Guerra no leste europeu

"A cidade de Mariupol foi varrida da face da Terra", diz ucraniana

Pelo menos 100 mil civis lutam para sobreviver em Mariupol, em meio à fome e aos bombardeios

Rodrigo Craveiro
postado em 02/04/2022 06:00
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)

Olga Antsiferova, 20 anos, definiu com uma palavra o que viu em Mariupol, cidade portuária situada no sudeste da Ucrânia, sitiada e bombardeada pelas tropas da Rússia: inferno. "Mariupol foi varrida da face da Terra. As ruas estão cheias de cadáveres e de equipamentos militares. Não existem mais casas, apenas esqueletos em ruínas chamuscados", contou ao Correio a moradora, que conseguiu fugir em 24 de março passado. Ela e a mãe ficaram no apartamento, no centro de Mariupol, até o 17º dia da guerra. Os bombardeios arrancaram as janelas. "Dormíamos no corredor, em meio a um frio de 5 graus. Desde 1º de março, vivemos sem luz, água e aquecimento. Bombas lançadas de aviões atingiram nossa casa três vezes. Os russos atacam civis de forma deliberada", acrescentou a assistente de recursos humanos em uma empresa de logística.

Em 24 de março, ela, a mãe e a tia, carregando os dois cães de estimação e cinco sacolas, caminharam até a periferia de Mariupol, em um local predeterminado para a retirada de civis. "Andávamos em meio aos bombardeios e a franco-atiradores. Conseguimos chegar ao destino, onde nos separamos. Minha mãe entrou em um ônibus, enquanto eu e minha tia pegamos carona em um carro. Paramos em Volodarsk, onde dormimos por duas noites em uma escola, sentadas em uma cadeira. Pude cochilar por meia hora em uma das noites", relatou Olga. Depois de nova parada no vilarejo de Dmitrovka, elas viajaram por oito horas no porta-malas de uma van, antes de embarcarem em um trem até Lviv. O noivo, Alexey, quis ficar em Mariupol cuidando da mãe e das avós, de 96 e de 88 anos. "Na última terça-feira, soube que ele está vivo."

Pelo menos 100 mil civis lutam para sobreviver em Mariupol, em meio à fome e aos bombardeios. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC) suspendeu uma operação de resgate, marcada para sexta-feira (1º/4). "Esperamos ser capazes de ajudar mais civis a deixarem Mariupol amanhã (hoje)", disse à reportagem Jason Straziuso, porta-voz do ICRC, por e-mail. De acordo com ele, 750 integrantes da Cruz Vermelha estão mobilizados para ajudarem na retirada. 

No entanto, na noite de sexta (1º), agências internacionais de notícias informaram que 2 mil civis chegaram Zaporizhzhia, a bordo de 42 ônibus e carros, escoltados pela Cruz Vermelha. O comboio transportava civis de Mariupol que tiveram sucesso em chegar à cidade de Berdiansk, ocupada pelos russos. A vice-primeira-ministra ucraniana, Irina Vereshchuk, confirmou a informação em um vídeo no Telegram. "Hoje, enquanto gravamos esse vídeo, 42 ônibus já estão a caminho para levar os moradores de Mariupol para um lugar seguro", disse. "Sabemos o quanto esperam ser salvos. Cada dia tentaremos outra vez até que tenham a chance de sair da cidade e, acima de tudo, de viver em paz." 

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