Jornal Correio Braziliense

EUA-CHINA

Xi aconselha Biden a 'não brincar com fogo' em relação a Taiwan

Cúpula virtual entre os presidentes chinês e norte-americano termina com poucos avanços e com advertência de Pequim para que Washington não busque a independência de Taiwan

Na primeira cúpula virtual, os líderes das duas maiores potências do planeta expuseram suas divergências em relação a Taiwan. Durante quatro horas, os presidentes Joe Biden (Estados Unidos) e Xi Jinping (China) trocaram advertências sobre a situação da ilha capitalista e democrática, considerada por Pequim como parte inalienável de seu território.

De acordo com comunicado enviado pela Embaixada da China, Xi admitiu que o Estreito de Taiwan experimenta "nova onda de tensões" e fez um alerta ao colega: "Isso se deve ao fato de que as autoridades taiwanesas terem pretendido, uma e outra vez, procurar a independência, valendo-se dos EUA. (...) Essas condutas são tão perigosas como brincar com fogo". O líder chinês disse a Biden que "algumas pessoas nos Estados Unidos tentam usar Taiwan para controlar a China".

O documento de 14 páginas assinado pelo Ministério de Assuntos Exteriores da República Popular da China afirma que Xi e Biden "realizaram, de forma plena e profunda, comunicações e intercâmbios sobre temas estratégicos, gerais e fundamentais, no que concerne ao desenvolvimento da relação entre China e Estados Unidos".

De acordo com o texto, Xi enfatizou a necessidade de uma relação sino-americana sã e estável, a fim de promover o desenvolvimento de ambas nações, preservar um entorno internacional pacífico e estável e responder eficazmente aos desafios globais.

Também por meio de nota, a Casa Branca assinalou que Biden frisou a Xi Jinping a disposição dos Estados Unidos de se levantarem em prol de seus interesses e valores. "O presidente Biden levantou preocupações sobre as práticas da China em Xinjiang, Tibet e Hong Kong", afirmou. "Sobre Taiwan, o presidente Biden sublinhou que os EUA permanecem comprometidos com a política 'Uma China' (...) e que os EUA fortemente se opõem aos esforços unilaterais para mudar o status quo ou minar a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan."

Embaixador

Em entrevista ao Correio, o embaixador Tsung-Che Chang — representante do Escritório Econômico  Cultural de Taipei em Brasília (Representação de Taiwan) — afirmou que a ameaça feita por Xi não é nova. "Existe um ditado chinês, segundo o qual aquele que brinca com fogo acaba pegando fogo. A China utiliza muito frases desse tipo para tentar enganar as pessoas. Em Taiwan, sabemos que, quando os comunistas falam algo, o comportamento deles costuma ser outro", explicou. "Na China, existe outro ditado: 'O ladrão sempre grita'. Xi tenta  enganar o mundo. A independência de Taiwan não está em questão. Nós estamos independentes. Ao admitir que Taiwan é uma província rebelde, a China tenta enganar o mundo", acrescentou. Para o diplomata, a estratégia de Pequim apela ao diversionismo. "É sinal de que Xi tem problemas internos", comentou. 

 

Os temas discutidos

 

Taiwan

Pequim reivindica a soberania sobre a ilha de 23 milhões de habitantes, embora não a controle. Por sua vez, Washington apoia militarmente Taiwan.Os Estados Unidos "se opõem firmemente" a qualquer tentativa unilateral "de mudar o status quo ou minar a paz e a estabilidade no estreito de Taiwan", advertiu Biden—a frase pode ser dirigida igualmente aos líderes taiwaneses. Trabalhar pela independência de Taiwan é "brincar com fogo", respondeu Xi Jinping. "Se os separatistas taiwaneses nos provocarem, nos forçarem ou mesmo cruzarem a linha vermelha, então teremos que agir", alertou.

 

"Salvaguardas"

Apesar das inúmeras diferenças, "China e Estados Unidos devem melhorar sua comunicação e cooperação", defendeu o presidente chinês. Biden já havia enfatizado a importância de "salvaguardas" entre Pequim e Washington para evitar um "conflito", "intencional" ou não. Xi disse esperar que os Estados Unidos não embarquem em uma "nova guerra fria".

 

Direitos humanos

De acordo com a Casa Branca, Biden expressou "preocupação com as práticas (chinesas) em Xinjiang, Tibete e Hong Kong, e com os direitos humanos em geral".Pequim não menciona explicitamente esses pontos em seu relatório. "Com base no respeito mútuo, estamos dispostos a dialogar sobre questões de direitos humanos", disse Xi Jinping. Mas, acrescentou, "rejeitamos que os direitos humanos sirvam de pretexto para interferir nos assuntos internos de outro país".

 

Comércio

Desde sua chegada à presidência, Biden não modificou a guerra comercial iniciada em 2018 por Donald Trump, e os Estados Unidos continuam a impor tarifas punitivas a muitos produtos chineses. Biden "foi claro sobre a necessidade de proteger os trabalhadores americanos contra negócios e práticas econômicas injustas" da China, de acordo com a Casa Branca. Xi Jinping disse estar disposto a facilitar a chegada de empresários americanos, apesar das restrições relacionadas à pandemia. Mas nenhuma trégua na guerra comercial está à vista e nenhum contrato foi anunciado.