Guerra no leste europeu

Rússia acusa Ucrânia de atacar o próprio território

Helicópteros Mi-24 teriam invadido o espaço aéreo russo e disparado mísseis contra depósito de combustível, a 40km da fronteira. Kiev não confirma nem nega a suposta ofensiva. Forças de Moscou perdem o controle de Irpin e de Bucha

Rodrigo Craveiro
postado em 02/04/2022 06:00
 (crédito: Ronaldo Schemidt/AFP)
(crédito: Ronaldo Schemidt/AFP)

A guerra no Leste da Europa ganhou ontem um contorno ainda mais perigoso. A Rússia acusou a Ucrânia de atacar, com helicópteros, um depósito de combustível dentro do território russo, na cidade de Belgorod — a 40km da fronteira entre os dois países. Vyacheslav Gladkov, governador de Belgorod, denunciou que dois helicópteros ucranianos Mi-24 invadiram o espaço aéreo russo a uma altitude "extremamente baixa" e "lançaram um ataque de mísseis contra uma instalação civil de armazenamento de petróleo". "O depósito nada tem a ver com as Forças Armadas russas", destacou Gladkov.

A resposta da Ucrânia foi evasiva. O chanceler ucraniano, Dmytro Kuleba, declarou que não poderia confirmar nem negar as informações, mas reconheceu que o suposto ataque poderia atrapalhar as negociações entre Kiev e Moscou. Pouco depois, Oleksandr Motuzyanyk, porta-voz do Ministério da Defesa, fez um pronunciamento na televisão e enfatizou que "a Ucrânia está realizando uma operação defensiva contra a agressão russa ao seu território". "Isso não significa que a Ucrânia deva ser responsável pelos erros de cálculo ou catástrofe que ocorram no terrotório da Federação Russa. Esta não é a primeira vez que testemunhamos tais acusações. Portanto, não vou confirmar nem negar esta informação", acrescentou.

O ataque ao depósito em Belgorod chegou a colocar em xeque as tratativas diplomáticas. "Está claro que não se pode considerar isto como algo que vai criar as condições apropriadas para a continuidade das negociações", disse Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin. No entanto, Vladimir Medinski — negociador designado pelo presidente russo, Vladimir Putin — informou que o diálogo entre os países tinha sido retomado por videoconferência. Rússia e Ucrânia também realizaram uma troca de prisioneiros de guerra, entre eles 86 ucranianos (15 mulheres). Em outro desdobramento no front, as cidades de Irpin, no subúrbio de Kiev, e de Bucha foram recapturadas pela Ucrânia. No fim da noite, o Departamento de Defesa dos EUA anunciou que destinará US$ 300 milhões (ou R$ 1,3 bilhão) adicionais em ajuda militar à Ucrânia.

Diretor da ONG Eurasia Democracy Initiative, em Kiev, Peter Zalmayev afirmou ao Correio que a Ucrânia não confirma nem nega envolvimento no ataque ao território russo. "A Rússia qualificou o incidente como uma 'escalada perigosa' do conflito, o que é mais do que ridículo. A escalada se deu em 24 de fevereiro, quando as forças russas começaram a invadir a Ucrânia e a bombardear nossas cidades. Classsificar como 'escalada' um ataque a um depósito de combustível, sem vítimas, soa ridículo", comentou. "Não se sabe se foi um ato russo ou ucraniano. Mas pode ter sido um pretexto de Moscou para lançar nova onda de terror."

Por sua vez, Petro Burkovsky — analista da Fundação de Iniciativas Democráticas Ilko Kucheriv (em Kiev) — lembrou que a Rússia apresentaria, ontem, a resposta ao rascunho de paz elaborado pela Ucrânia. "Vejo esse incidente como mais uma operação especial, que tenta criar pretexto para a rejeição ao plano ucraniano", afirmou à reportagem. Ele explicou que Belgorod está próxima à fronteira com a Ucrânia, mas também perto de Kharkiv. "O trecho de 80km que separa as duas localidades é controlado pelo Exército russo. Se este fosse um ataque ucraniano, os comandantes russos que operam no local teriam sido detidos em 24 horas. Nada disso ocorreu."

Risco de radiação em Chernobyl

 (crédito: SERGEI SUPINSKY)
crédito: SERGEI SUPINSKY

A central nuclear de Chernobyl não foi danificada durante a ocupação pelos soldados russos, mas é provável que os militares tenham sido expostos à radiação, garantiram as autoridades ucranianas. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, admitiu que a retirada das tropas de Moscou pode ter levado a um aumento "localizado" da radiação devido ao movimento de veículos.

Falta de preparo russo

 (crédito: Arquivo pessoal )
crédito: Arquivo pessoal

Petro Burkovskyi 

"A velocidade da retirada russa da parte norte da Ucrânia, especialmente de Kiev e de Chernihiv, indica problemas crescentes entre os soldados e grave fadiga de guerra. Não acho que as tropas do Kremlin serão realocadas para o leste. Parece-me que o Exército russo não estava preparado para a guerra real.

Temos muitos depoimentos de prisioneiros de guerra que disseram ter sido intimidados ou enganados para assinarem um contrato às vésperas da invasão. As tropas de elite de Moscou foram derrotadas por soldados comuns da Ucrânia, que pareciam mais bem treinados e comandados.

Analista da Fundação de Iniciativas Democráticas Ilko Kucheriv (em Kiev)

Informação distorcida

Peter Zalmayev

"Os serviços de inteligência do Ocidente preveram que as forças da Ucrânia cairiam nas primeiras 96 horas de guerra e que as tropas da Rússia desfilariam pelas avenidas de Kiev. Todos se supreenderam com a fragilidade do Exército de Putin. Acreditava-se que a Ucrânia seria uma repetição da ocupação soviética no Afeganistão. 

Veja uma combinação de falta de coordenação, de preparação e de informação no front russo. Putin apostava em uma guerra rápida, ao chamá-la de "operação especial". Como você entra em uma guerra com um contingente tão escasso? A Ucrânia é um país de 45 milhões de pessoas, e Putin enviou 200 mil soldados. Quando a União Soviética tentou pacificar a Thecoslováquia, em 1968, mobilizou 500 mil militares para uma nação de 9 milhões de cidadãos. Isso mostra que os russos tinham informação distorcida sobre a Ucrânia."

Diretor da ONG Eurasia Democracy Initiative, em Kiev 

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