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Macron foca em redutos de Le Pen

Para o segundo turno, o candidato à reeleição tem como estratégia conquistar votos em áreas com alto índice de rejeição. A rival deve manter a aposta em temas econômicos. Pesquisas indicam que, diferentemente de 2017, a disputa à Presidência terá resultado apertado

Correio Braziliense
postado em 12/04/2022 00:01
 (crédito: AFP)
(crédito: AFP)

Depois de cinco anos, Emmanuel Macron e Marine Le Pen voltam a protagonizar o segundo turno das eleições presidenciais na França. Segundo analistas, a nova disputa entre o nome do centro e o da extrema-direita tem esse único ponto em comum. Trata-se de uma disputa completamente diferente. Em busca da reeleição, o candidato do partido A República Em Marcha (LREM) deixou de representar uma escolha pela renovação, e a sua rival, do Reagrupamento Nacional (RN), não gera mais tanta rejeição. Pesquisas recentes indicam uma vantagem de Macron de 2 a 10 pontos percentuais — bem distante dos 66,1% de votos que garantiram a sua chegada ao Palácio do Eliseu. E a estratégia adotada pelo liberal para mudar esse cenário parece ser a busca por votos nos locais em que tem os maiores índices de rejeição.

A primeira cidade visitada por Macron nesta nova fase da campanha fica em uma região popular do norte da França que votou majoritariamente em Le Pen. Denain, um antigo reduto da esquerda, é próxima à Bélgica e uma das cidades mais empobrecidas do país. "Aqui, fiquei em terceiro (no primeiro turno) e vim ao encontro de nossos compatriotas para ouvir, para convencer", disse o dirigente liberal. Em Denain, a candidata do RN obteve 41% dos votos no domingo, seguida do esquerdista Jean-Luc Mélenchon.

Macron conversou com cerca de 150 moradores, amontoados atrás de barreiras de proteção, e foi questionado sobre temas ligados à melhora do poder aquisitivo, aposentadoria e saúde. Joëlle Soula, uma aposentada de 70 anos, disse ao candidato que "é preciso avançar mais rápido". "Denain ficou esquecida com relação ao desemprego e à pobreza", completou. Uma eleitora acusou Macron de "desconhecer o que é ser um trabalhador": "Estamos fartos de sua reforma". O candidato respondeu à mulher citando as medidas que pretende adotar para proteger o poder aquisitivo da população.

Um projeto polêmico, porém, esbarra em forte resistência dos franceses. Se reeleito, Macron pretende aumentar a idade da aposentadoria, de 62 para 65 anos. Ontem, no primeiro dia de campanha do segundo turno, disse estar pronto para "mudar" a idade para 64 caso esse tema "gere muita tensão". A ideia foi lançada em Carvin, no Pas de Calais, região onde Le Pen também teve melhor desempenho nas urnas.

Macron também visitou Lens, outra localidade que votou maciçamente em sua rival com cerca de 40% dos votos. Tanto em Lens quanto em Carvin, Macron ficou atrás de Mélenchon, cujos eleitores o atual presidente busca atrair para o seu lado. "Vi muitos jovens dizendo: 'Votei em Mélenchon'. Agora, tento convencê-los", acrescentou o candidato à reeleição. O esquerdista obteve 21,95% no primeiro turno — Macron ficou com 27,85% e Le Pen, com 23,15% — e há uma expectativa de que seu eleitorado fortaleça Macron.

No domingo, antes da divulgação do resultado oficial do pleito, Mélenchon disse que os franceses não deveriam "dar um único voto a Le Pen", mas não pediu explicitamente para que votem no atual presidente. Diretor de campanha de Mélenchon, Manuel Bompard foi mais claro. "Se Macron quer convencer nossos eleitores, ele que trabalhe", avisou. Porta-voz do partido de Le Pen, Jordan Bardella aposta que ela receberá "muitos votos" do esquerdista. "Os candidatos não são proprietários de seus eleitores", justificou. Comunistas, socialistas e ecologistas uniram forças para impedir a vitória da candidata da extrema-direita, que conta com os 7% de eleitores do extremista Éric Zemmour, que pediu votos para ela, e os 2% do candidato de direita radical Nicolas Dupont-Aignan.

Novo cenário

Le Pen deu início à campanha do segundo turno mantendo a estratégia que parece ter surtido efeito no primeiro. Ela deixou de lados pontos mais polêmicos, como propostas para conter a migração e a saída do comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, e se apresentou como defensora do poder aquisitivo e das classes populares. "Chegamos a este segundo turno sem termos perdido a serenidade, a calma, a determinação, a convicção absoluta de que podemos vencer", disse.

À tarde, a candidata do RN visitou uma localidade a 100 quilômetros de Paris para conversar com agricultores e alertá-los sobre um eventual aumento dos preços dos alimentos. "Isso me preocupa muito, porque observo nuvens se acumulando e um presidente que finge não vê-las", declarou.

Há uma intenção de Macron em, nesta fase da disputa, explorar a imagem de radical que a candidata de extrema-direita apagou na primeira fase do atual pleito e nas eleições de 2017, mas, na avaliação do cientista político do Ipsos Brice Teinturier, isso pode não funcionar. "É uma partida completamente diferente", enfatizou, em entrevista à agência France-Presse de notícias (AFP). Segundo o especialista, "Macron não é mais o novo candidato que encarna uma forma de frescor", e sua rival não gera mais tanta rejeição, depois de trabalhar sua imagem. "Le Pen está mais em contato com os franceses".

O país também não é o mesmo, lembra Teinturier. O mandato de cinco anos de Macron foi marcado por grandes protestos sociais contra sua política para as classes populares, uma pandemia que deixou milhões de pessoas confinadas e, nas últimas semanas, pelos efeitos da guerra na Ucrânia. O confronto no leste europeu ofuscou as campanhas presidenciais deste ano. Porém, suas consequências nos preços da energia provocaram a alta da inflação e reforçaram a principal preocupação dos franceses: a perda de poder aquisitivo, ponto-chave da estratégica de Le Pen para, desta vez, chegar ao Eliseu.

Debate pode ser decisivo

As projeções mais recentes apontam 53% dos votos para Macron e 47% para Le Pen. Porém, uma pesquisa de opinião realizada pelo grupo Ifop-Fiducial sugere que a vantagem do atual presidente pode ser ainda mais apertada: 51% contra 49%. Um debate entre os candidatos, marcado para o próximo dia 20, poderá ser o momento crucial da campanha, cuja votação se dará quatro dias depois. Há cinco anos, Macron, mais bem preparado, se saiu melhor no debate e, depois, nas urnas.

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