MEIO AMBIENTE

O cientista que trocou a USP pela Amazônia para criar fazendas de gado que ajudam a reduzir desmatamento

No início dos anos 2000, o veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca se mudou com a família para uma pequena cidade no Mato Grosso — estar longe do seu tema de estudo não fazia sentido, ele conta. Hoje, mesmo de volta a São Paulo, as viagens para a Amazônia e os experimentos com métodos mais sustentáveis seguem como parte da rotina.

A estabilidade de um trabalho concursado e o prestígio de uma carreira acadêmica consolidada e internacional não foram suficientes para manter o veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca no cargo de professor e pesquisador na Universidade de São Paulo (USP).

A distância entre a teoria científica e a realidade do desmatamento da Amazônia era tão incômoda que ele decidiu, em 2002, pedir demissão do cargo.

Fonseca tinha 35 anos quando se mudou com a esposa e um filho de apenas seis meses para Alta Floresta, uma pequena cidade no interior do Mato Grosso, na linha de frente do desmatamento.

Hoje com 58 anos e de volta a São Paulo (SP), Fonseca lembra daquele momento como uma "guinada radical" em sua vida.

"Minha leitura era de que precisaríamos desenvolver negócios que estivessem associados à conservação florestal. Se não conseguíssemos gerar bons negócios que valorizassem a floresta em pé, seria difícil reduzir drasticamente o desmatamento", lembra Fonseca.

A imersão na Amazônia durou seis anos, período em que seu segundo filho nasceu e em que ele trabalhou diretamente com comunidades na extração da castanha-do-pará na sua primeira empresa na região, a Ouro Verde.

Arquivo pessoal
Com o projeto Ouro Verde, veterinário trabalhou com comunidades da terra indígena Rikbaktsa

Embora o negócio da castanha tenha dado certo, Fonseca percebeu que o efeito, em escala macro, ainda era pequeno diante da magnitude da destruição florestal.

Então, ele fundou a Kaeté Investimentos, uma gestora focada em mobilizar fundos para negócios de impacto na região amazônica.

Em 2019, criou a Caaporã, uma holding (empresa que controla a participação em várias companhias) que hoje administra 20 mil hectares em seis fazendas no Mato Grosso, Tocantins e Bahia.

Fonseca retornou à capital paulista para ser coordenador do Programa de Agricultura e Meio Ambiente da ONG WWF-Brasil e hoje trabalha viajando entre o escritório da sua holding em Piracicaba (SP) e as fazendas que administra.

Nascido em São Borja (RS), o veterinário tem doutorado em Reprodução Animal e pós-doutorado pela University of Kentucky (EUA)

Com a Caaporã, ele tem experimentado formas de tornar a produção de carne bovina mais sustentável.

Desafiando a pecuária extensiva

Divulgação
Uma das fazendas de Fonseca antes e durante o trabalho de recuperação

Seu método começa com a recuperação de pastagens degradadas, áreas que já foram desmatadas e perderam sua fertilidade.

Nessas pastagens, o capim é pobre em nutrientes. Assim, o gado demora mais para engordar, permanecendo no pasto por cerca de quatro anos antes do abate.

Com a recuperação do solo preconizada por Fonseca, árvores são plantadas e o capim é misturado com leguminosas, como o amendoim forrageiro.

Essas plantas têm a capacidade natural de fixar nitrogênio da atmosfera na terra. Isso reduz a dependência de fertilizantes químicos nitrogenados (como a ureia), cuja produção e aplicação também emitem gases de efeito estufa.

Além de reduzir a dependência do Brasil de ureia da Rússia, o pasto adubado é uma alternativa mais saudável e sustenta mais gado por metro quadrado.

Com o plantio de árvores, a sombra destas reduz o estresse térmico do gado no calor tropical, o que também contribui para que o animal ganhe peso mais rápido — diferente do gado exposto ao sol escaldante.

O grupo utiliza espécies de árvores exóticas, como o eucalipto; e nativas, como o paricá, madeira amazônica destinada à indústria de móveis.

