Guerra

'Se Ucrânia tivesse entrado na Otan, guerra não teria acontecido', diz ex-embaixador dos EUA

Em entrevista à BBC, o embaixador dos EUA na Otan, Ivo Daalder, diz que foi um erro, na visão dele, não ter admitido entrada da Ucrânia na aliança em 2008



A guerra na Ucrânia poderia ter sido evitada caso a Otan tivesse aceitado o pedido de filiação à aliança militar feito em 2008 pelo então presidente ucraniano Viktor Yushchenko.

Essa é a avaliação de Ivo Daalder, que foi embaixador dos Estados Unidos junto à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de maio de 2009 até julho de 2013, durante o mandato de Barack Obama na presidência dos EUA.

Ele acredita que a postura da aliança militar diante da proposta ucraniana não beneficiou nenhum dos lados e é, em parte, responsável pelo conflito que segue causando a morte de centenas de pessoas.

Nascido na Holanda, Daalder conhece bem tanto as questões europeias como também os problemas que envolvem a Otan e sua expansão gradativa para o leste - ele cita datas e menciona tratados europeus sem titubear.

Entre 1995 e 1997, durante a presidência de Bill Clinton nos EUA, Daalder também ocupou o cargo de diretor de Assuntos Europeus do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

Ivo Daalder já se retirou da vida política sem entretanto conseguir reduzir sua paixão pelo tema da segurança europeia.

Sua grande experiência o levou à presidência do Chicago Council on Global Affairs (Conselho de Assuntos Globais de Chicago), um think tank com sede na cidade de Chicago, nos EUA, especializado em assuntos globais e que se declara ser uma organização independente não partidária.

Em entrevista à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, o ex-diplomata americano disse acreditar ser necessária uma expansão da Otan que inclua a Finlândia e a Suécia e explica por que considera que o presidente russo, Vladimir Putin, cometeu um erro que lhe está custando bem caro.


BBC News Mundo - O senhor acredita que o presidente Putin subestimou a reação dos chamados países ocidentais à invasão da Ucrânia?

Ivo Daalder - Vladimir Putin muito provavelmente pensou que o Ocidente reagiria da mesma maneira como reagiu em outras provocações que a Rússia tem feito nos últimos 15 anos.

Em 2004, ele tentou manipular as eleições (presidenciais) na Ucrânia, mas o povo ucraniano resistiu e Putin perdeu aquela batalha. Em 2008, ele invadiu a Geórgia, o Ocidente interveio e foi assinado um cessar-fogo mas não foram impostas sanções.

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Ivo Daalder com Joe Biden em 2017

Em 2014, ele invadiu a Ucrânia pela primeira vez e a resposta do Ocidente foi moderada. Ele só foi levado mais a sério quando a Rússia derrubou o avião da Malaysia Airlines, e mesmo nessa ocasião optou-se pela negociação e a Rússia seguiu de pé.

Ali também as sanções foram moderadas. Putin pensou que os países ocidentais estavam debilitados, divididos e decadentes, que também não haveria reação a mais esta provocação.

Mas desta vez ele se equivocou. A reação o pegou de surpresa, o que mostra que ele tinha subestimado o Ocidente.

BBC - A reação do Ocidente à invasão russa à Ucrânia também pegou o senhor de surpresa?

Daalder - Fiquei surpreso com a reação de certos países, e pela rapidez com que tudo aconteceu.

Não pensei que a Suíça fosse aderir às sanções financeiras, mas foi o que aconteceu. Nem tampouco que Singapura se distanciaria e impusesse sanções econômicas.

Como também não achei que a Alemanha se envolveria tanto e passaria a aumentar o gasto em defesa e a apoiar os esforços de guerra da Ucrânia. Mas para mim não foi uma surpresa ver que o Ocidente impôs à Rússia amplos prejuízos econômicos com suas sanções.

