Mianmar

Resistência e Exército de Mianmar travam violento conflito no norte do país

Desde o golpe de Estado de 1º de fevereiro, mais de 1.100 civis morreram, e cerca de 8.000 foram detidos, de acordo com observadores locais

Agência France-Presse
postado em 01/10/2021 09:17 / atualizado em 01/10/2021 09:18
 (crédito: Handout / KARENNI NATIONALITIES DEFENSE FORCE (KNDF) / AFP)
(crédito: Handout / KARENNI NATIONALITIES DEFENSE FORCE (KNDF) / AFP)

Uma dúzia de corpos se amontoa perto de um arrozal no norte de Mianmar. São de combatentes da resistência, que emboscaram soldados no final de setembro, em uma ação na qual também morreram cinco militares.

Oito meses depois de derrubar o governo civil de Aung San Suu Kyi, a Junta birmanesa enfrenta ações sangrentas contra suas tropas por parte de resistentes muito determinados, mas muito poucos para ter esperança de realmente desestabilizá-la.

"Temos que ser sábios no nosso calendário e no nosso plano", disse à AFP um membro do grupo local das Forças de Defesa do Povo, após o confronto de 25 de setembro na pequena vila de Gone Nyin, no noroeste.

Conflitos semelhantes entre milícias antigolpistas e tropas da Junta aumentaram nas últimas semanas, às vezes acompanhados por explosões de bombas e por assassinatos seletivos de pessoas acusadas de colaborar com o regime, gerando represálias sangrentas de ambos os lados.

Na semana passada, a mídia local informou que uma família inteira - incluindo um menino de 12 anos - foi morta a tiros por supostamente ajudar as tropas na busca por manifestantes.

Ataques contra antenas

Os dissidentes também atacaram e desativaram antenas de uma empresa de telefonia móvel de propriedade militar.

Um governo paralelo formado, principalmente, por ex-parlamentares do partido de Aung San Suu Kyi convocou uma "guerra defensiva" contra as tropas e bens da Junta.

Na cidade de Thantlang, no oeste do país, por exemplo, quase toda população fugiu quando o Exército disparou projéteis de artilharia, após confrontos com combatentes da resistência no mês passado, disse à AFP um morador de 50 anos que não quis se identificar.

Muitos moradores cruzaram rios e colinas a pé para ir para a Índia e encontrar a relativa segurança de um acampamento de refugiados.

Do outro lado do país, os residentes do estado de Kayah (leste) também fugiram dos bombardeios do Exército depois dos confrontos desta semana, de acordo com uma milícia local anti-Junta.

Desde o golpe de Estado de 1º de fevereiro, mais de 1.100 civis morreram, e cerca de 8.000 foram detidos, de acordo com observadores locais.

A Junta afirma que o número de mortos é muito menor e nega que suas tropas tenham cometido massacres e queimado casas.

Chamada às armas

Os militares intensificaram a violência para "esmagar a dissidência e impedir que o movimento de resistência ganhe terreno", após o apelo do governo paralelo às armas, disse à AFP Manny Maung, pesquisador da ONG Human Rights Watch.

Enquanto a luta continua, Aung San Suu Kyi, de 76 anos, está praticamente ausente da cena pública, vivendo em prisão domiciliar. Seu contato com o mundo exterior é limitado a reuniões com seus advogados antes de suas audiências de julgamento no tribunal da Junta.

Suu Kyi, uma defensora da não-violência, agora é superada por muitos dos opositores da Junta, que acreditam que somente a violência pode acabar com o domínio dos militares na política e na economia do país.

"Uma grande parte da população está determinada a evitar um retorno ao regime militar, se necessário à custa de suas vidas", disse Richard Horsey, do International Crisis Group.

"O cenário está armado para um período de violência contínua", acrescentou.

A região de Sagaing (centro) é palco de alguns dos combates mais intensos dos últimos tempos.

Os agricultores "não podem mais cultivar alimentos em suas fazendas", contou à AFP um monge budista da aldeia de Kani, perto de Gone Nyin.

"Eles têm que correr e se esconder com frequência", explicou o monge, que pediu para não ser identificado.

"Eles estão exaustos. Mas não gostam do Exército", completou.

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