Coreia do Sul

O coreano que perdeu milhões em crash de criptomoedas e foi preso ao confrontar criador

O súbito colapso de duas moedas digitais populares, no início de março, surpreendeu os investidores e varreu US$ 400 bilhões (R$ 1,9 trilhão) do valor de várias outras criptomoedas, incluindo a maior delas, o bitcoin



No mundo volátil das criptomoedas, é possível ganhar e perder fortunas rapidamente. Mas o "criptocrash" de maio de 2022 foi particularmente devastador para um homem na Coreia do Sul.

O súbito colapso de duas moedas digitais populares, no início de março, surpreendeu os investidores e varreu US$ 400 bilhões (R$ 1,9 trilhão) do valor de várias outras criptomoedas, incluindo a maior delas, o bitcoin.

Pessoas em diversas partes do mundo perderam suas economias acumuladas ao longo da vida e estão clamando por ajuda.

Um homem desesperado chegou a ser preso depois de visitar a casa do empresário inacessível que estava no centro do "criptocrash". Ele disse à BBC News que sua vida estava em pedaços.

"Achei que fosse morrer", diz o streamer (de vídeos online) conhecido como Chancers. "Perdi muito dinheiro em um curto espaço de tempo. Foram cerca de US$ 2,4 milhões (R$ 11,3 milhões) em criptomoedas."

Chancers vem investindo em criptomoedas desde 2017. Ele conta que ficou rico nos últimos cinco anos, quando o valor do bitcoin e de outras moedas digitais subiu.

"Aqui na Coreia, eu estava entre o 1% das pessoas mais ricas. Mas, com a queda, agora estou com problemas", contou ele à BBC News.

Chancers investiu US$ 800 mil (R$ 3,8 milhões) do próprio bolso em um token digital chamado Terra Luna no pior momento possível.

Grande aposta

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Terra Luna chamou a atenção em dezembro de 2021, quando o valor unitário da moeda começou a subir - partindo de US$ 5 (R$ 23) até chegar ao pico de US$ 116 (R$ 548) em abril de 2022. E, como muitas outras pessoas, Chancers apostou que a moeda iria subir ainda mais.

Mas, em 9 de maio, ela subitamente desabou, perdendo 99% do seu valor em apenas 48 horas. Agora, cada moeda de Terra Luna vale menos de US$ 0,0002 (R$ 0,0009 - nove centésimos de centavo).

Vendas em pânico

Os especialistas indicam que a queda da Terra Luna começou quando sua criptomoeda irmã, TerraUSD, começou subitamente a perder valor.

TerraUSD é uma das chamadas "moedas estáveis" - um token de criptomoeda supostamente destinado a evitar grandes flutuações de valor. As empresas por trás das moedas estáveis tentam garantir que ela permaneça em paridade com ativos como o dólar norte-americano. Assim, um token equivaleria a US$ 1, por exemplo.

Mas, quando o valor da TerraUSD desabou, teve início um pânico de vendas e a Terra Luna (cujo algoritmo é conectado à TerraUSD) também caiu vertiginosamente. E o mundo das criptomoedas assistiu horrorizado à implosão, retirando bilhões de dólares de outras moedas digitais.

No centro desse caos, está Do Kwon, um homem com 30 anos de idade, notoriamente tímido ao falar com a imprensa, inventor do sistema Terra que serviu de base para as duas moedas. Milhares de pessoas o procuraram nas redes sociais, buscando respostas e um plano para resgatar a situação.

Mas, em seu desespero, Chancers decidiu ir além. Indignado com a falta de comunicação de Kwon, ele pesquisou online e encontrou o endereço da casa do criptomilionário na capital sul-coreana, Seul.

"Eu queria perguntar a ele sobre seus planos para a Luna. Sofri um prejuízo imenso e queria falar com ele diretamente", afirma Chancers.

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Do Kwon não deu entrevistas à imprensa desde o colapso das criptomoedas Terra criadas por ele

Do Kwon não deu entrevistas à imprensa desde o colapso das criptomoedas Terra criadas por ele.

