HONG KONG

Hong Kong: jornal mais crítico à China deixa de circular

Sob pressão das autoridades de Pequim e com ativos congelados nos bancos, o Apple Daily, jornal mais crítico à China na antiga colônia britânica, deixa de circular. Anúncio ocorre seis dias depois de invasão da polícia e das prisões de executivos

Rodrigo Craveiro
postado em 24/06/2021 06:00
Funcionários do Apple Daily aplaudem o jornal no último dia trabalho: moradores de Hong Kong fazem fila para comprar o periódico -  (crédito: ANTHONY WALLACE)
Funcionários do Apple Daily aplaudem o jornal no último dia trabalho: moradores de Hong Kong fazem fila para comprar o periódico - (crédito: ANTHONY WALLACE)

Assim que 1 milhão de exemplares chegaram às ruas de Hong Kong, na madrugada de hoje (hora local), filas imensas se formavam diante das bancas de revistas da metrópole financeira e ex-colônia britânica de 7,5 milhões de habitantes. Chegava ao fim uma história de 26 anos de luta pela democracia. Seis dias depois de 500 policiais invadirem a sede do Apple Daily, confiscarem computadores de 38 profissionais e prenderem dois executivos e três jornalistas, o diário pró-democracia não resistiu à pressão e circulou pela última vez hoje. Além da batida policial à editora Next Digital, responsável pela publicação, as autoridades de Hong Kong anunciaram o congelamento de ativos do jornal, o que inviabilizou o seu funcionamento, deixando mais de 1 mil desempregados.

“O Apple Daily decidiu que o jornal encerrará suas atividades a partir de meia-noite e que 24 de junho será o último dia de publicação”, afirma o jornal no site oficial. “Obrigado por apoiar o Apple Daily. Estamos tristes em informar que os conteúdos para web e aplicativo não mais estarão acessíveis a partir das 23h59 de 23 de junho, pelo horário de Hong Kong”, acrescenta o comunicado. Depois do fechamento da última edição, os funcionários se reuniram e aplaudiram uns aos outros. Do alto do prédio da Next Digital e debaixo de forte chuva, eles acenaram com os celulares para simpatizantes que se manifestavam na rua em favor do Apple Daily.

Na quarta-feira pela manhã, Jeffrey Tam — freelancer do Apple Daily desde 2013 e especializado em cobertura política — trabalhava na histórica edição impressa do jornal na sucursal do Reino Unido. “Infelizmente, esta é a morte do Apple Daily. A Next Digital Limited ainda está lá, mas não tem fluxo de dinheiro suficiente para manter a publicação do Apple Daily por mais de dois anos. A companhia tem, pelo menos, 50 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 347 milhões). No entanto, nada pode fazer para manter o funcionamento da empresa, pois as contas bancárias foram congeladas. As autoridades de Hong Kong advertiram que qualquer ajuda ao nosso jornal representaria uma violação à lei de segurança nacional”, explicou ao Correio.

De acordo com Tam, o Apple Daily foi um jornal que serviu à democracia, no sentido de permitir que os cidadãos de Hong Kong erguessem sua voz contra as autoridades. “O jornal empoderou muitos hong kongers. O fechamento dele significa um dano ao processo de luta real em prol da democracia em Hong Kong”, lamentou. O jornalista admitiu que a morte do Apple Daily servirá de alerta a todos os jornais da metrópole para que não irritem a China ou as pessoas que estão no poder. “Espera-se que a mídia de Hong Kong permaneça em silêncio.”

“Arrepiante”

“O fechamento forçado do Apple Daily pelas autoridades de Hong Kong é uma demonstração arrepiante de sua campanha para silenciar todas as vozes da oposição”, reagiu o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Dominic Raab. “Está mais claro do que nunca que a Lei de Segurança Nacional está sendo usada para restringir a liberdade e punir a dissidência”, criticou.

Nathan Law, ativista pró-democracia de Hong Kong exilado em Londres e o mais jovem legislador da antiga colônia britânica, classificou a notícia como “terrível”. “Não apenas para o panorama jornalístico de Hong Kong, mas também às pessoas e à própria cidade. (…) A empresa controladora da Apple Daily, Next Digital Limited, é uma empresa listada. O governo forçou-a a fechar em questão de dias, embora os sinais existissem havia meses”, afirmou. “Com a prisão de executivos e jornalistas, e o congelamento de ativos, as empresas não podem pagar seus funcionários, os quais temem ser presos. O papel com uma história de 26 anos acabou. (…) O Apple Daily é um jornal popular. (…) As pessoas que apoiam a democracia também o apoiam. Ele foi assassinado por um regime autoritário.”

Sob condição de anonimato, outro ativista de Hong Kong disse que o fechamento do jornal é “um imenso golpe na liberdade de imprensa e nas liberdades civis”. “O mundo assiste a Hong Kong ser esmagada pelo regime ditatorial de Pequim. O Apple Daily tem um significado especial para o meu povo, pois foi o último jornal pró-democracia em uma cidade onde todos os outros veículos de comunicação foram adquiridos por magnatas pró-Pequim”, explicou. Segundo ele, o incidente mostra que a chamada “Lei de Segurança Nacional” não busca proteger a segurança nacional, mas “atua como ferramenta que capacita o governo de Hong Kong a destruir as vozes da oposição”.

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“Apesar da morte do Apple Daily, o espírito de nosso jornal viverá nos corações dos cidadãos de Hong Kong, tanto na metrópole financeira, quanto no exterior. Acredito que nós nasceremos de outra forma, em outro local e em outro momento. Os governos de Pequim e de Hong Kong forçaram o fechamento do Apple Daily.” Jeffrey Tam, freelancer do Apple Daily desde 2013 e especializado em cobertura política.

“A morte do Apple Daily simboliza a morte da liberdade de imprensa em Hong Kong. Agora, os pequenos veículos de mídia online serão os próximos alvos. Os habitantes de Hong Kong encontram meios de se adaptar e superar esse golpe fatal no campo pró-democracia.
É a doutrina ‘Seja água’ — persistência e creatividade.” Finn Lau, fundador da ONG Hong Kong Liberty e ativista no exílio.

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