María Corina Machado dedicou o Prêmio Nobel da Paz a Donald Trump e até entregou-lhe a medalha. A primeira visita à Casa Branca desde a captura do ditador Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, terminou de modo lacônico para a líder opositora venezuelana. Enquanto María Corina era recebida com discrição pelo presidente dos Estados Unidos, a porta-voz do governo Trump, Karoline Leavitt, afirmou que a avaliação sobre a visitante não tinha mudado. "Sei que o presidente estava ansioso por este encontro e esperava que fosse uma conversa proveitosa e positiva com a senhora Machado, que é realmente uma voz notável e corajosa para muitos venezuelanos", disse.
- Por que ação de Trump na Venezuela divide mundo em zonas de influência e projeta nova era global
- Por que sistema de defesa antiaérea que Venezuela comprou da Rússia e China não adiantou contra os EUA
Trump havia dito que María Corina não conta com o respeito da população da Venezuela e, por isso, teria dificuldade de governar. "Foi uma avaliação realista baseada no que o presidente estava lendo e ouvindo de seus assessores e da equipe de segurança nacional, e, neste momento, sua opinião sobre o assunto não mudou", admitiu Leavitt.
"Entreguei a medalha, o Prêmio Nobel da Paz, ao presidente dos Estados Unidos. Eu lhe disse o seguinte: 200 anos atrás, o General (Marquês de) Lafayette deu a Simón Bolívar uma medalha com a efígie de George Washington. Bolívar guardou a medalha pelo resto da vida. Duzentos anos depois, o povo de Bolívar entrega ao herdeiro de Washington uma medalha, neste caso, a medalha do Prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento ao seu compromisso singular com a nossa liberdade", declarou María Corina, depois de visitar o Capitólio, sede do Legislativo norte-americano. Não ficou claro se Trump aceitou e ficou com a honraria.
Até a noite desta quinta-feira (15/1), a Casa Branca não tinha divulgado nenhuma foto do encontro da opositora venezuelana e do presidente. Em nota divulgada em 9 de janeiro, o Comitê Nobel Norueguês informou que o título de Nobel da Paz não pode ser revogado, compartilhado ou transferido a terceiros. "A decisão é final e duradoura", acrescentou o comunicado.
"Contamos com o presidente Trump para a liberdade da Venezuela", disse María Corina a um grupo de simpatizantes, depois da a reunião com o mandatário na Casa Branca. Em frente à sede do Executivo, manifestantes venezuelanos receberam a opositora com entusiasmo.
Sem apoio
Professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (em Caracas), José Vicente Carrasquero Aumaitre disse ao Correio não ver María Corina desprestigiada. "Trump, na verdade, considera que ela não tem apoio interno. Evidentemente, o presidente americano diz respeito não à população, mas ao Exército e e à polícia da Venezuela, à capacidade de adesão de María Corina", observou. Ele lembrou que o regime chavista concentra a aplicação da violência. "Nesse sentido, a reação de Trump não tem a ver com a capacidade de María Corina de dirigir o país ou de comandar uma mudança na Venezuela. É apenas uma questão de momento", avaliou Aumaitre.
Para o estudioso, Trump também acredita que Delcy Rodríguez, vice de Nicolás Maduro, não detém um poder real para redefinir a agenda da Venezuela. "O que Delcy faz é receber ordens dos Estados Unidos." Orlando Vieira-Blanco — cientista político, advogado e colunista do jornal El Universal (de Caracas) — classificou o encontro entre María Corina e Trump como "histórico e positivo". "Ninguém espera que Trump tenha uma opinião personalíssima de Machado para decidir o futuro da Venezuela e conseguir uma transição ordenada. Tampouco María Corina reduz sua missão como ator político nem a agenda venezuelana, em aspectos pessoais de Trump. O importante é que ela foi reconhecida como líder venezuelana que mereça sustentar uma reunião de trabalho com o presidente dos Estados Unidos", disse ao Correio. "No final da história, o que prevalece são os valores, a verdade e o que cada um representa para seu povo. María Corina demonstrou respeito, dignidade e solvência política e moral."
Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez disse não temer um enfrentamento diplomático com os EUA. "Sabemos que eles são muito poderosos, sabemos que são uma potência nuclear letal (...). Não temos medo de enfrentar diplomaticamente por meio do diálogo político, como corresponde", declarou, em mensagem anual à Assembleia Nacional (Parlamento), de maioria chavista.
Rodríguez apresentou ao Legislativo um projeto de reforma da Lei de Hidrocarbonetos inspirado na chamada lei antibloqueio, um instrumento legal de 2020 que permitiu investimentos sob um véu de sigilo para contornar as sanções impostas pelos EUA desde 2019.
