Conexão Diplomática

Na guerra, também 'é a economia'

O desenrolar do conflito da Ucrânia, nas últimas semanas, sinaliza que, passados dois meses da invasão russa, a perspectiva é de muitos meses mais de crise. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, fala em guerra até o fim de 2023. E, em Washington, o presidente Joe Biden manobra com as atenções divididas entre os objetivos de política externa e as urgências domésticas.

Em novembro, os cidadãos americanos renovarão a Câmara dos Deputados e parte do Senado. Eleições legislativas de meio de mandato, nos EUA, são o principal termômetro para um presidente que tem no horizonte a reeleição — é o caso de Biden, ao menos até aqui. Mais que isso, o resultado das urnas pode se transformar em profecia autorrealizável: a perda de maioria, além do sentido político mais geral, costuma afetar a capacidade de manobra do governo pelos dois anos seguintes.

Na corrida para novembro, o sólido apoio da opinião pública à linha dura adotada por Biden contra Vladimir Putin, na reação inicial à crise, tende a perder terreno para preocupações mais concretas e cotidianas, como o preço da gasolina.

A máxima foi cravada na campanha presidencial de 1992 pela equipe do desafiante democrata, Bill Clinton, azarão completo contra o republicano George Bush pai, que planava nas alturas de 80% de aprovação pela Guerra do Golfo, vencida no ano anterior. Ironizando a autoconfiança do presidente com seu perfil de líder mundial, um assessor democrata cravou: "É a economia, estúpido". Bush não teve o segundo mandato.

O pirão de cada um

Desde que Putin ordenou que suas tropas invadissem a vizinha ex-república soviética, as pesquisas atestam que os americanos dão atenção ao noticiário sobre a guerra. O apoio à Ucrânia e seu presidente, Volodymyr Zelensky, emparelha com a rejeição ao presidente russo. Mas a guerra perde cada vez mais terreno para a economia, no universo de preocupações dos entrevistados.

A Universidade de Maryland apurou que um terço dos cidadãos considera a inflação um preço alto demais a pagar pela ajuda a Zelensky. A Universidade Quinnipiac confirmou a tendência: para 30%, a alta dos preços, em especial dos combustíveis, é de longe a prioridade para o país. A guerra vem em primeiro lugar para 14%.

Traduzindo para o português sem rodeios, na hora de votar, os americanos referendam a ideia de que, "se a farinha é pouca, meu pirão primeiro".

Não rasga voto

Se Biden enxerga as urnas em horizonte a cada semana um pouco mais próximo, para o chefe de governo da locomotiva econômica europeia elas se afastam no retrovisor. Nem por isso, no entanto, chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, pode respirar propriamente aliviado. Passados sete meses da vitória apertada do Partido Social Democrata (SPD) e menos de cinco desde a formação do gabinete, Scholz amarga seu índice mais baixo de popularidade. Praticamente metade dos alemães reprovam seu desempenho.

Nos dias que se seguiram à invasão russa, no fim de fevereiro, o chanceler fez um discurso excepcionalmente forte no Bundestag (parlamento). Anunciou, com pompa e circunstância, a quebra de um tabu do pós-Segunda Guerra, pelo qual a Alemanha não enviava armas para áreas de conflito. No âmbito da União Europeia, puxou o coro das sanções contra o Kremlin, inclusive no crítico terreno energético — a despeito da dependência do país em relação ao gás importado da Rússia.

Com o noticiário da guerra incorporado à rotina, Scholz começa a manobrar de modo a mitigar os efeitos colaterais sobre a economia doméstica. A suspensão das compras de gás russo é um exemplo: não entrará em vigor antes do fim do ano, para não expor o país ao risco de desabastecimento — e disparada dos preços — em pleno inverno europeu, que se prolonga até o fim de março. Sobre as armas prometidas, a notícia é que, no momento, a capacidade alemã para repassá-las à Ucrânia chegou ao limite.

Governabilidade

Uma eleição que se decide amanhã não seria, normalmente, assunto preferencial para este espaço semanal. Mas o segundo turno da disputa presidencial francesa vale para observar que, também no Palácio do Eliseu, o confronto entre Moscou e Kiev tende a ceder espaço para interesses mais imediatos, seja qual for o titular pelos próximos cinco anos.

As últimas pesquisas sugerem que o centrista Emmanuel Macron caminha para sacramentar o segundo mandato, com nova vitória sobre Marine Le Pen, da ultradireita. Mas parece improvável que o presidente dedique aos esforços diplomáticos o mesmo empenho demonstrado no primeiro mês na busca de uma solução para a guerra.

Macron, Le Pen e o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, que ficou a poucos votos de chegar ao segundo turno, olham desde já para meados de junho, quando o país terá eleições legislativas. O calendário político francês prevê a renovação da Assembleia Nacional em seguida à escolha direta do chefe de Estado, justamente para que este tenha a oportunidade de convencer os eleitores a lhe darem maioria para governar.

O voto 100% distrital, naturalmente, coloca no centro da campanha questões domésticas e mesmo regionais ou locais. As políticas de alianças sofrem inflexões segundo os interesses de cada partido e cada campo político mais geral.

Para um Macron reeleito, e mais ainda para uma Marine Le Pen que eventualmente surpreenda na reta de chegada, um fator se acrescenta ao clássico lema tripartite da República francesa: liberdade, igualdade, fraternidade... e governabilidade.