O presidente Joe Biden passou boa parte do tempo que antecedeu a guerra alertando seus aliados europeus e o resto do mundo sobre os planos da Rússia. Desde o final de novembro, o governo Biden vinha preparando um pacote de sanções que continuam implementando a cada dia.

Também não me surpreendeu o fato de a Otan ter reagido com tal determinação para proteger cada centímetro de seu território.

BBC - O senhor acredita que a Otan tem feito o suficiente para apoiar a Ucrânia?

Daalder - Acredito que a guerra tem mudado a percepção das pessoas do que seja suficiente,

No princípio, o tipo de armamento que foi enviado, os mísseis antitanques, os sistemas de defesa antiaérea, foram muito importantes. Foram importantes para o sucesso da resistência ucraniana no norte do país e ajudaram a conter o avanço russo em outras partes.

Como a guerra mudou e a Ucrânia tem mostrado não apenas determinação e heroísmo mas também uma grande capacidade de deter os avanços russos e contra-atacar, a necessidade de ajuda tem sido maior.

Eu cito o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia com quem concordo, que disse que a ajuda recebida tem sido exatamente na medida necessária mas não tem chegado com a rapidez suficiente.

Agora, está havendo uma escalada maior dos confrontos, então há necessidade de mais ajuda. A natureza dos combates tem mudado.

BBC- Qual é a sua opinião sobre a possível entrada da Suécia e da Finlândia na Otan?

Daalder -Acho que seria fantástico! É claro que é uma decisão nacional que cabe a cada um dos países, mas tenho certeza que todos os membros da Otan receberiam de braços abertos o pedido de adesão de finlandeses e suecos.

São os aliados mais próximos da Otan e mantêm essa condição por muitos anos. Seus representantes participam, junto com membros da Otan em sua sede em Bruxelas, de todas as reuniões importantes da aliança.

Participaram inclusive das reuniões virtuais realizadas no começo da guerra e também da reunião presencial feita em março. Os finlandeses, particularmente, sabem que as circunstâncias mudaram e que por compartilharem uma fronteira de 1.340km com a Rússia estão em situação mais vulnerável.

E agora buscam a segurança de pertencer à aliança e é muito provável que a Suécia siga seus passos.

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O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, com o ministro das Relações Exteriores da Finlândia, Pekka Haavisto, e sua contraparte sueca, Ann Linde

BBC - Como isso beneficiaria outros países?

Daalder - Os finlandeses e os suecos têm capacidades militares significativas e há muito tempo trabalham em conjunto com as forças da Otan. A Otan ganharia dois aliados que ajudariam a defender o território dos outros membros da aliança.

Claro que isso significaria que os países que atualmente integram a aliança teriam que defender a Finlândia e a Suécia se elas forem atacadas, mas Finlândia e Suécia também teriam que defender os outros países-membros se atacados.

Em geral, isso fortaleceria a Otan. Provavelmente, isso dissuadiria qualquer agressão da Rússia contra a Otan. Como consequência, Europa e o restante do mundo estariam mais seguros.

BBC - O senhor não acha que poderia provocar mais confrontos com a Rússia, como advertiu o Kremlin?

Daalder - O Kremlin pode responder da maneira que quiser, mas não devia se surpreender que, ao invadir países, as nações vizinhas comecem a querer se unir à Otan para evitar uma invasão.

A realidade é que, se a Rússia quiser lançar uma ação militar contra a Finlândia e a Suécia, terá que considerar que muito provavelmente entrará em conflito com a Otan.

Até o momento não fez isso e tenho todas as razões para crer que não o fará.

BBC - Há um momento que pode ser perigoso, entre o pedido de adesão pela Suécia e a Finlândia e o aceite da Otan. Ambos os países poderiam esperar algum tipo de represália por parte da Rússia, que já os ameaçou. Como a Otan deveria lidar com isso?

