversos países” da América Latina por felicitações por sua “vitória”. Em meio às denúncias de fraude, os júris eleitorais do Peru começaram a revisar os votos contestados, um procedimento que pode durar 10 dias e tem ocorrido com frequência em todas as eleições do país.
“Seremos um governo respeitoso da democracia, da atual Constituição e faremos um governo com estabilidade financeira e econômica”, prometeu Castillo, em discurso para apoiadores, na noite de terça-feira. Em Anápolis, o presidente Jair Bolsonaro também admitiu a vitória do esquerdista. O jornal peruano El Comercio divulgou que a intenção do Fuerza Popular é deixar sem efeito os votos de “algumas seções eleitorais”, na esperança de reverter o resultado das urnas.
Filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), Keiko poderá enfrentar o banco dos réus, caso saia derrotada nas eleições. O nome dela está vinculado ao escândalo de corrupção da empreiteira brasileira Odebrecht, o que pode lhe custar até 30 anos e 10 meses de prisão. O julgamento também incluiria o marido de Keiko, o norte-americano Mark Vito Villanella, que pode ser setenciado a até 22 anos e 8 meses de cadeia. Uma vitória no pleito significaria o adiamento do julgamento por cinco anos. “Há muito em jogo se ela perder, pois terá que avaliar se se aposenta e o julgamento virá. Temo que o fujimorismo vá se desmembrar”, afirmou à agência France-Presse o analista político Augusto Álvarez, colunista do jornal peruano La República.
O fujimorismo, segundo o El Comercio, estaria coordenando as ações com um grupo de advogados da corrente política, além de especialistas “democráticos ou independentes”. Vencedor do Nobel de Literatura em 2010, o escritor Mario Vargas Llosa somou-se ao coro dos insatisfeitos com o resultado eleitoral. Ele considerou ser “indispensável” que autoridades revisem as atas impugnadas no segundo turno e que elas, sem interferência política, devem determinar o resultado das eleições, “cujo resultado ainda é incerto”. Nas redes sociais, aliados e eleitores de Keiko pediram uma intervenção das Forças Armadas ante uma suposta fraude eleitoral.


Rechaço

Em nota, o Ministério da Defesa rechaçou os apelos e fez um chamado à unidade nacional e ao respeito pelo voto popular. “A Constituição estabelece que a finalidade primordial das Forças Armadas é garantir a independência, a soberania e a integridade territorial da República. Não são deliberantes nem estão subordinadas ao Poder Constitucional. Qualquer chamado a descumprir com este encargo é impróprio de uma democracia”, afirma o comunicado. Ainda segundo a nota, a função dos militares é assegurar o livre exercício do direito de sufrágio, proteger os funcionários eleitorais e custodiar o material eleitoral.
Simpatizantes de Castillo celebravam a provável vitória nas ruas do centro de Lima, enquanto os eleitores de Keiko se mobilizavam para um protesto na mesma região. De acordo com o La República, os casos de fraude apresentados na noite de segunda-feira por Keiko “não se sustentam”. Ontem, Evo Morales parabenizou Castillo, que, caso eleito, formará um eixo bolivariano com os presidentes Nicolás Maduro (Venezuela) e Luis Arce Catacora (Bolívia). “Muitas felicidades por essa vitória, que é a vitória do povo peruano, mas também do povo latino-americano que deseja viver com justiça social!”, tuitou o ex-líder esquerdista indígena (2006-2019).
Até o fechamento desta edição, com 99,868% das urnas processadas e 98,644% apuradas, Castillo mantinha a liderança, com 50,194% dos votos válidos (8.754.816) contra 49,806% para Keiko (8.687.257) — uma diferença de 67.559 votos (ou 0,388%). Com 100% dos votos do exterior contabilizados, Keiko obteve 66,4% dos votos contra 33,5% para Castillo.

“Perdemos agora o Peru”, diz Bolsonaro
Durante culto evangélico em Anápolis (GO), o presidente Jair Bolsonaro deu como finalizadas as eleições peruanas. “Perdemos agora o Peru. Voltou, ao que tudo indica, falta 1% de apuração lá, só um milagre para reverter. Vai reassumir com cara do Foro de São Paulo”, afirmou, em referência à organização que congrega partidos de esquerda da América Latina. Bolsonaro também criticou a eleição da Assembleia Constituinte do Chile, ao citar o país como nação que começa a inclinar-se para a esquerda.

