Três perguntas para Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas no Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC) e doutorando em relações internacionais na UnB
Ao justificar uma possível missão por terra no México para combater cartéis, Trump repete o roteiro do que aconteceu na Venezuela?
Quando a gente olha com um pouco mais de distância, dá para identificar um padrão no comportamento recente de Donald Trump. O que está acontecendo agora não começou com a Venezuela. Há uma linha de continuidade desde 2025, quando o governo passou a tratar o narcotráfico e grupos transnacionais como ameaças diretas à segurança dos Estados Unidos, ampliando operações navais e adotando uma retórica cada vez mais dura no hemisfério ocidental. A ação na Venezuela aparece como mais uma etapa desse movimento, sempre justificada pela ideia de combater o chamado narcoterrorismo e proteger a segurança interna americana. É dentro dessa lógica que surgem agora as falas sobre possíveis ataques em terra contra cartéis no México.
Há chances reais de o México ser atacado?
Trump chegou a mencionar explicitamente essa hipótese, associando o tráfico de drogas às mortes por overdose nos Estados Unidos. Ainda assim, as análises mais sérias têm tratado essas declarações como parte de uma estratégia retórica, e não como um plano operacional pronto. Até o momento, não há detalhes técnicos, autorização do Congresso ou qualquer acordo com o país afetado, que são pré-requisitos básicos para uma ação militar externa de fato acontecer. Entre esse tipo de retórica e uma intervenção militar real existe uma distância grande, marcada por custos políticos, jurídicos e diplomáticos que dificilmente seriam ignorados. O cenário mais plausível, ao menos por hora, é o de pressão e barganha, não o de um ataque iminente.
Como o senhor avalia a reação do México?
Do lado mexicano, a reação foi imediata e firme. O governo deixou claro que não aceita, sob nenhuma hipótese, intervenção militar estrangeira em seu território. A presidente Claudia Sheinbaum reforçou princípios históricos da política externa do país, como soberania e não interferência, e destacou que a cooperação em segurança existe, mas não passa por militarização unilateral. É importante lembrar que o nível de integração econômica e diplomática entre México e Estados Unidos torna esse tipo de invasão direta algo extremamente complexo e com riscos políticos exponenciais. (PO)
