Prova de solidariedade

Em visita surpresa a Kiev, o premiê do Reino Unido, Boris Johnson, se reúne com o presidente Volodymyr Zelensky, elogia heroísmo dos ucranianos e anuncia envio de blindados e mísseis. Britânico é o primeiro líder do G7 a viajar ao país invadido pela Rússia

Correio Braziliense
postado em 10/04/2022 00:01
 (crédito: Presidência da Ucrânia/AFP)
(crédito: Presidência da Ucrânia/AFP)

A fotografia divulgada nas redes sociais causou surpresa. Boris Johnson e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, sentados à mesma mesa, em Kiev. A visita do primeiro-ministro do Reino Unido à capital da Ucrânia teve a intenção de transmitir uma "demonstração de solidariedade" contra a guerra travada por Vladimir Putin. Johnson e Zelensky caminharam, lado a lado, pelas ruas da cidade e conversaram com moradores. Em um gesto de afeição política e de proximidade, os dois líderes chamaram um ao outro pelo primeiro nome. "Quero começar, Volodymyr, saudando, mais uma vez, a bravura do povo da Ucrânia em desafiar a atroz agressão que vimos. Nas últimas semanas, o mundo descobriu novos heróis, e esses heróis são o povo da Ucrânia", declarou Johnson, cuja visita não tinha sido anunciada. "Nós forneceremos apoio para que a Ucrânia jamais volte a ser invadida", prometeu o britânico. 

"O nosso amigo mais sincero, um amigo para a Ucrânia, o líder do Reino Unido e aliado de nosso país. Estou muito grato, Boris, por esta visita. É muito importante neste momento difícil e terrível. Os outros países democráticos ocidentais devem seguir o exemplo do Reino Unido", respondeu Zelensky. O presidente ucraniano também fez cobranças: disse que é hora de impor um embargo completo sobre os recursos energéticos da Rússia. "Eles (países democráticos) deveriam aumentar o fornecimento de armas para nós. O povo da Ucrânia valoriza o apoio do Reino Unido em nossos caminhos para paz."

Johnson prometeu a Zelensky 120 carros blindados e novos sistemas de mísseis contra navios. O chefe de governo britânico descreveu a resistência contra a invasão ordenada há mais de seis semanas pelo presidente russo, Vladimir Putin, como "a maior façanha do século 21". "Graças à liderança decisiva do presidente Zelensky e ao invencível heroísmo e à coragem do povo ucraniano, os planos monstruosos de Putin foram desbaratados", disse o britânico. Ele é o primeiro chefe de Estado ou governo de potências do G7 que viaja a Kiev desde o início da invasão, em 24 de fevereiro.

Para Olexiy Haran, professor de política comparativa da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla (Ucrânia), as visitas de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia (órgão executivo da União Europeia) e de Josep Borrell, chefe de política externa do bloco, anteontem; de Johnson e do chanceler austríaco, Karl Nehammer, são "muito boas". "Elas demonstraram um apoio verdadeiro à Ucrânia. Johnson prometeu enviar armamentos e mísseis antinavios. Isso é muito importante para nós, ante os planos dos russos de ampliarem a ofensiva contra Donbass (leste)", declarou. 

Anton Suslov, especialista da Escola de Análise Política (NaUKMA), em Kiev, elogia o papel de Johnson, ao se postular como coordenador de novas sanções contra Putin. "A visita do premiê deve persuadir líderes europeus sobre a necessidade de mais punições severas contra Moscou, incluindo na área energética. O apelo de Zelensky por um embargo sobre o petróleo, em vídeo divulgado poucas horas depois do retorno de Johnson a Londres, não parece mera coincidência. Além disso, o primeiro-ministro apresentou a Zelensky um novo pacote de ajuda financeira e militar à Ucrânia", destacou. 

A visita  produziu imagens de forte simbolismo. Johnson e Zelensky foram fotografados caminhando pelas ruas de Kiev. "É a melhor resposta para aqueles na Europa que continuam com medo da Rússia e ainda tentam não 'provocar' Putin", disse Suslov. Ele vê como de vital importância ter um "parceiro inabalável" como o Reino Unido. "Visitas como essa permitem que os ucranianos se certifiquem de que os aliados internacionais acreditam na Ucrânia."