“Seremos um governo respeitoso da democracia, da atual Constituição e faremos um governo com estabilidade financeira e econômica”

Pedro Castillo, candidato do partido de esquerda Perú Libre

>> Entrevista Luís Faro Ramos / Embaixador de Portugal em Brasília

 (crédito: Coordenação-Geral de Fotografia da Presidência da República/Divulgação)
crédito: Coordenação-Geral de Fotografia da Presidência da República/Divulgação

Um abraço em português

Mais de 5 milhões de portugueses espalhados pelo mundo — 1 milhão de portugueses e lusodescendentes no Brasil — celebram, hoje, o Dia Nacional de Portugal. Além de lembrarem o poeta Luís Vaz de Camões, eles expressarão o amor pela pátria lusitana. No Brasil, a Embaixada de Portugal prepara uma comemoração virtual à altura da data. Em entrevista ao Correio, Luís Faro Ramos, embaixador de Portugal em Brasília, contou que os eventos incluem um concerto que unirá o músico alentejano António Zambujo e a cantora brasileira Gal Costa, além de podcast, exposição artística e projeção das cores da bandeira portuguesa em monumentos de Brasília. “Nessa data, nós, portugueses, nos sentimos todos mais próximos uns dos outros”, explicou. O embaixador também enalteceu a “parceria” entre os povos e os governos de Brasil e Portugal.

O que se celebra no Dia Nacional de Portugal e de que modo a Embaixada pretende comemorar a data?
O dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, lembra a morte do grande poeta Luís Vaz de Camões, em 1580, mas é muito mais do que essa celebração simbólica. Une, num abraço em português, os mais de 5 milhões de compatriotas que se encontram espalhados pelo mundo. É uma ocasião para se trocarem afetos e festejarem no país e no exterior. Nessa data, nós, portugueses, nos sentimos mais próximos uns dos outros. Não nos será possível celebrar presencialmente, mas não deixaremos de comemorar. Hoje, disponibilizaremos em nossas plataformas virtuais um concerto que unirá dois virtuosos artistas, o português António Zambujo e Gal Costa, que simbolizam tão bem as pontes que a cultura constrói. Também será lançado episódio do podcast Cruzamentos Literários, que visa difundir como escritores do universo da língua portuguesa pensam a literatura e o mundo. A convidada é a escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso. Graças ao apoio do GDF, as cores de Portugal estarão presentes, aqui em Brasília, nos edifícios da Biblioteca Nacional e do Museu da República. Ontem, abrimos as portas da embaixada para visita guiada à exposição Oréades, de Gabriela Albergaria e Marcelo Moscheta, um diálogo luso-brasileiro em torno de Brasília e do Cerrado.

Como o senhor vê a cooperação bilateral entre Brasil e Portugal?
A palavra correta é parceria. A relação entre Portugal e o Brasil não se assenta apenas na riquíssima história comum. Ela é muito mais do presente e virada para o futuro. Trata-se de uma relação muito densa, rica e diversificada, que vale, antes de tudo, pelas pessoas que, sem parar, cruzam os dois lados do oceano e, com a nossa língua comum, constroem as pontes que nos unem. E ligam-nos às fortíssimas comunidades portuguesa no Brasil e brasileira em Portugal. Desde o intenso diálogo entre as culturas até as trocas comerciais, passando pelo futebol e pela gastronomia, pela defesa e pela educação, ciência e tecnologia, é muito difícil encontrar área onde não haja parceria.

Existem potencialidades ainda não exploradas nesta relação?
Sempre há possibilidades. O importante é aproveitar as características únicas das estruturas montadas. Por exemplo, nas áreas do comércio e da saúde, para valorizar ainda mais a marca Portugal no Brasil. Eu me refiro às Câmaras de Comércio Portuguesas no Brasil e aos Hospitais Beneficentes Portugueses, que devem trabalhar em rede, pois juntam saberes de Portugal e do Brasil. As Cátedras Camões — sete no Brasil — têm potencial enorme para promover a relação em educação, ciência, cultura e língua. Também cito a cooperação em investigação científica e em inovação tecnológica.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação brasileiro, Marcos Pontes, acaba de assinar memorandos de entendimento com Portugal. Qual a importância destes documentos e quais setores abrangem?
Os memorandos permitirão maior aproximação em três áreas críticas da ciência: o lançamento de uma rede de cooperação para a promoção da cultura científica e tecnológica; o desenvolvimento de nanociências e tecnologias quânticas; e o desenvolvimento da física nuclear, de partículas, astropartículas e cosmologia.

Portugal é governado
pelo Partido Socialista, enquanto o Brasil tem a extrema-direita no poder. Isso tem sido um entrave para a relação de mais alto nível entre as duas nações?
Entre Portugal e o Brasil nunca pode haver entrave que impeça a forte corrente entre as pessoas. A relação entre os países é e será sempre boa. O relacionamento institucional é normal, como se pode verificar pelas visitas de autoridades. Além do ministro Pontes, gostaria de salientar as duas visitas, em seis meses, que o secretário de Estado para a Internacionalização português fez ao Brasil, e a visita da ministra da Agricultura brasileira a Portugal no ano passado. Mais visitas serão negociadas para este ano.

“A relação entre Portugal e o Brasil não se assenta apenas na riquíssima história comum. Ela é muito mais do presente e virada para o futuro”

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