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Quais cenários governo Lula prevê para Venezuela após Maduro ser capturado em ataque de Trump?

Escalada entre Estados Unidos e Venezuela reacende temores no Planalto de crise humanitária na fronteira, colapso político em Caracas e aumento do risco de instabilidade regional

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e captura do líder venezuelano, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, representam o auge até agora da escalada de tensão entre Washington e Caracas e aprofundam preocupações que já vinham sendo expressas, nos bastidores, por integrantes do governo brasileiro.

Antes mesmo do episódio mais recente, fontes do Palácio do Planalto ouvidas pela BBC News Brasil alertavam para o risco de que as ameaças e ações militares dos Estados Unidos contra a Venezuela levassem a um colapso político e social no país vizinho.

A avaliação interna é de que os impactos de uma ofensiva desse tipo não ficariam restritos ao território venezuelano, mas teriam efeitos diretos sobre o Brasil e sobre a estabilidade regional.

Há pelo menos duas semanas, o governo brasileiro via o então governo da Venezuela liderado por Nicolás Maduro como "isolado" e não acreditava que China ou Rússia poderiam intervir efetivamente em caso de uma ação militar americana em território venezuelano.

Interlocutores do presidente Lula disseram à BBC News Brasil não crer que os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, teriam disposição para um embate militar com os Estados Unidos para defender a Venezuela de uma intervenção militar.

Na avaliação de um interlocutor do presidente Lula, China e Rússia estariam mais interessadas, neste momento, nas suas próprias questões regionais como a guerra na Ucrânia, no caso russo, e a reivindicação histórica do governo chinês pelo território de Taiwan.

De acordo com membros do governo, a avaliação era de que China e Rússia poderiam condenar publicamente os ataques à Venezuela, mas não empregariam tropas regulares ou irregulares para defender o regime venezuelano.

Segundo essas fontes, ao menos três cenários vinham sendo analisados pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em um contexto de pressão crescente exercida pelos Estados Unidos, que inclui sanções, bloqueios econômicos e o reforço da presença militar na região.

1. Crise humanitária e pressão na fronteira brasileira

O principal temor do governo brasileiro é que uma ação militar direta ou a queda abrupta de Maduro provoque uma deterioração ainda maior das condições de vida na Venezuela, levando a um deslocamento em massa da população. A preocupação se concentra sobretudo na fronteira com Roraima, principal porta de entrada de venezuelanos no Brasil.

Desde 2018, quando a crise social e econômica no país vizinho se agravou, o Brasil estruturou a Operação Acolhida para receber migrantes e refugiados venezuelanos. Mais de 125 mil pessoas já passaram pela iniciativa, que envolve acolhimento, regularização documental e interiorização para outros Estados. Interlocutores do Planalto avaliam que um novo fluxo migratório, em escala maior e mais rápida, poderia colocar em colapso as estruturas existentes e gerar tensões sociais e políticas no Norte do país.

Para o governo Lula, o risco não é apenas humanitário, mas também de segurança e de governabilidade local, caso municípios e Estados não consigam absorver um aumento repentino da demanda por serviços públicos.

2. Caos interno e vácuo de poder na Venezuela

Uma fonte do Planalto disse temer que a remoção de Maduro gere um "vácuo de poder" perigoso no país uma vez que, segundo esta fonte, o governo brasileiro receia que a principal líder da oposição, Maria Corina Machado, não teria força política para liderar a Venezuela neste momento.

Por isso, outro cenário considerado crítico é o de um colapso institucional na Venezuela após uma eventual queda repentina de Maduro. Segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil, há no governo brasileiro a avaliação de que não está claro quais forças políticas ou militares teriam capacidade de assumir o controle do país no curto prazo.Há receio de que ocorram disputas internas dentro das Forças Armadas do país ou entre milícias.

Esse cenário é frequentemente comparado, nos bastidores, aos desdobramentos observados no Iraque e na Líbia após a derrubada de Saddam Hussein e Muamar Khadafi. Em ambos os casos, ações militares lideradas ou apoiadas pelos Estados Unidos foram seguidas por longos períodos de instabilidade, guerras civis e fragmentação do Estado.

Para integrantes do governo Lula, poderia haver também na Venezuela disputas internas prolongadas, enfraquecimento das instituições e até à atuação de grupos armados, com consequências imprevisíveis para a região amazônica e para os países vizinhos.

3. Escalada militar, bloqueio econômico e risco regional

Fontes do governo brasileiro avaliam que o temor de um colapso social generalizado ajuda a explicar por que, até recentemente, os Estados Unidos vinham priorizando uma estratégia de sufocamento econômico da Venezuela. Essa abordagem inclui sanções, bloqueios a navios petroleiros e ações para dificultar a exportação de petróleo, principal fonte de renda do país.

Nos últimos meses, no entanto, a presença militar americana no Caribe se intensificou. Autoridades dos EUA confirmaram o envio de forças navais e aéreas, incluindo porta-aviões, navios do tipo destroyer, embarcações anfíbias e aeronaves de reconhecimento. Ataques a embarcações na costa venezuelana, sob o argumento de combate ao tráfico de drogas, deixaram ao menos 80 mortos, segundo estimativas citadas por autoridades.

Imagens de satélite identificaram diversos navios militares na região, incluindo o porta-aviões USS Gerald R. Ford, o maior da Marinha americana, operando a poucas centenas de quilômetros da costa venezuelana. Para o governo brasileiro, esse aumento da presença militar eleva o risco de um confronto direto e dificulta qualquer saída negociada no curto prazo.

A preocupação com os efeitos dessa escalada levou Lula a tratar do tema diretamente com Trump em conversas telefônicas recentes. Em declarações públicas, o presidente brasileiro afirmou ter tentado sensibilizar o líder americano sobre os impactos humanitários e regionais de uma intervenção militar, defendendo que o diálogo poderia ser mais eficaz do que o uso da força.

Paralelamente, Lula também manteve uma conversa telefônica com Maduro, no primeiro contato direto entre os dois desde as eleições presidenciais venezuelanas de 2024, cujo resultado o Brasil não reconheceu.

Segundo pessoas com conhecimento do teor da conversa, o governo brasileiro não se ofereceu formalmente para mediar a crise nem discutiu a possibilidade de asilo político para Maduro, mas a avaliação no Planalto é de que o Brasil estaria em posição favorável para atuar como interlocutor, por manter canais abertos tanto com Caracas quanto com Washington.

Neste sábado, após o ataque, Lula repudiou a ação americana e manifestou preocupação com os efeitos que poderá ter.

"Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional", postou na rede social X, às 9h59 deste sábado.

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