Política europeia

Olaf Scholz caminha para formar uma coalizão pragmática na Alemanha

O Partido Social Democrático (SPD, na sigla em alemão) de Scholz deve governar principalmente com os verdes, que tiveram grande votação

Paulo Delgado com Henrique Delgado
postado em 10/10/2021 06:00
 (crédito: INA FASSBENDER/AFP)
(crédito: INA FASSBENDER/AFP)

Olaf Scholz, o chanceler que vai suceder Angela Merkel, caminha para formar um governo capaz de resolver problemas do futuro, mas que já estão pesando na vida das pessoas. O desafio é a defesa da própria legitimidade do sistema político, social e econômico que tanta riqueza e bem-estar gerou de 1945 para cá na vida dos alemães.

O Partido Social Democrático (SPD, na sigla em alemão) de Scholz deve governar principalmente com os verdes, que tiveram grande votação. Um aspecto interessante é que a forma mais rápida de se fechar uma coalizão é se associando também com os libertários do Partido Democrático Livre (FDP, na sigla em alemão). A despeito do que dizem os céticos do pragmatismo, tem tudo para ser um grande governo de pessoas com expertise nas três áreas que mais têm dado problema para os países.

Na Europa, não são poucos os pesquisadores debruçados sobre a relação entre o aumento do apoio para a direita radical e as novas tecnologias que estão revolucionando o mundo do trabalho. O estado de bem-estar que organizou a vida das pessoas após a crise de 1929 tem sofrido uma sequência de retrações. Junto a isso são muitas as inovações tecnológicas a demandar um novo tipo de trabalhador, ou menos trabalhadores. Essas inovações, um dia, criarão mais trabalhos, mas na fase atual a destruição é maior do que a criação.

A teoria sobre o efeito que essas grandes mudanças nas relações sociais de produção, trabalho e renda têm sobre o comportamento das populações é antiga. Um dos últimos teóricos sociais completos, Karl Polanyi, mostrava que quando o liberalismo de mercado passa de um certo limite e esquece de cuidar da sociedade, ele para de funcionar. Abre-se então um vácuo em que oportunistas aparecem vindo das extremidades do raciocínio político com soluções radicais e estrambóticas para fazer a engrenagem rodar. Se vire, adoeça, feche isso, abra aquilo, destruam emprego. O hipercapitalismo digital de mercado faz da vida um brinquedo de nuvens.

O povo, desesperado, entre abismado e remido, segue. Madeleine Albright, nascida na Tchecoslováquia e veio a comandar a política externa dos EUA, lembra que Mussolini não era um pensador original, “mas sim um talentoso ator”, que sabia ler a população e lançá-la, em fúria, contra alvos específicos. Tem gente que mente e nem sente.

A ascensão dos totalitarismos foi uma doença do “desenvolvimento social”, na leitura de Francis Fukuyama. Decorrem de contradições que o próprio sistema não consegue resolver. A economia, com seu sistema político e social existem para resolver problemas. Caso problemas persistam sem solução eles se tornam contradições, o qual tende a ruir. Quando cai aos pés de um oportunista talentoso tudo parece simples a um povo atordoado e sem destino.

Como analisa Fukuyama, em seu livro sobre o Fim da História — que não aconteceu — “um problema não se torna uma contradição a menos que seja tão sério que ele não possa ser resolvido dentro do sistema, antes de corroer a própria legitimidade do sistema a ponto de causar o colapso do último sob seu próprio peso.”

O problema das mudanças tecnológicas aceleradas que anda de mãos dadas com a retração do Estado de Bem-Estar Social e a necessidade de se renegociar o uso do planeta, é um fenômeno amplamente conhecido no coração da Europa.

Focado no problema real da atualidade o pragmatismo verde se mostra forte nessa construção em que destaca Alemanha e França. Os assentos no parlamento europeu conquistados nesses dois países pelos verdes em 2019 transformaram o grupo em fiel da balança. São a segunda maior força na representação da Alemanha na Europa. Enquanto nacionalmente passaram agora de 9% das cadeiras do Bundestag para 15%. Os verdes são a terceira maior força na política alemã. Logo após a União Democrática Cristã, de Merkel, e o SPD, que reassumiu a ponta após 16 anos.

O verde Daniel Cohn-Bendit, que se tornou a liderança mais visível de maio de 1968 em Paris, acabou fazendo carreira política na França e na Alemanha, ajuda a criar essas redes sociais que unem os dois principais centros da União Europeia na tentativa de prover respostas políticas a problemas reais. Acerta ele ao dizer que “ainda não há definição do que seja socialdemocracia no mundo de hoje”. Parte do possível sucesso do SPD virá de dar respostas a problemas locais, mas como se trata dessa nossa engenharia com os verdes e os libertários no novo governo da Alemanha, existe a possibilidade de que novas tentativas de se esboçar uma visão mais ampla venham dali. Foi Scholz, afinal, que costurou a taxação global mínima de 15% para as multinacionais, que estava empacada há um tempo na OCDE.

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