Por isso, o streamer foi até a casa de Kwon e bateu à porta. E também decidiu compartilhar o potencial confronto com seus seguidores, transmitindo o evento para cerca de 100 pessoas que assistiam ao seu canal online, na plataforma coreana AfreecaTV.

'Eu me entreguei'

Ele ficou desapontado quando a esposa de Kwon atendeu e disse que o marido havia saído.

Mas o pior ainda estava por vir. A polícia foi chamada e ele foi preso. A imprensa local registrou o momento em que ele chegou à delegacia de Seongdong, em Seul, para ser interrogado.

"Eu me entreguei para a polícia duas vezes", conta Chancers. "Eu não invadi a propriedade de Do Kwon. Mas, segundo a legislação coreana, é ilegal simplesmente ir lá e tentar falar. Eu não sabia."

Chancers afirma que, muito provavelmente, terá que pagar uma multa e será fichado criminalmente, dificultando ainda mais sua vida.

"É muito difícil", afirma ele. "Perdi muito dinheiro e agora estou sendo investigado pela polícia. Antes, eu trabalhava como servidor público na Coreia - mas, se for condenado neste processo, posso não conseguir retornar ao serviço público."

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Chancers afirma que os empresários de criptomoedas não estão sendo responsabilizados pelos fracassos dos seus projetos.

"Na cultura coreana, o problema em si não é importante, mas sim o fato de que ele causou um escândalo. Tive até que me desculpar publicamente por ter agido errado. Eu não tinha ideia que seria algo tão grande. É muito triste", segundo Chancers.

Chancers lamenta por ter tentado falar diretamente com Kwon, mas afirma que os empresários de criptomoedas não estão sendo responsabilizados pelos fracassos dos seus projetos, que afetam muitas pessoas. Estima-se que cerca de 250 mil pessoas haviam investido nas moedas Terra.

Chancers acusa Kwon de manter comunicação insuficiente com o público durante e após o colapso das moedas. Ele agora as descreve como scam (fraude).

Já Kwon afirma que nem ele, nem a sua companhia, ganharam dinheiro com o colapso das moedas Terra.

'Morte das empresas'

No dia 20 de maio, a polícia sul-coreana afirmou que estava investigando a empresa de Kwon, a Terraform Labs. A imprensa local noticiou que a equipe de investigação conjunta de crimes financeiros e de valores mobiliários estava examinando a queda das moedas.

Antes de lançar as criptomoedas Terra em 2020, Kwon supostamente estava por trás de outra criptomoeda malsucedida chamada BasisCash.

Uma semana antes da queda das moedas Terra, ele declarou a um canal sobre criptomoedas no YouTube: "95% [das moedas] vão morrer - mas é sempre uma diversão assistir à morte das empresas". E, pouco antes de sua criação de US$ 60 bilhões (R$ 284 bilhões) começar a implodir, ele postou para seus cerca de um milhão de seguidores no Twitter: "eu adoro o caos".

Nos três dias que se seguiram, em uma enxurrada de tuítes, ele lançou sucessivos planos de resgate das moedas, convocando a comunidade Terra a "ter paciência" e "permanecer forte".

Mas, em 13 de maio, ele reconheceu no Twitter que o resgate havia falhado: "Estou desolado com a dor que a minha invenção trouxe para todos vocês".

Agora, Kwon idealizou um plano controverso para fazer ressurgir a moeda Terra Luna, mas figuras importantes da comunidade de criptomoedas criticaram sua estratégia.

Changpeng Zhao, executivo-chefe da companhia de criptomoedas Binance, descreveu o plano de Kwon como "pensamento positivo". Já Billy Markus, um dos fundadores da popular criptomoeda Dogecoin, também ironizou. No Twitter, ele disse: "Minha recomendação é parar de tentar trazer novas vítimas para pagar pelas anteriores e sair do ar para sempre".

Do Kwon e a empresa Terraform Labs não responderam aos pedidos de comentários feitos pela BBC.

* Com reportagem adicional da BBC News Coreia.

* Este texto foi originalmente publicado na BBC News Brasil.


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