Eleições

'A mudança venceu o medo': 3 fatores que explicam a contundente vitória de Milei nas urnas da Argentina

A rápida ascensão do economista libertário ao topo do poder na Argentina se deve tanto às suas próprias características como à situação do país, segundo analistas.

Javier Milei com sua companheira de chapa, Victoria Villaruel, após receber a notícia da vitória no domingo (19/11) -  (crédito:  Marcos Brindicci/Getty Images)
Javier Milei com sua companheira de chapa, Victoria Villaruel, após receber a notícia da vitória no domingo (19/11) - (crédito: Marcos Brindicci/Getty Images)
BBC
Gerardo Lissardy - BBC News Mundo
postado em 20/11/2023 08:44 / atualizado em 20/11/2023 08:44

Em apenas alguns anos, Javier Milei deixou de ser um economista que atraiu a atenção em programas de TV com suas ideias libertárias para se tornar o novo presidente eleito da Argentina.

O próprio Milei definiu sua ampla vitória no segundo turno presidencial no domingo (19/11) como um “milagre”, com 55,7% dos votos contra 44,3% do partido governista representado por Sergio Massa, com 99% da contagem concluída.

“Obrigado à equipe que trabalha há dois anos para transformar a Argentina e realizar o milagre de ter um presidente liberal-libertário”, disse Milei no discurso após a vitória.

Sem ter experiência governamental, o presidente eleito sagrou-se vencedor como líder de um novo partido chamado La Libertad Avanza, que inclui vários "forasteiros" — como ele próprio diz — e prevaleceu sobre a força que dominou a política argentina durante décadas: o peronismo.

Como Milei conseguiu essa ascensão vertiginosa ao topo do poder em seu país? Existem pelo menos três fatores que explicam esse sucesso.

1. A crise econômica

A Argentina atravessa uma grave situação econômica e social. Duas em cada cinco pessoas vivem na pobreza e a taxa de inflação anual atingiu 143% em outubro.

O analista político argentino Rosendo Fraga aponta que esta é a terceira grande crise do tipo que o país vive desde que restaurou a democracia há 40 anos, depois da hiperinflação que antecipou o fim do governo de Raúl Alfonsín em 1989 e da crise social que provocou a queda do presidente Fernando de la Rúa em 2001.

“Milei surge como uma alternativa onde os aspectos econômicos e sociais são ainda piores do que nas duas oportunidades anteriores”, disse Fraga à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC para a América Latina.

A importância desta crise nas eleições aumentou desde que Massa foi nomeado como candidato oficial enquanto era o Ministro da Economia do país.

Mesmo assim, Massa surpreendeu ao ser o candidato mais votado no primeiro turno, realizado em outubro.

Mas, durante a campanha para o segundo turno, foi impossível para Massa esconder os desequilíbrios enfrentados pela Argentina, que incluíram alguns dias de escassez de combustível — Milei aproveitou o fato para afirmar que este era um “cartão postal do futuro” se o peronismo permanecesse no poder.

Neste contexto, a maioria dos eleitores inclinou-se para a mudança drástica proposta pelo libertário, que inclui dolarizar a economia, fechar o Banco Central e cortar os gastos públicos em 15% do PIB.

2. O discurso de ruptura

Além das promessas de liberalização econômica, Milei utilizou um discurso anti-establishment, com duras críticas ao que chama de “casta política”.

“Desde seu surgimento na esfera pública, quando foi eleito deputado, Milei conseguiu se diferenciar com uma narrativa política muito diferente, de confronto do sistema”, analisa o cientista político argentino Sergio Berensztein.

“São os famosos candidatos antiestablishment que temos visto em diferentes partes do mundo: os mais conhecidos são obviamente Donald Trump (nos Estados Unidos), ou Jair Bolsonaro (no Brasil)”, acrescenta.

“Milei pode juntar-se a esse movimento global, onde há uma reação à ordem estabelecida.”

Esse discurso de ruptura permitiu ao presidente eleito argentino atrair eleitores cansados do atual governo e da classe política, apesar da incerteza e do medo que as propostas de Milei causam em muitos outros.

Milei empolgou especialmente os jovens, que foram um pilar fundamental de sua vitória.

Diferentes pesquisas durante a campanha mostraram que, quanto menor a idade dos eleitores entrevistados, mais crescia o apoio a Milei.

3. O apoio da centro-direita antiperonista

Durante décadas, a divisão básica da política argentina foi entre peronistas e antiperonistas. E Milei baseou sua vitória no segundo grupo.

Para isso, foi importante o apoio que recebeu no segundo turno de dois líderes da coalizão de centro-direita Juntos pela Mudança: o ex-presidente Mauricio Macri e a ex-candidata presidencial Patricia Bullrich, que ficou em terceiro lugar no primeiro turno disputado em outubro.

Na verdade, os 14,5 milhões de votos que Milei recebeu no domingo (19/11) representam um aumento de cerca de 6,4 milhões de votos em relação ao número que ele obteve nas eleições gerais, com um nível de participação eleitoral semelhante.

O libertário também venceu em 21 dos 24 distritos eleitorais — ele ganhou em 20 províncias e na Cidade Autônoma de Buenos Aires —, enquanto o peronismo manteve a província de Buenos Aires como um bastião.

Com o endosso que Macri e Bullrich deram a Milei logo após o fim do primeiro turno, ele atenuou as críticas à “casta política” em geral e concentrou-se em difamar o Kirchnerismo.

Este setor do peronismo, liderado pela atual vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner, que governou o país entre 2007 e 2015, esteve envolvido em vários escândalos — que incluem uma condenação por corrupção contra ela própria em dezembro de 2022.

Na busca por votos de centro-direita e de antiperonistas para o segundo turno, Milei também reduziu o uso de uma serra elétrica, que ele costumava brandir como símbolo de seus planos drásticos de cortes.

Nos debates que teve com Massa durante o segundo turno, Milei usou um tom mais comedido do que em outros momentos da campanha, a tal ponto que muitos se perguntaram por que ele evitou atacar o rival de forma mais dura.

“O que ele tentou foi não parecer emocionalmente instável. E ele conseguiu”, explica Berensztein.

“Moderação tem a ver com uma lógica de segundo turno”, acrescenta ele.

“Porém, uma vez eleito o presidente, a agenda dele não tem nada a ver com moderação.”

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