Daalder - É difícil e já há discussões em curso entre Helsinki, Estocolmo e a Otan, com participação dos EUA, sobre que tipo de medida poderia ser adotada a partir do momento em que Finlândia e Suécia enviarem o pedido para se unir à aliança e antes de se converterem em membros.

Há dois pontos importantes.

Primeiro, existe uma cooperação de longa data entre Otan, Finlândia e Suécia. Não há um compromisso automático de defesa, mas essa cooperação permitiria que a Otan defendesse Finlândia e Suécia, ainda que não fossem membros.

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O ex-secretário de Defesa dos EUA Leon Panetta com Ivo Daalder (centro) e o ex-secretário-geral do Serviço Exterior da União Europeia Pierre Vimont (à direita), em Bruxelas em fevereiro de 2013.

Segundo, Finlândia e Suécia formam a Força Conjunta Expedicionária, que inclui membros da Otan, como Reino Unido e Países Baixos. Essa força também tem um acordo paralelo (de defesa).

E o mais importante é o fato de serem membros da União Europeia.

Como membros da União Europeia, integram o acordo de defesa coletiva do artigo 42.7 do Tratado de Lisboa. Esse artigo estabelece que todos os Estados-membros da União Europeia, ainda que não integrem a Otan, devem ajudar a defender outro Estado-membro se seu território for atacado.

A Alemanha já indicou, referindo-se a Finlândia e Suécia, que aplicaria o acordo de defesa coletiva se esses dois países forem atacados.

Portanto, durante o período de transição, a Rússia teria que levar em consideração que uma guerra com a Suécia ou a Finlândia envolveria outros países.

BBC - Em 2008, a Ucrânia pediu à Otan que iniciasse o processo para sua incorporação na aliança. Os países da Otan estavam divididos e, ao final, a Otan prometeu que a Ucrânia se tornaria Estado-membro no futuro. Foi um erro não aceitar o países naquela época?

Daalder -Foi um grande erro chegar a um acordo e dizer à Ucrânia que não se tornaria membro da Otan (naquele momento), enquanto se dizia à Rússia que eles (ucranianos) seriam membros algum dia.

Esse acordo trouxe o pior de dois mundos.

Creio que teria sido melhor começar o processo para incorporar a Ucrânia à aliança. Se a Ucrânia fosse membro da Otan, essa guerra nunca teria acontecido.

A Rússia teria sido dissuadida, não provocada, por uma Otan mais robusta.

BBC - Como essa guerra vai terminar?

Daalder -Infelizmente, não acho que haja uma via diplomática para acabar com ela. Haverá mais batalhas até que isso ocorra.

Está claro que a Rússia está determinada, no mínimo, a ocupar toda a região de Donbas e controlá-la, para assim assegurar uma rota terrestre com a Crimeia.

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O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg

Nenhuma dessas coisas ocorreu até agora. Ainda há um grande conflito em Mariupol e uma grande área de Donbas ainda está sob controle ucraniano. E a Ucrânia não está particularmente interessada em parar de lutar antes que seu território esteja totalmente livre e independente.

Portanto, não acho que haja uma saída diplomática no momento. Agora, desenvolveu-se um equilíbrio de forças entre a Rússia, que está se concentrando em lutar no leste, e a Ucrânia, que agora também pode se concentrar na luta no leste. Tudo vai depender de vários fatores, incluindo que tipo de assistência a Otan pode proporcionar à Ucrânia, como tanques, artilharia, mísseis, helicópteros, drones armados e, quem sabe, aeronaves.

Também vai depender de como o exército russo, que praticamente saiu derrotado em Kiev e no norte, poderá se reconstituir, e até que ponto as tropas russas estão dispostas a seguir lutando.

Não sei qual será o resultado disso. As possibilidades de que a Ucrânia alcance seus objetivos militares são menores que há seis meses ou seis semanas. Mas temos que seguir vendo como a guerra evolui, porque ela vai continuar.


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