AFEGANISTÃO

"A responsabilidade é minha", diz Biden sobre retorno do Talibã ao poder

Presidente Joe Biden assume responsabilidade pelo retorno do Talibã ao poder, defende retirada, diz que os EUA jamais planejavam reconstruir o Afeganistão e alerta contra o terrorismo. Desesperados, afegãos provocam caos no aeroporto

Rodrigo Craveiro
postado em 17/08/2021 06:00 / atualizado em 17/08/2021 07:43
 (crédito: BRENDAN SMIALOWSKI)
(crédito: BRENDAN SMIALOWSKI)

A missão dos Estados Unidos no Afeganistão jamais envolveu reconstruir o Afeganistão, que, no domingo (15/8), mergulhou na sombra do extremismo. Teve como foco impedir a rede terrorista Al-Qaeda de usar o território como base para planejar atentados. Washington nunca mostrou a pretensão de criar uma democracia unificada e centralizada para os afegãos.

Durante 18 minutos, esta foi a tônica do discurso de Joe Biden, forçado a interromper as férias em Camp David para explicar a volta da milícia fundamentalista islâmica Talibã ao poder e ao defender a retirada militar, enquanto o caos reinava no Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em Cabul.

“Sou o presidente dos Estados Unidos, e a responsabilidade é minha. (…) Sustento firmemente minha decisão. Depois de 20 anos, aprendi a duras penas que nunca houve um bom momento para retirar as forças americanas”, declarou o democrata. “A verdade é que isto (a volta do Talibã) ocorreu mais rápido do que prevíamos.” Ele disse que os EUA agirão “rapidamente” contra o terrorismo no Afeganistão, “se necessário”.

Segundo o presidente, uma relação com o Afeganistão dependerá “das ações do Talibã”. “Um futuro governo afegão que defenda os direitos básicos do seu povo, que não receba terroristas e que proteja os direitos básicos da metade da sua população — suas mulheres e meninas —, este seria um governo com qual estaríamos dispostos a trabalhar”, assegurou.

Caso os talibãs ataquem interesses dos EUA ou atrapalhem a retirada dos milhares de diplomatas americanos, Biden avisou que responderá com “força devastadora, se necessário”. Ele prometeu, ainda, “falar abertamente” pelas mulheres afegãs.

Estudante da Universidade de Cabul, Aisha, 22 anos, é uma delas. Nas últimas 48 horas, tentou fugir por duas vezes do Afeganistão. Enviou à reportagem uma foto que mostra o pé esquerdo com feridas. “As pessoas corriam dentro do aeroporto, aos milhares. Meus joelhos e minhas mãos sangram. A situação no aeroporto é péssima. Houve disparos lá”, contou.

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal (foto: Arquivo pessoal)

Afegãos escalaram uma aeronave da companhia aérea Kam Air e o finger (equipamento que liga o terminal de passageiros à porta da aeronave). Em uma cena icônica, centenas de civis correram ao lado de um cargueiro norte-americano enquanto decolava. Alguns se abrigaram no trem de pouso, e dois despencaram do céu para a morte, diante das câmeras.

Soldados americanos mataram dois homens armados no aeroporto. “Biden insiste sobre seus erros e não aceita o mau gerenciamento da situação em meu país. Os responsáveis pelo que vivemos hoje são Ashraf Ghani (o presidente que fugiu no sábado), Zalmai Khalizad (emissário americano para o Afeganistão) e Biden”, disse Aisha.

Com o mundo atônito, a China foi o primeiro país a expressar o desejo de manter “relações amistosas” com o governo afegão. O presidente da França, Emmanuel Macron, alertou o Afeganistão a não se tornar “santuário do terrorismo” e prometeu encampar uma iniciativa da União Europeia (UE) para proteger migrantes afegãos. A chanceler alemã, Angela Merkel, lamentou que a missão no Afeganistão “não foi exitosa”.

Cálculo

Professor de relações internacionais da ESPM Porto Alegre, Roberto Uebel disse que chamou a atenção o fato de Biden afirmar que a queda de Cabul ocorreu mais rápido do que o previsto. “Havia um cálculo estratégico dos Estados Unidos de que o Talibã tomaria o poder com o anúncio da saída das tropas. Essa declaração do presidente oferece indícios de que o Talibã tomaria o poder de volta assim que os EUA saíssem”, avaliou.

