SOCIEDADE

Música, dança e poesia transformam a vida de idosos, muitos em estado de abandono

Formada em artes cênicas pela UnB, a professora Selma Trindade apresenta trabalho desenvolvido com pessoas mais velhas em Portugal e na França. Resultados da arteterapia são surpreendentes

Professora Selma Trindade, formada pela UnB, durante performance no UPTEC, o Parque de Ciências  e Tecnologia  da Universidade  de Porto, em Portugal -  (crédito: Imagem cedida ao Correio )
Professora Selma Trindade, formada pela UnB, durante performance no UPTEC, o Parque de Ciências e Tecnologia da Universidade de Porto, em Portugal - (crédito: Imagem cedida ao Correio )
Vicente Nunes - Correspondente
postado em 11/12/2023 18:49 / atualizado em 15/12/2023 14:01

Lisboa — O Brasil vive um rápido processo de envelhecimento. O Censo de 2022 mostrou que as pessoas com mais de 65 anos já representam 10,9% da população — 22,1 milhões de cidadãos. Boa parte desses brasileiros, no entanto, têm chegado à velhice em situação nada confortável, muitos com doenças degenerativas e, pior, isolados na própria casa ou em asilos. Desde que começou a se dedicar a esse público há cerca de 13 anos, em especial, aquele com mais de 80 anos, a professora Selma Trindade, graduada em artes cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), percebeu que é possível mudar a realidade de muita gente usando uma arma poderosa: o corpo.

A terapia desenvolvida pela professora, que também é atriz e bailarina, está apresentando resultados tão promissores, que ela foi convidada para falar de sua técnica a um público especializado em Lisboa e no Porto, em Portugal, e em Grenoble, na França. “Nosso trabalho procura despertar a consciência corporal, com criatividade, para que o corpo possa interferir no processo de autocuidado e favorecer a saúde mental”, explica. A arteterapia usa a dança, o teatro, a poesia e a contação de histórias para que os idosos se sintam protagonistas em um processo de inteiração, de socialização e de autoconhecimento.

“No caso dos maiores de 80 anos, que vivem em residências de longa permanência, o simples fato de levar uma performance que eles não têm o costume de ver já provoca um olhar no presente. É o reconhecimento de sua própria presença. É o reconhecimento da pessoa, independentemente do estado em que está, de fato, vivendo aquele momento”, detalha. Segundo ela, as respostas variam de idoso para idoso. “Há pessoas que estão em um estado mais consciente, outras, não. Mas a realidade é que a percepção motora sensorial ativa com a nossa presença. E o relacionamento muda muito, sobretudo, porque, muitas vezes, essas pessoas estão isoladas, não têm com quem compartilhar nada”, acrescenta.

Para desenvolver seu trabalho, por meio da performance Quatro elementos, mas cinco sentidos, Selma se inspirou na obra O trovão e o vento, do escritor e psicoterapeuta Kaká Werá, originário do povo Tapuia. O personagem central, o menino trovão, se transforma em várias coisas até virar gente. “Uso esse personagem para falar do poder da transformação. Na performance, provoco as pessoas a se permitirem a se movimentar ante as dificuldades. Isso é vital para os mais velhos, que vão perdendo alguns dos sentidos, o tato, a visão, o olfato, a audição, o paladar. Temos de lembrar que é a percepção tátil que nos dá todo o reconhecimento do mundo desde criança. Por isso, estimulamos os toques no corpo”, afirma.

Professora Selma Trindade, de Brasília, no Residencial Les Solambres, na França. A instituição é especializada no cuidado a idosos.
Professora Selma Trindade, de Brasília, no Residencial Les Solambres, na França. A instituição é especializada no cuidado a idosos. (foto: Arquivo pessoal )

Troca de experiências

Com bases nos resultados colhidos até agora durante a apresentação aos idosos, a professora vai desenvolver uma pesquisa para que possa ampliar o alcance de arteterapia. “Durante a performance, que tem dança, música, percussão corporal, convido a pequenos gestos, que já fazem as pessoas perceberem que conseguem se tocar. Mesmo quem está em estado mais grave consegue alcançar uma canção, uma poesia”, diz a professora. Ela reconhece, porém, que o Brasil ainda está aprendendo a lidar com o envelhecimento da população. Por isso, é importante que técnicas como a desenvolvida por ela e outros profissionais da saúde possam se tornar mais presentes no dia a dia dos idosos.

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem apontando que é preciso olhar para a saúde dos mais velhos, desenvolver programas de assistência às casas que abrigam essas pessoas”, ressalta Selma. Em Portugal, complementa, esse olhar já é mais amplo, até porque quase 30% da população tem mais de 65 anos. E esse percentual só vai aumentar nas próximas décadas. Não à toa, o país criou, em 2005, a Rutis, a Rede de Universidades Seniores, que tem por objetivo a promoção do envelhecimento ativo. Além de cursos profissionalizantes, as universidades funcionam como centros de socialização e cultural e tem até Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) — são 305, atualmente. Mais de 45 mil pessoas estão inscritas neste momento e 5 mil professores atuam de forma voluntária.

Não há nada no Brasil semelhante à Rutis, mas, no Distrito Federal, a UnB deu um passo relevante ao criar, em parceria com a Universidade Federal de Tocantins, a Universidade do Envelhecer (UniSER). O embrião surgiu em 2015 com o projeto da Universidade da Maturidade e uma turma pioneira na Ceilândia. “Esse é um exemplo que pode ser seguido pelo Brasil. O encontro de idosos com mais frequência e em mais localidades gera muita qualidade de vida”, assegura Selma. Para ela, Portugal já compreendeu a importância de dar melhores condições de vida aos mais velhos. “Além disso, é preciso formar profissionais para atender esse público”, aconselha.

A atriz e bailarina, que elegeu os mais velhos como prioridade, acredita que a performance apresentada no 24º Congresso Português de Arteterapia, em Lisboa, e no Parque da Ciência e da Tecnologia da Universidade do Porto — além da imersão na Residence Mutualiste les Solambres, na França — pode atingir um público intergeracional, com troca de experiências entre todas as idades. Ela também vê possibilidade de a performance se transformar em uma peça teatral, tal a força do tema tratado. “Tenho vivido experiências que me tocam profundamente. Trabalhava com idosos ativos, mas, no último ano, fui para o quadro mais crítico, e, para minha surpresa, tem havido progressos. Isso precisa ser compartilhado”, conclui.

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