Com as melhoras no solo e na alimentação, o gado atinge o peso de abate em cerca de dois anos — a metade do tempo convencional.

Menos tempo de vida significa, matematicamente, menos tempo emitindo metano na atmosfera.

Na produção de gado, esse gás poluente é gerado com a chamada fermentação entérica — o processo digestivo dos bois que transforma capim em gás.

"Se você tem um boi que engorda com quatro anos, ele fica quatro anos literalmente arrotando metano", resume Fonseca.

O Brasil é o quinto maior emissor de metano (CH4) do mundo, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), e o agronegócio respondeu por 75,6% dessas emissões em 2023 — sendo que 98% delas vieram da pecuária.

O país tem o segundo maior rebanho bovino do mundo e lidera as exportações, mas essa liderança tem um custo territorial.

Dados do MapBiomas indicam que a área dedicada à pastagem foi o uso da terra que mais se expandiu na Amazônia entre 1985 e 2023: um aumento de mais de 363%, saltando de 12,7 milhões de hectares para 59 milhões, equivalente ao território da Espanha.

O cenário encontrado por Fonseca na Amazônia é dominado pelo que se chama de pecuária extensiva.

Neste modelo tradicional, o gado é criado solto em grandes áreas de pasto, com baixo investimento em tecnologia ou manejo do solo. Esse é um dos motivos pelos quais a produtividade da pecuária na Amazônia é baixa (0,73 animal por hectare) e pressiona pelo desmatamento, de forma a manter ou aumentar a produção.

Arquivo pessoal
'Se você tem um boi que engorda com quatro anos, ele fica quatro anos literalmente arrotando metano', diz Fonseca, referindo-se a gás poluente

Já a pecuária intensiva, abordagem adotada por Fonseca e sua empresa, ocupa áreas menores, busca alto rendimento produtivo e maiores investimentos em tecnologia e conhecimento técnico — um custo do qual os produtores tradicionais querem fugir.

Nesse modelo, os animais são confinados e alimentados com dietas controladas para acompanhar sua saúde e crescimento, que é mais rápido.

"Se replico em larga escala, esse modelo intensivo permitiria liberar milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade", defende o veterinário.

Essas áreas ociosas poderiam ser destinadas ao restauro florestal, ajudando o Brasil a cumprir sua meta de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa, um compromisso assumido no Acordo de Paris que, segundo dados atuais do SEEG, está longe de ser atingido.

Segundo ele, a abordagem reduz significativamente a pegada de carbono: enquanto cada quilo da carcaça no método tradicional emite cerca de 35 kg de CO2, no método da Caaporã, a emissão é de cerca de 20 kg — uma redução superior a 40%.

O trabalho de Fonseca é acompanhado há duas décadas por acadêmicos como André Pereira de Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces/FGV).

"O negócio do Luiz trabalha dentro de um campo da agricultura regenerativa: produz um alimento que contribui para a segurança alimentar e, ao mesmo tempo, tem uma contribuição com serviços ambientais", diz Carvalho, apontando para os impactos positivos do método na biodiversidade e na preservação da água, além da redução da emissão de poluentes.

Silvia Ferraz Nogueira De Tommaso, professora no doutorado profissional em Gestão de Negócios da faculdade FIA Business School, destaca a visão sistêmica do projeto.

"De um lado, temos a pecuária como vilã do desmatamento; do outro, como um setor que traz riqueza. Se quisermos resolver o problema pensando unicamente em eliminar a pecuária, criaremos um problema social e econômico", avalia a professora.

Como será o futuro?

Para Fonseca, não é realista esperar que o mundo pare de comer carne.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) projetam um aumento de 10% no consumo mundial de carne bovina até 2033.

"O mundo irá consumir muito mais carne na próxima década. Isso é um fato. Alguém vai ter que suprir essa carne", afirma o empresário, para quem essa demanda, nos moldes atuais de produção, pode ser um desastre para a Amazônia.

Ao mesmo tempo, o cientista é cético com alternativas como a criação de carne de laboratório, cultivada a partir de células.

