Saiu na chuva, vai se molhar

por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df@gmail.com
postado em 02/04/2022 00:01

Voltou a debate na última semana, no Congresso, a colocação do Brasil no cenário internacional  desenhado pela guerra na Ucrânia. Por iniciativa de sua presidente, Kátia Abreu (PP-TO), a Comissão de Relações Exteriores do Senado recebeu o chanceler Carlos França, diplomatas e ministros do governo Bolsonaro e questionou sobre os impactos do conflito para o país — sobretudo na economia. Assim como nas votações cruciais no Conselho de Segurança da ONU, transpareceu nas audiências a opção do Itamaraty por abordar a crise de maneira a minimizar as consequências por aqui, com especial atenção para as econômicas.

Uma novidade, porém, foi a indicação do chanceler de que o Brasil se dispõe a assumir algum papel como cofacilitador do diálogo entre Rússia e Ucrânia para uma solução pacífica do impasse. O movimento está em linha com a trajetória da diplomacia brasileira e coincide com o mandato recém-iniciado no Conselho de Segurança. Mas tem implicações incontornáveis: Moscou, Kiev e outras partes envolvidas mais de perto, como EUA, Otan e União Europeia, tendem a apertar a marcação sobre o Itamaraty, tomando emprestada a linguagem do futebol.

No espírito de um dito especialmente oportuno, a diplomacia brasileira ensaia sair na chuva.

Lei de Lincoln

A pressão de Washington se faz sentir desde os primeiros dias da invasão russa e desafia a determinação, ratificada pelo chanceler no Senado, de manter uma posição "de equilíbrio". Em nome dela, e de olho também nas relações com Rússia e China, no âmbito do Brics, o governo brasileiro fica a alguns passos de condenar Vladimir Putin e critica o cerco econômico articulado contra Moscou.

Quanto mais o conflito se prolongar, tanto mais se aplicará uma variante da célebre máxima atribuída ao presidente americano Abraham Lincoln. É possível agradar a muitos, por algum tempo. Ou agradar a alguns por muito tempo. Mas não se pode agradar a todos o tempo todo.

Tudo, menos bobo

Foi especialmente sintomática a oposição explícita manifestada por Carlos França, na audiência, diante das sanções unilaterais impostas à Rússia. Em coro com a presidente da Comissão, o chanceler apontou os efeitos colaterais sobre a economia global — e, naturalmente, a brasileira.

Kátia Abreu é porta-voz do agronegócio e já mostrou algumas vezes a determinação de representar os interesses do setor na esfera das relações exteriores. Foi, por exemplo, o caso da fritura do antecessor de Carlos França, Ernesto Araújo, pelos embaraços que criou com a China durante a pandemia.

Na condução da última série de audiências, a senadora enumerou problemas, como a disparada dos combustíveis, a escassez de fertilizantes e a retração do comércio mundial. Criticou, sem rodeios, a Casa Branca e proclamou que, na crise ucraniana, "não existe santo". Como diz a conhecida campanha, "agro é tech, agro é pop, agro é tudo" — menos bobo.

A cor do dinheiro

No pano de fundo dos vaivéns diplomáticos entre Moscou e Kiev, com a Turquia funcionando como pivô e avalista das conversações, um jogo de alcance mais longo se desenrola no tabuleiro do comércio e das finanças internacionais. Mais particularmente, na frente do sistema monetário.

Putin faz tabelinha com o presidente da China, Xi Jinping, no esforço de contornar os obstáculos erguidos por Joe Biden a partir da Casa Branca. O sentido mais geral da manobra é driblar o dólar e o euro e estabelecer um sistema alternativo de trocas. Não por acaso, governos de diferentes coordenadas geográficas e políticas começam a acumular reservas também em iuanes.

Jogo de estratégia

Em seu livro Sobre a China, o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, um dos cardeais da diplomacia do século 20, descreve a influência de um jogo milenar de estratégia sobre o pensamento geopolítico chinês. Ao contrário do xadrez, o Wei chi, conhecido também pelo nome japonês Go, não se decide pela derrota completa do oponente — o xeque-mate.

No tabuleiro dos mandarins, as peças se distribuem e se movimentam não de encontro às do adversário, mas nos espaços vazios. No lugar de um combate frontal, o Wei chi se desdobra em batalhas múltiplas e simultâneas, independentes entre si e travadas em regiões distintas do campo. Cada jogador busca impor o cerco estratégico ao inimigo. A vitória é determinada pelo balanço da situação de cada um na somatória dos vários confrontos.

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