SAÚDE

Covid longa: mais de cinco sintomas é sinal de alerta; veja sequelas mais comuns

Cientistas listam condições observadas em pacientes que sofrem com a persistência de sintomas após a fase aguda da infecção pelo Sars-CoV-2. Estudo inclui dados médicos de 3.762 pessoas de 56 países. A maioria, 96%, enfrentou o problema por ao menos 90 dias

Paloma Oliveto
postado em 16/07/2021 06:00
Fisioterapia em paciente de covid: sequelas afetam 10 sistemas e órgãos e há um risco de 91% de elas durarem mais de sete meses -  (crédito: Pierre Philippe Marcou/AFP - 19/4/21)
Fisioterapia em paciente de covid: sequelas afetam 10 sistemas e órgãos e há um risco de 91% de elas durarem mais de sete meses - (crédito: Pierre Philippe Marcou/AFP - 19/4/21)

No maior estudo já realizado sobre a covid longa — persistência de sintomas após a fase aguda da doença —, uma equipe de pesquisadores liderados pela Universidade College London, na Inglaterra, detectou 203 condições que afetam 10 sistemas e órgãos de ex-pacientes. De fadiga a disfunção sexual, passando por descontrole da bexiga, alucinação e palpitação cardíaca, algumas chegam a permanecer por até sete meses, segundo o artigo publicado na revista EClincialMedicine, no grupo Lancet.

A pesquisa incluiu dados de 3.762 pessoas de 56 países, incluindo Brasil. Os participantes foram contatados por meio do grupo Covid-19 on-line, que criou uma pesquisa respondida pela internet na qual eles deveriam relatar sintomas da doença longa confirmados ou suspeitos, além de informar sobre como isso impactou na vida diária e no trabalho. Das 203 condições descritas, os pesquisadores monitoraram 63 ao longo de sete meses.

A ampla gama de sintomas incluiu tremores, coceira na pele, alterações no ciclo menstrual, herpes zoster, perda de memória, visão turva, diarreia e zumbido, entre outros. Os mais comuns foram fadiga, mal-estar pós-esforço (piora dos sintomas após esforço físico ou mental) e disfunção cognitiva, geralmente chamada de névoa cerebral.

Os resultados indicaram que a probabilidade de os sintomas permanecerem além de 35 semanas (mais de sete meses) foi de 91,8%. Dos 3.762 entrevistados, 96% relataram sofrê-los além de 90 dias, 2.454 os apresentaram por pelo menos seis meses e apenas 233 se recuperaram completamente no período do estudo.

Os pesquisadores constataram que o tempo de recuperação tem associação com a data em que os sintomas atingiram o pico: no caso daqueles recuperados em menos de 90 dias, isso aconteceu na segunda semana pós-fase aguda; já entre os que levaram mais tempo para se verem livres das sequelas, o auge foi no segundo mês. Quase 90% dos pacientes tiveram recaídas, sendo o exercício, a atividade física ou mental e o estresse os principais desencadeadores. Quarenta e cinco por cento relataram a necessidade de um horário de trabalho reduzido e 22,3% não estavam trabalhando no momento da pesquisa.

“Pela primeira vez, um estudo ilumina o vasto espectro de sintomas, particularmente neurológicos, prevalentes e persistentes em pacientes com covid longa”, comenta a principal autora, Athena Akrami, neurocientista da Universidade College London. Segundo ela, a maioria dos países foca os programas de recuperação na reabilitação respiratória, negligenciando importantes sequelas.

“Perda de memória e disfunção cognitiva, experimentadas por mais de 85% dos entrevistados, foram os sintomas neurológicos mais difundidos e persistentes, igualmente comuns em todas as idades e com impacto substancial no trabalho”, continua. “Dores de cabeça, insônia, vertigem, neuralgia, alterações neuropsiquiátricas, tremores, sensibilidade a ruído e luz, alucinações (olfatórias e outras), zumbido e outros sintomas sensório-motores também foram comuns e podem apontar para maiores questões neurológicas envolvendo o sistema nervoso central e periférico”, destaca Akrami.

A neurocientista destaca que há “uma necessidade clara de ampliar as diretrizes médicas para avaliar uma gama muito mais ampla de sintomas ao diagnosticar a covid longa”. “Além disso, é provável que haja dezenas de milhares de pacientes sofrendo em silêncio, sem saber se seus sintomas estão relacionados à covid”, diz.

