Pedofilia na Igreja Católica

196 padres na Alemanha abusaram sexualmente de 610 crianças, revela dossiê

As conclusões fazem parte de um relatório independente, elaborarado por cinco especialistas da Universidade de Münster e divulgado na segunda-feira (13/6)

Rodrigo Craveiro
postado em 14/06/2022 06:00
 (crédito: FRED SCHEIBER)
(crédito: FRED SCHEIBER)

Durante sete décadas e meia, pelo menos 196 padres abusaram sexualmente de 610 crianças da diocese de Münster, a 470km a oeste de Berlim. No entanto, o número real de vítimas pode chegar a 6 mil. As conclusões fazem parte de um relatório independente, elaborarado por cinco especialistas da Universidade de Münster e divulgado na segunda-feira (13/6). Os peritos avaliaram as denúncias de pedofilia entre 1945 e 2020. O número de clérigos identificados como abusadores representa 4% do total da diocese — 90% deles jamais foram processados. 

Em entrevista ao Correio, Mike McDonnell — gerente de comunicação da Rede de Sobreviventes de Abusos Praticados por Padres (SNAP) e violentado pelos padres John P. Schmeer e Francis X. Trauger, dos 11 aos 13 anos, na Filadélfia — disse ter a certeza de muitas vítimas escolheram não participar do estudo para proteger o anonimato. "Com base nas investigações feitas no Reino Unido, na França e nos EUA, o número de vítimas em Münster é extremamente baixo. Se a média de idade para a revelação de abuso por uma vítima é de 52 anos, isso ssignifica que não escutamos nenhuma vítima dos anos 1990 até o dias atuais", alertou. 

McDonnell demonstra ceticismo em relação aos desdobramentos legais após a divulgação do relatório. "Não estou confiante sobre nenhuma ação criminal. Tenho certeza de que autoridades eclesiásticas suspenderão e removerão alguns padres, se eles ainda estão em atividade no ministério, apenas para retratar o bispo como alguém 'durão' no que diz respeito aos abusos", acrescentou. 

Ainda segundo o dossiê, em média, dois atos de pedofilia ocorreram a cada semana na diocese de Münster, entre 1960 e 1970. Historiador da Universidade de Münster e um dos autores do relatório, Klauss Grosse Kracht admitiu que o documento "reflete um espantoso histórico". Durante entrevista coletiva, ele explicou que os abusadores "se calaram, guardaram silêncio e somente intervieram superficialmente quando foi necessário, a fim de evitar um escândalo". Para Kracht, a Igreja Católica se engajou no encobrimento sistemático dos abusos.

Por sua vez, a também autora do relatório Natalie Powroznik considera que o número real de vítimas deve ser de oito a dez vezes maior. "Entre 5 mil e 6 mil meninos e meninas sofreram abusos sexuais", estimou, de acordo com a agência de notícias France-Presse. O escândalo da pedofilia dentro da Igreja Católica alemã se estende a outras regiões e implica gravemente o papa emérito Bento XVI, no período em que atuou como arcebispo da Baviera, entre 1950 e 1977.

Pelo menos 497 pessoas, em sua maioria crianças e adolescenntes, foram vítimas de abusos sexuais na arquidiocese de Munique-Freising, de 1945 a 2019. Um relatório produzido por um escritório de advocia acusou Joseph Ratzinger de inação. 

Com dor, papa cancela missa de Corpus Christi

 (crédito: Filippo Montenforte/AFP)
crédito: Filippo Montenforte/AFP

As fortes dores no joelho levaram o papa Francisco a não realizar, na próxima quinta-feira, a missa de Corpus Christi e a procissão com a hóstia — uma das festas mais importantes do calendário do catolicismo, com origem no século 13. De acordo com a sala de imprensa do Vaticano, a decisão foi tomada "devido às limitações impostas ao papa pela gonialgia (dor no joelho) e pelas necessidades litúrgicas específicas da celebração". No último dia 10, Francisco também havia cancelado a visita ao Sudão do Sul e à República Democrática do Congo, que ocorreria entre 2 e 7 de julho. "Queridos irmãos, com grande pesar, devido a problemas com minha perna, tive que adiar minha visita a seus países, prevista para os primeiros dias de julho", declarou o pontífice de 85 anos após a oração do Angelus na Praça de São Pedro, no domingo. "Rezemos juntos para que, com a ajuda de Deus e os cuidados médicos, possa estar entre vocês o mais rápido possível", acrescentou. Os problemas de saúde de Francisco alimentaram boatos sobre possível renúncia. 

Eu acho...

 (crédito: Arquivo pessoal)
crédito: Arquivo pessoal

"O acobertamento de padres pedófilos é um padrão em âmbito global. As autoridades eclesiásticas protegem uns aos outros, incluindo antecessores, mortos ou vivos. Elas vivem em uma espécie de câmara de eco e ignoram qualquer um que não esteja usando a clérgima (colarinho branco da batina). A irmandade protege a si mesma."

Mike McDonnell, gerente de comunicação da Rede de Sobreviventes de Abusos Praticados por Padres (SNAP)

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