VENEZUELA

Após invasão, incerteza toma conta da capital da Venezuela

Moradores de Caracas e de outras regiões experimentam tensão, alegria e temor ante a presença de forças do regime, que mantém os principais nomes no poder após a captura de Nicolás Maduro. Perseguição e custo de vida alto dificultam a vida da população

Quando a notícia da captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, se espalhou pelo país, na madrugada de 3 de janeiro, muitos venezuelanos acreditavam que aquele era o anúncio do fim de um regime opressor. Depois de 26 anos de governos controlados a mão-de-ferro, por Hugo Chávez e depois por Maduro, seu afilhado político, o amanhecer do primeiro sábado de 2026 trouxe esperança. Mas ela veio acompanhada do medo. Apesar da prisão do ditador por forças especiais dos Estados Unidos e por policiais da DEA, a agência antidrogas da Casa Branca, o regime não entrou em colapso: a vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu o controle interino do Palácio de Miraflores e aliados-chave de Maduro, como os ministros Diosdado Cabello (Interior) e Vladimir Padrino López (Defesa), mantêm os postos. Nas ruas de Caracas e de outras cidades, os 'colectivos' (milícias armadas leais ao chavismo) semeiam o terror e ampliam a sensação de insegurança.

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Moradora da capital, a professora A.P. (ela prefere não ter o nome revelado), 65 anos, contou ao Correio que ainda há muita perseguição política na Venezuela. "Em alguns bairros de Caracas, especialmente na área de onde Maduro foi levado, sei de pessoas que foram detidas. Os 'colectivos' costumam capturar os mais jovens. Quando não encontram alguém importante, agarram qualquer pessoa e lhe desgraçam a vida. Por isso, temos muito cuidado ao falar com jornalistas", explicou. Assim que percebeu a dimensão do que ocorria, em 3 de janeiro, ela sentiu angústia. "Temos sofrido tanto ao longo desses anos, com ataques às residências e sequestros de cidadãos sem que houvesse justificativa, que houve muita euforia no momento da captura de Maduro e da companheira, que é "exatamente igual a ele", observou. "Muita gente segue presa apenas por defender seu ponto de vista, gente que não fazia parte da política. Logo vimos que o grupo de Maduro permaneceria no comando."

De acordo com A.P., tudo na Venezuela continua igual. "Os paramilitares e os 'colectivos' ainda atuam em zonas do país e em Caracas. Eles param as pessoas nas ruas e revistam os celulares. Quando acham algo que consideram contra o governo, as levam presas. Também espalham armas entre a população", denunciou. Ela vê um momento de incerteza. "Na Venezuela, cinco grupos repartiam o poder e os lucros do narcotráfico e do ouro. A população, no geral, vive muito mal. Temos poucos recursos, pois tudo está dolarizado e eles nos pagam em bolívares. No momento, o acesso a materiais básicos é cada vez mais difícil", desabafou. Com um salário de US$ 20 (cerca de R$ 107), a professora foi ao mercado recentemente e viu-se obrigada a pagar o equivalente a US$ 119 por queijo, ovos, material de limpeza, farinha, açúcar, sal, frutas e hortaliças. "A situação é terrível", comentou.

Frustração

Doutor em ciências da educação e pós-doutor em ciências econômicas e sociais, José Pérez Veloz, 76, vive em San Carlos, capital do estado de Cojedes (noroeste). Ele destacou que os venezuelanos desenvolveram a resiliência para assimilar as situações impostas pelo regime e pela vida. "Depois de 3 de janeiro, a coletividade e a vida cotidiana têm se desempenhado com toda a normalidade. Há muito silêncio e cautela. Mais do que medo, vejo precaução. As pessoas evitam sair às ruas e, no fundo, têm confiança de que a mudança começou. Houve uma certa frustração, pois esperávamos que Edmundo González Urrutia e María Corina Machado assumissem o governo. Acreditávamos que essa mudança seria muito imediata", afirmou ao Correio.

Veloz concorda com A.P. em relação à situação humanitária. O cientista social e econômico admite haver alimentos nas prateleiras dos mercados, mas cita a desvalorização do bolívar e a inflação como principais entraves. "Desde 3 de janeiro, o dólar disparou e chegou a valer 900 bolívares. O poder de compra é praticamente inexistente. Boa parte da população depende de um bônus, que chega a 15 bolívares", comentou.

