Conexão Diplomática

Brics no caminho da Casa Branca

por Silvio Queiroz
postado em 30/04/2022 00:01

À margem do noticiário extenso — e quase monocórdio — sobre a guerra na Ucrânia, um movimento articulado no âmbito do Brics aponta para a abertura de mais um foco de atrito entre o bloco dos emergentes e a frente político-militar entre EUA, Europa e outros aliados. Reunido por videoconferência, sob presidência chinesa, o grupo de trabalho do Brics para combate ao terrorismo desenvolveu a estratégia definida na última cúpula do grupo, na Índia.

No próximo encontro, em setembro, na China, os líderes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul deverão avançar na consolidação de uma política coordenada de intervenção nos organismos multilaterais. O objetivo central dos cinco é se contrapor, no cenário global, ao unilateralismo da Casa Branca — por vezes implantado sob o guarda-chuva da Otan. Abrandada, ao menos no plano do discurso, durante a presidência de Barack Obama, a política do "nós é nós" voltou com Donald Trump, sob o lema America First. Agora, com Joe Biden, assume a feição do jogo de blocos, via Otan.

Mas, como no poema, há pedras no caminho.

Todos por um

Do lado oposto, Rússia e China vêm de selar uma aliança estratégica de longo alcance, definida como "sem limites". De saída, ela resultou na cobertura diplomática dada por Pequim a Moscou na crise da Ucrânia. E tem réplica nas tensões entre China e EUA em torno de Taiwan.

A Índia pratica o equilíbrio pragmático, mas deixa claro que tem com o Kremlin laços de longa data, que remontam à era soviética e à Guerra Fria.

Namoro ou amizade?

Foi com esse cenário como pano de fundo que Brasília recebeu nesta semana uma delegação de alto escalão enviada por Washington, chefiada pela subsecretária de Estado para Assuntos Políticos, Victoria Nuland. A "número dois" da diplomacia americana aproveitou a ocasião de um evento, o Diálogo de Alto Nível Brasil-EUA", para trazer mensagens da Casa Branca e do Departamento de Estado.

Depois de esnobar Bolsonaro durante o primeiro ano de mandato, como troco pelo apoio do presidente brasileiro à campanha derrotada de Trump pela reeleição, Biden sinaliza agora com o interesse em resgatar os laços bilaterais. Em especial, as conversações se orientam para o campo da defesa: em seu governo, o primeiro concedeu ao Brasil o status de "aliado preferencial extra-Otan". Estão nessa categoria, entre outros, Israel e a Coreia do Sul.

A visita da delegação, pilotada de Washington pelo secretário Antony Blinken, terá um desdobramento mais diretamente vinculado ao esforço para engajar o Brasil nas sanções econômicas contra Moscou. A subsecretária anunciou para breve o envio de uma delegação que estudará a cooperação para produção de fertilizantes no Brasil, que hoje importa da Rússia 80% do insumo, necessidade básica do agronegócio.

Dura lex

Nos bastidores da diplomacia americana para a América do Sul, causou certo desagrado a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU de reconhecer como parcial a atuação do ex-juiz Sergio Moro nos processos contra o ex-presidente Lula. Quando comandou a Operação Lava-Jato e depois, como ministro da Justiça no início do governo Bolsonaro, Moro teve presença assídua nos EUA. Manteve reuniões e contatos no FBI (polícia federal) e nos Departamentos de Justiça e de Segurança Doméstica.

Quando se lançou candidato à presidência, o ex-juiz e ex-ministro foi visto por setores políticos em Washington como opção entre Lula e Bolsonaro. Com a desistência, e a aparente cristalização do cenário na corrida pelo Planalto, a divisão de Assuntos Hemisféricos (Américas) do Departamento de Estado atualiza os cálculos e esboça planos para a condução das relações bilaterais na segunda metade do mandato de Biden.

Túnel do tempo

Outra eleição presidencial em um aliado estratégico para a Casa Branca na América do Sul entra na reta final de campanha sob o impacto de um fator inédito no tabuleiro político e a companhia incômoda de um fantasma antigo. A Colômbia vai às urnas dentro de quatro semanas. Uma pesquisa divulgada ontem confirmou a liderança de Gustavo Petro, com 43,6% das intenções de voto. Pela primeira vez na acidentada história do país, um candidato de esquerda chega às urnas com chances reais de vitória. O mais provável adversário no segundo turno, em junho, é o direitista Federico Gutiérrez, que aparece com 26,7%.

Petro encarna a longa marcha de seu campo político para se inserir plenamente no processo institucional e na sociedade civil. Há três décadas, foi um dos artífices da desmobilização do grupo guerrilheiro M-19. Trocou as armas por mandatos de deputado, prefeito de Bogotá, a capital federal, e senador. Não por acaso, construiu uma candidatura viável seis anos depois do acordo de paz entre o Estado e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), principal sigla das cinco décadas de guerrilha de esquerda.

A disputa pela Casa de Nariño entra na hora da verdade sob o espectro da violência política que faz presença endêmica na vida do país. Dias atrás, a Defensoria do Povo apresentou um relatório que registra o assassinato de 52 ativistas políticos e sociais nos primeiros três meses do ano. Militantes de movimentos ambientais, agrários e indígenas são alvo recorrente dos grupos armados ilegais; esquadrões paramilitares, narcotraficantes e outras organizações criminosas e mesmo dissidentes das Farc que se recusaram a depor as armas.

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