Artem Oliinyk, diretor do Instituto para Relações de Governo (em Kiev), avaliou que a visita de Johnson causou uma "impressão incrível", ainda mais por não ter sido algo esperado. "O gesto de Johnson pode ser comparado com o do ex-premiê Winston Churchill, que viajou à França durante a ofensiva nazista contra aquele país. Ele não apenas veio nos apoiar, mas também anunciar os próximos passos de uma estratégia conjunta para exaurir a Rússia, de modo que ela não possa continuar com a guerra." 

Prefeito

Enquanto Zelensky recebia Johnson em Kiev, a parte leste da ex-república soviética prosseguia sob forte bombardeio. Na sexta-feira, o ataque com um míssil de curto alcance deixou 52 mortos na estação de trem de Kramatorsk, na região do Donbass, palco de disputas entre russos e ucranianos. Ontem, o prefeito da cidade, Oleksandr Honcharenko, voltou a falar ao Correio e contou que os moradores estão com medo, mas não em pânico, depois do massacre da véspera. "Nós sobrevivemos à guerra de 2014. Eu disse aos cidadãos para abandonarem Kramatorsk. Para que fique o menor número possível de pessoas, pois assim teríamos condições de fornecer alimentos e ajuda, caso nossa cidade seja ocupada, como Mariupol (sudeste)", afirmou.

Segundo Honcharenko, 350 moradores abandonaram Kramatorsk ontem. "Foram transportados de ônibus, gratuitamente, até a cidade de Dnipro", 250km a oeste. "Nossa cidade está a 40km do front, perto de Izyhum. Os barulhos de artilharia podiam ser escutados o dia todo, hoje (ontem)", disse. O prefeito contou que 114 civis ficaram feridos no bombardeio à estação de trem — 70 deles, em estado crítico, também foram transferidos para Dnipro. O prefeito de Kramatorsk afirmou esperar que a pressão e a influência sobre a Rússia sejam ampliadas depois da visita surpresa de Johnson.  

  • Antonina Kaletnyk aguarda o corpo do filho, em Borodyanka
    Antonina Kaletnyk aguarda o corpo do filho, em Borodyanka Foto: Ronaldo Schemidt/AFP
  • Criança olha o céu, assustada, antes de fugir de Kramatorsk
    Criança olha o céu, assustada, antes de fugir de Kramatorsk Foto: Fadel Senna/AFP
  • Uma mulher se despede do marido, ao embarcar em um ônibus, também em Kramatorsk
    Uma mulher se despede do marido, ao embarcar em um ônibus, também em Kramatorsk Foto: Fadel Senna/AFP

"Enterramos 13 pacientes na área do internato"

 (crédito: Arquivo pessoal )
crédito: Arquivo pessoal

Marina Hanitska

"Moro e sou deputada em Vyshhorod, cidade controlada pelas Forças Armadas da Ucrânia, mas trabalho em Borodyanka, a 50km de lá. Borodyanka esteve sob ocupação completa das forças russas. Dirijo um internato para idosos e pacientes com doenças mentais. Eu e minhas enfermeiras estivemos sob cerco entre 24 de fevereiro e 13 de março, sem eletricidade, sem água e sem aquecimento. 

Ficamos sem nada para cozinhar aos pacientes. Tudo isso em meio a constantes combates entre as tropas russas, apoiadas pelos mercenários chechenos, e os soldados ucranianos. Os invasores russos não permitiram que voluntários viessem até nós. As pessoas começaram a morrer de hipotermia, no nosso internato. Fizemos uma cova coletiva e enterramos 13 pacientes. 

Quando estávamos sob bombardeios constantes, tudo ao redor se estilhaçava e queimava. Projéteis e foguetes voavam. Quando fomos feitos prisioneiros, o território no entorno do internato foi minado, e eles montaram uma espécie de posto de controle perto de nós. Pensávamos que não nos salvaríamos. Fomos usados como escudos humanos. Tudo foi muito assustador. Ficamos sem comida. Éramos 500 pessoas no internato. Havia muitos doentes. Todos estávamos com medo. Tínhamos que ficar sentados dentro do porão do prédio."

Deputada da cidade de Vyshhorod, 43 anos. Diretora do Internato Psiconeurológico da cidade vizinha de Borodyanka, instituição dotada de departamento geriátrico. Depoimento concedido ao Correio pelo Telegram 

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