Uebel lembra que o Talibã jamais deixou de existir. “Desde 2001, a presença norte-americana no Afeganistão representava, para os talibãs, algo como uma invasão territorial. Nos últimos anos, desde o fim do governo de Barack Obama, havia a perspectiva de que os Estados Unidos deixassem o Afeganistão. Na gestão de Donald Trump, existiu chance de diálogo com os talibãs. Durante a campanha eleitoral, Biden prometeu a retirada das tropas americanas”, explicou à reportagem.

Ele aponta a sinalização da China e da Rússia em reconhecer a soberania talibã sobre o território afegão como fator decisivo para a reconquista do poder.

Para Farzana Kochai (leia Duas perguntas para), membro do Parlamento do Afeganistão, o mundo fracassou em não implementar bons governos no país e por não atuar com transparência. “A conferência organizada pelo Banco Mundial para debater a reconstrução do Afeganistão não foi um processo inclusivo. As coisas que ocorreram recentemente, no que diz respeito às conversas de paz e à legitimidade oferecidas por esse diálogo, levaram a essa situação”, afirmou ao Correio, por telefone.

A parlamentar jamais esperava a rápida tomada da capital afegã e não escondeu o medo. “Há milhares de perguntas sobre o que ocorrerá com as crianças, as garotas e as mulheres. Se elas terão permissão para buscarem uma boa educação, para serem livres, para usufruírem de seus direitos, para viajarem e viverem da forma como merecem.”

Ao ser questionada sobre o discurso de Biden, Farzana disse que “não viu nada de novo”. A parlamentar reconhece um vácuo de poder no Afeganistão, mas afirmou acreditar que líderes como o ex-presidente Hamid Karzai e o ex-vice Abdullah Abdullah dialogam com o Talibã. “Os ministros da Indústria e da Saúde ainda estão em seus postos; o Parlamento não desmoronou, mas enfrenta futuro incerto.”

Farzana descarta abandonar Cabul. Disse ter esperança de encontrar respostas para muitas de suas perguntas. “Quero saber se as mulheres poderão sobreviver neste lugar. Não tenho planos. Apenas desejo ficar por aqui e ver se posso fazer algo, ainda que pequenas coisas, para o meu povo e o meu país ficarem em segurança.”

 

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal (foto: Arquivo pessoal)
 

Duas perguntas/Farzana Kochai - parlamentar afegã desde 2019, moradora de Cabul

Na condição de mulher e parlamentar, como a senhora imagina que será o futuro das afegãs, após a tomada de poder pelo Talibã?
O futuro das mulheres dependerá da formação do próximo governo, do tipo de governo que teremos. Se será um governo democrático, que confia e acredita nos direitos das mulheres. Ou se será como uma ditadura, um regime tirânico, como antes de 2001. Naquela ocasião, o Afeganistão não tinha mais ligações com o mundo, nenhuma relação diplomática. Eles (talibãs) preferirão governar como quando estiveram aqui, duas décadas atrás, ou comandarão o país de forma diferente? Se quiserem agir de modo diferente, terão de ser um governo inclusivo, transparente, e deixar que as mulheres tenham acesso aos seus próprios direitos. Tudo dependerá da forma de governo a ser implementada.


A senhora culpa os Estados Unidos e o governo Joe Biden pela rápida queda de Cabul?
Nós podemos culpar os Estados Unidos e os ocidentais que estiveram ao lado dos norte-americanos. Os aliados deveriam ter cobrado dos EUA transparência e responsabilidade ante o que ocorre em meu país. As nações ocidentais, o governo afegão e o nosso povo, de alguma forma, nos sentimos parte de tudo isso. Os países do Ocidente deram uma pequena contribuição para que nossa vida melhorasse. No entanto, têm responsabilidade menor do que os norte-americanos. É claro que os EUA e seus aliados são responsáveis por tudo isso. 

