Conexão diplomática

por Silvio Queiroz
postado em 08/10/2021 21:41 / atualizado em 08/10/2021 21:41

Futuro incerto para o pré-sal

O fracasso do leilão para licitação de blocos de exploração de petróleo e gás na costa brasileira, na última quinta-feira, tem desdobramentos que, no ideal, deveriam caminhar para o centro da agenda eleitoral de 2022. O debate sobre a eleição presidencial ainda engatinha, mas seria “uma questão de juízo” — na opinião de um diplomata familiarizado com o tema — cobrar dos futuros candidatos colocações de alcance mais longo sobre a encruzilhada energética que desafia o mundo no século 21.
A cúpula ambiental do mês que vem, na Escócia, tende a reafirmar e talvez aprofundar a pressão internacional por iniciativas concretas para a transição da economia global — da era do carbono para um futuro de fontes ditas “limpas”. Aparentemente acima e antes dos aspectos puramente econômicos, a pergunta sobre o abastecimento da demanda energética global entra pela terceira década do século 21 confrontada à urgência climática.
Do nosso ponto de vista, à parte as posições a assumir na esfera multilateral, a urgência que se impõe é pensar estrategicamente sobre o pré-sal. Quando confirmada a descoberta, em 2007, o país teve no horizonte a perspectiva de tornar-se grande exportador da commodity que condicionou a geopolítica do século 20, em especial no pós-2ª Guerra. Hoje, as gigantescas reservas de hidrocarbonetos mapeadas na costa só terão papel no desenvolvimento se começarmos, desde já, a explorar possibilidades além da produção de combustíveis fósseis — um mercado que parece encaminhado à extinção, ainda que lenta e gradual.

Mil e uma utilidades

O abandono progressivo dos derivados de petróleo como fonte energética não significa que o “ouro negro” do século passado tenha se tornado algum tipo de “mico”. Plásticos, resinas, fibras têxteis e outras matérias-primas industriais continuam representando valor, e devem seguir como tal por tempo razoável. Sem falar que mesmo na Europa, onde o processo parece mais adiantado, a aposentadoria da gasolina e aparentados é processo que demandará tempo.
Potencializar as vantagens econômicas das reservas de petróleo descobertas na costa atlântica do Brasil exige, naturalmente, investimento — não só financeiro — na pesquisa científica e tecnológica. Mas aqui, mais do que em outras rubricas, “investir” corresponde ao sentido estratégico da destinação de recursos. Além dos resultados na ponta da linha de produção, é uma empreitada que induz avanços na engenharia, com vibrações potencialmente harmônicas também no universo acadêmico.

Irmandade ”ma non troppo”

Uma porção importante da frustração e da perplexidade, por aqui, tem a ver com a trajetória recente da Petrobras. Até há poucos anos, a empresa símbolo do moderno capital brasileiro despontava como potência no mundo corporativo do século 21. Em franca ascensão, nossa estatal do petróleo parecia cumprir o destino vislumbrado pelos que saíram às ruas, nos anos 1940 e 1950, pela sua criação — a campanha “O petróleo é nosso”.
Em 2003, a caminho dos 50 anos, a empresa marchava para tornar-se a maior da América Latina. Mais que isso, figurava entre as candidatas a se perfilar como a nova geração das “sete irmãs” — como ficaram conhecidas mundialmente, na crise petrolífera dos anos 1970, as grandes multinacionais do setor. Atingida em cheio pela Operação Lava Jato, a Petrobras perdeu valor e hoje está colocada na alça de mira do programa de privatizações do governo Jair Bolsonaro, pelas mãos do ministro Paulo Guedes — por sinal, o “posto Ipiranga” do presidente.

Filme de cabeceira

A fórmula é uma produção polêmica, do ponto de vista estritamente cinematográfico. Mas o enredo desse filme dos anos 1970 tem atualidade inegável. A trama gira em torno de uma patente, registrada na Alemanha nazista, para um combustível “limpo” que dispensaria o petróleo. A ação, na tela, começa com a captura de um carregamento de documentos alemães secretos por tropas americanas, nos movimentos finais da 2ª Guerra na Europa.
No contexto da crise petrolífera deflagrada pelo conflito de 1973 entre Israel e uma coalizão árabe — uma guerra breve, mas com impacto de prazo extenso sobre o mercado internacional do petróleo —, Marlon Brando se destaca no papel do executivo de uma das “sete irmãs”. Crava uma fala memorável durante conversa com um assessor menos atinado com o jogo alto da indústria energética. “Os árabes somos nós”, ensina ao subordinado.
Evitando o spoiler, o que A fórmula expõe é algo a que se assistiu nas últimas três ou quatro décadas. As antigas múltis do petróleo — e a Petrobras se inclui no pacote — trocaram a etiqueta de empresas “petrolíferas” para o de conglomerados “energéticos”. Em resumo, vão seguir explorando os combustíveis fósseis enquanto derem lucros, mas se aprestam a dominar o mercado futuro da “energia limpa”, seja qual for o desenho real da atividade nos anos e nas décadas à frente.

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