Aos 56 anos, uma moradora de Caracas que prefere se identificar pela inicial C. considera que "duas Venezuelas" convivem lado a lado. "Aspiro a uma transição democrática. A única coisa que mudou no país foi a fé dos venezuelanos por uma mudança. Esperamos que ela se manifeste em melhorias na economia, na saúde e na educação", disse à reportagem. No bairro onde vive, de classe média alta, os supermercados não enfrentam escassez e os 'colectivos' armados não costumam patrulhar as ruas. "Caracas é uma cidade na qual as diferentes classes sociais não se relacionam de nenhuma forma. Não frequentam os mesmos mercados, colégios ou áreas de recreação. Há uma Venezuela de muitas necessidades e outra que tem uma realidade completamente diferente."

Incerteza

Mãe, política e trabalhadora de 42 anos, Paz (ela também não quis ter o nome completo divulgado) vive no estado de Trujillo (noroeste) e reconhece uma nova etapa na história do país, marcada pela tensão e pela incerteza. "O ambiente é de silêncio e temor. Em uma nação onde o exercício da liberdade de expressão foi severamente limitado, muitos funcionários públicos e cidadãos sentem-se pressionados a expressar apoio ao regime ou a enfrentar graves consequências, como a perseguição e a estigmatização", relatou. Ela assinalou que os venezuelanos que se atrevem a questionar a narrativa oficial são rotulados de traidores. "Nas principais avenidas e rodovias do país, as autoridades intensificaram os controles e as revistas de carros, exigindo que os motoristas entreguem os celulares. Essas operações de segurança buscam restringir a circulação de informação sobre o que realmente ocorre nas áreas afetadas pelos bombardeios dos EUA. A detenção de jornalistas que tentam exercer o direito de informar é mais uma amostra da repressão sistemática do regime."servou.

Mais de 7,9 milhões de venezuelanos seguem fora do exílio e mantêm a esperança do retorno breve ao país. "Na Venezuela, não houve mudança de regime. Não há transição", disse à agência France-Presse Ligia Bolívar, socióloga e defensora de direitos humanos que vive na Colômbia desde 2019. "Ninguém, nessa circunstância, vai sair correndo para a Venezuela." Instalador de janelas de 46 anos, Edwin Reyes deixou a Venezuela em 2018 e hoje também vive na Colômbia. O sonho de voltar à terra natal persiste, mas ele promete torná-lo realidade apenas quando a Venezuela estiver "completamente livre".

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Como o senhor vê a estimativa de Trump de que a intervenção dos EUA sobre a Venezuela durará anos?

Acredito que uma intervenção exigiria a presença de tropas norte-americanas. O que houve foi uma extração do criminoso Nicolás Maduro, investigado por crimes de lesa humanidade, narcotráfico e outros delitos perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Tribunal Penal Internacional e o governo dos Estados Unidos. Trump atua para retirar os criminosos que, lamentavelmente, destruíram nossa nação. Aqueles que se levantarem em armas, buscando proteger Maduro e seus aliados, terão que enfrentar a Justiça.

O senhor concorda com o controle do petróleo pelos EUA?

Isso me parece perfeito, me parece algo bom. A indústria petroleira venezuelana tem se destinado a encher os bolsos daqueles que governam o país de maneira ilegal e corrupta e de seus aliados, como Colômbia e Brasil.

Que sensações o senhor tem experimentado desde o 3 de janeiro?

Eu diria que uma calma e uma alegria terna, porém, silenciosa, desde a captura de Nicolás Maduro e de Cilia Flores. Mas é preciso confirmar a prisão de seus aliados, como Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional), Diosdado Cabello (ministro do Interior) e Padrino López (ministro da Defesa). Eles seguem no poder e emitiram um decreto para levar à prisão venezuelanos que publicarem mensagens de apoio aos Estados Unidos. Existe uma tensão, um silêncio. Os 'colectivos' armados e a polícia andam pelas ruas das cidades para perseguir as pessoas e monitorar seus celulares. (RC)