"No curto prazo, nos próximos 10 anos, não temos sinalização de que essas carnes vão ocupar espaço significativo", avalia, citando o alto custo desses experimentos e o tempo demandado para que o consumidor se adapte a esse novo tipo de produto.

Para Fonseca, se a demanda por carne bovina existe e a tecnologia celular ainda é distante, a única saída imediata é transformar o modo como o boi é criado hoje.

Mas o veterinário reconhece que há muitos obstáculos estruturais para isso.

Um deles é o acesso ao conhecimento: o método que ele propõe exige uma gestão técnica apurada, muito diferente de apenas "soltar o boi no pasto".

Além disso, recuperar o solo degradado custa caro. Para isso, linhas de crédito voltadas para a agricultura mais sustentável poderiam ser úteis, mas Fonseca diz que o acesso a elas no Brasil é burocrático e limitado.

Outro obstáculo, talvez o mais difícil, é o cultural.

"O produtor fala: 'Eu sei fazer? Sei. Dinheiro eu tenho? Tenho. Mas não quero fazer'", diz Fonseca sobre a resistência em abandonar o modelo extensivo.

O empresário aposta no incentivo econômico.

Como o mercado de carne ainda paga praticamente o mesmo valor por um boi "verde" ou um convencional, Fonseca tem estudado fechar a conta através da venda de créditos de carbono.

Sua empresa está desenvolvendo uma metodologia própria junto à Verra, maior certificadora global deste tipo de mercado.

Divulgação
Fonseca reconhece que recuperar o solo degradado, como nesta fazenda, custa caro

Enquanto isso, a Minerva Foods, uma das maiores exportadoras de carne do país, já compra parte da produção da Caaporã e informa que tem buscado promover essas práticas de pecuária regenerativa entre seus fornecedores.

"Esse tipo de manejo está totalmente alinhado à estratégia da empresa para uma pecuária de baixa emissão de carbono", afirma Marta Giannichi, diretora global de Sustentabilidade da Minerva, ressaltando que o modelo prova ser economicamente viável e replicável.

"Esses modelos ajudam a restaurar o solo, conservar a biodiversidade e aumentar a eficiência produtiva", comenta a executiva sobre a tendência que, segundo ela, vem crescendo não só na Amazônia, mas em outros biomas.

Durante a COP30, cúpula ambiental realizada no ano passado em Belém do Pará, as tensões e incógnitas em torno da pecuária ficaram evidentes.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) organizaram a Agrizone, um pavilhão a menos de 2 km da Blue Zone (onde aconteciam as negociações sobre o clima) patrocinado por grandes empresas e entidades de classe, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Nestlé e Bayer.

O pavilhão foi alvo de protestos de ativistas que não têm simpatia por um setor apontado por dados como um dos principais responsáveis pelo avanço do desmatamento na Amazônia.

Na Agrizone, a Embrapa e algumas das maiores produtoras de carne do Brasil apresentaram propostas de baixo carbono — sinalizando um movimento crescente, mas ainda incipiente, em busca de alternativas inovadoras, mais sustentáveis e produtivas.

Mas a falta de controle dos supermercados sobre dados de desmatamento na cadeia de produção é um dos elos frágeis dessa indústria que alimenta a desconfiança dos consumidores.

O aplicativo Do Pasto ao Prato, iniciativa de organizações internacionais e financiada pelo governo da Noruega, mostra que cerca 40% do rebanho bovino brasileiro é criado na Amazônia. Três quartos (76%) dessa carne é destinada ao mercado interno.

Segundo o portal, apesar dos compromissos públicos de sustentabilidade dos principais frigoríficos, só 54% da carne bovina proveniente da Amazônia e vendida no Brasil tem em sua produção um desempenho de sustentabilidade adequado — o resto viria de práticas de produção ilegais.

No caso das exportações, 80% do volume cumpre adequadamente protocolos contra o desmatamento, em função da maior cobrança disso por compradores estrangeiros, especialmente da União Europeia.

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