 

 

  • Afegãos escalam aeronave da companhia local Kam Air, no Aeroporto Internacional Hamid Karzai: pânico ao tentar abandonar país
    Afegãos escalam aeronave da companhia local Kam Air, no Aeroporto Internacional Hamid Karzai: pânico ao tentar abandonar país Foto: Wakil Kohsar/AFP
  • Arquivo pessoal
    Arquivo pessoal Foto: Arquivo pessoal

Duas perguntas/Farzana Kochai - parlamentar afegã desde 2019, moradora de Cabul

 (crédito: Arquivo pessoal)
crédito: Arquivo pessoal

Na condição de mulher e parlamentar, como a senhora imagina que será o futuro das afegãs, após a tomada de poder pelo Talibã?
O futuro das mulheres dependerá da formação do próximo governo, do tipo de governo que teremos. Se será um governo democrático, que confia e acredita nos direitos das mulheres. Ou se será como uma ditadura, um regime tirânico, como antes de 2001. Naquela ocasião, o Afeganistão não tinha mais ligações com o mundo, nenhuma relação diplomática. Eles (talibãs) preferirão governar como quando estiveram aqui, duas décadas atrás, ou comandarão o país de forma diferente? Se quiserem agir de modo diferente, terão de ser um governo inclusivo, transparente, e deixar que as mulheres tenham acesso aos seus próprios direitos. Tudo dependerá da forma de governo a ser implementada.


A senhora culpa os Estados Unidos e o governo Joe Biden pela rápida queda de Cabul?
Nós podemos culpar os Estados Unidos e os ocidentais que estiveram ao lado dos norte-americanos. Os aliados deveriam ter cobrado dos EUA transparência e responsabilidade ante o que ocorre em meu país. As nações ocidentais, o governo afegão e o nosso povo, de alguma forma, nos sentimos parte de tudo isso. Os países do Ocidente deram uma pequena contribuição para que nossa vida melhorasse. No entanto, têm responsabilidade menor do que os norte-americanos. É claro que os EUA e seus aliados são responsáveis por tudo isso. (RC)

 

Após tremor, tempestade afeta o Haiti

 (crédito: Reginald Louissaint Jr./AFP)
crédito: Reginald Louissaint Jr./AFP

Joseph David Saint-Jean, 38 anos, está aliviado. “Eu vi a morte em minha presença. Deus protegeu a mim e à minha família. Temos que dormir no meio da rua, mas estamos bem”, desabafou ao Correio o morador de Les Cayes (sudoeste), a 160km da capital do Haiti, Porto Príncipe. “A situação por aqui é difícil. Les Cayes está destruída. Muitas casas desmoronaram”, contou, enquanto resgatava o sogro na cidade de Camperrin. “A casa dele rompeu ao meio. A situação por aqui é difícil”, acrescentou.

No último sábado, um terremoto de magnitude 7,2 na escala Richter (aberta, raramente atinge magnitude 9) atingiu o Haiti, deixando 1.419 mortos e mais de 6.900 feridos. Ontem, o Haiti começou a sofrer os efeitos da passagem da tempestade tropical Grace, que aumenta o drama da população. “Começou a chover. A tempestade está apenas no começo”, disse Saint-Jean.

Logo após o terremoto de domingo, ele contou que escutou choro e pedidos de socorro sob os escombros de casas. “As pessoas gritavam por socorro. Minha esposa estava desesperada. Em meio a toda essa situação, não temos água. Minha família está com medo da tempestade. Isso também me afeta”, afirmou Joseph. Morador de Porto Príncipe, o ativista dos direitos e advogado Antonal Mortimé classificou a situação como “muito catastrófica, terrível e dramática”. “Além dos 1.400 mortos, cerca de 100 mil haitianos estão afetados e 37 mil casas foram destruídas ou danificadas pelo tremor. Os dados são bem preliminares”, explicou à reportagem. “As pessoas estão buscando familiares sob os escombros. É uma catástrofe. Não encontro outra palavra. O sul do Haiti foi o mais afetado.”

O Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos alertou para o risco de inundações e deslizamentos de terra no Haiti e na vizinha República Dominicana. O país teme o colapso sanitário, ante a possível contaminação da água por causa dos cadáveres em decomposição sob os escombros. “Há muitas chuvas na capital, no sul e no sudeste. Algumas cidades afetadas pelo terremoto sofrem com inundações, como Jeremy, Jacmel e Pestel. As pessoas dormem nas ruas em Les Cayes, Camperrin, Maniche e Cavallon”, relatou Mortimé.

A comunidade internacional se apressa para mobilizar a ajuda humanitária aos flagelados. Estados Unidos, República Dominicana, México e Equador enviaram socorristas, rações de emergência e equipamentos médicos. Segundo a agência de notícias France-Presse, o Exército dos EUA criaram uma missão militar conjunta e colocaram quatro helicópteros de prontidão para transportar donativos e equipes de resgate. (RC)

 

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