Assistência urgente

Para Anna Brooks, imunologista celular da Universidade de Auckland, na Austrália, identificar e tratar esses pacientes é urgente. “Atualmente, não há testes diagnósticos de rotina que possam ser aplicados a essa condição crônica complexa multissistêmica, razão pela qual a pesquisa é urgentemente necessária para tentar descobrir mecanismos ou biomarcadores para ajudar no cuidado de longo prazo. Já ouvi inúmeros relatos de pacientes sendo recusados, negados em consultas ou mesmo tratados como se fossem infecciosos quando apresentam sintomas de covid longa — realmente parece haver uma falta geral de compreensão nos sistemas de saúde, e é de quebrar o coração ouvir essas histórias.” Segundo Brooks, pessoas nessa situação sentem-se “completamente ignoradas e dispensadas pelos profissionais de saúde”.

Na avaliação de Athena Akrami, as diretrizes clínicas sobre a avaliação da covid longa devem ser ampliadas “significativamente” além dos testes de função cardiovascular e respiratória aplicados, passando a incluir sintomas neuropsiquiátricos, neurológicos e de intolerância à atividade física. “É verdade que muitas pessoas têm falta de ar, mas também têm muitos outros problemas e sintomas, o que requer uma abordagem clínica mais holística.”

Os resultados do estudo da Universidade College Londres estão em consonância com outra pesquisa, divulgada há três dias, na revista Plos One. Com um universo menor de participantes — 431, todos moradores de Zurique, na Suíça. Os cientistas constataram que 26% deles não haviam se recuperado totalmente em seis a oito meses após o diagnóstico inicial da covid-19. No geral, 55% dos pacientes relataram fadiga, 25% tiveram algum grau de falta de ar e 26% apresentaram sinais de depressão. Ainda não existem estudos de grande porte que estimem quantos pacientes de covid sofrerão da forma longa da doença. Uma pesquisa da Universidade de Genebra, na Suíça, com 700 pessoas encontrou um percentual de 33% de indivíduos com sintomas prolongados.

» Nova vacina em teste

Uma candidata à vacina para covid-19 à base de proteína combinada com um potente adjuvante forneceu proteção eficaz contra o Sars-CoV-2 quando testada em animais, sugerindo que a associação poderia adicionar mais um imunizante promissor para uso humano. O antígeno proteico, baseado no domínio de ligação ao receptor (RBD) do Sars-CoV-2, foi expresso em leveduras em vez de células de mamíferos — o que os autores dizem que poderia permitir um processo de produção escalável, estável à temperatura e de baixo custo, adequado para implantação no mundo em desenvolvimento. O estudo é da Universidade de Emory e foi publicado na revista Science Immunology.

Mais de cinco sintomas é sinal de alerta

A presença de mais de cinco sintomas da covid-19 na primeira semana de infecção está significativamente associada ao desenvolvimento de covid longa, independentemente da idade ou do sexo, de acordo com uma nova revisão publicada no Journal of the Royal Society of Medicine. O estudo, liderado pela Universidade de Birmingham, resume as pesquisas atuais sobre a prevalência de complicações da doença. Os cientistas destacaram as 10 sequelas mais comuns: fadiga, falta de ar, dor muscular, tosse, dor de cabeça, dor nas articulações, dor no peito, cheiro alterado, diarreia e paladar alterado.

Os pesquisadores também identificaram dois grupos de sintomas principais de covid longa: aqueles compostos exclusivamente por fadiga, dor de cabeça e queixas respiratórias superiores; e os com queixas multissistêmicas, incluindo febre contínua e sintomas gastroenterológicos.

“Pessoas que vivem com covid longa geralmente se sentem abandonadas e dispensadas por profissionais de saúde e recebem aconselhamento limitado ou conflitante. Mais de um terço dos pacientes em um dos estudos incluídos na revisão relataram que ainda se sentiam mal ou em pior condição clínica em oito semanas do que no início da doença”, diz o autor principal, Olalekan Lee Ayiegbusi.

Probabilidade de cepas mais perigosas

Em um comunicado divulgado ontem, o Comitê de Emergência da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou sobre a “forte probabilidade” de surgimento de novas variantes do coronavírus que seriam “mais perigosas”. “A pandemia está longe de acabar”, afirmam os especialistas, encarregados de aconselhar o diretor-geral da agência. Eles se reuniram por videoconferência na quarta-feira.

“Existe uma forte probabilidade de que surjam e se transmitam novas variantes preocupantes, possivelmente mais perigosas e mais difíceis de controlar” do que as já registradas, acrescentaram. “As tendências recentes são preocupantes. Dezoito meses depois de declarar a emergência de saúde pública internacional, continuamos correndo atrás do coronavírus”, destacou, em coletiva, o presidente do comitê, o francês Didier Houssin.

Até agora, a OMS registrou quatro variantes classificadas como preocupantes: Alfa, Beta, Gama (a brasileira) e Delta. Essa última, encontrada, pela primeira vez, na Índia, se espalha com grande velocidade em todo o mundo, provocando um forte agravamento da pandemia porque é muito mais contagiosa e apresenta um pouco mais de resistência às vacinas, embora elas continuem protegendo nos casos mais graves de covid-19.

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