Duas irmãs que foram separadas quando crianças depois que o pai assassinou a mãe com um martelo se reencontraram após 51 anos afastadas.
Janet Brocklehurst e Theresa Fazzani tinham cinco e sete anos quando a mãe, Helen Barnes, foi espancada até a morte pelo marido, Malcolm. O crime ocorreu em 27 de dezembro de 1973, na casa da família em Newport, cidade no sudeste do País de Gales, no Reino Unido.
Janet e duas irmãs mais novas foram adotadas e levadas para Somerset, mas Theresa foi acolhida por sua família quando se revelou que Barnes não era seu pai biológico.
Por mais de meio século, as irmãs não sabiam se a outra estava viva, muito menos onde morava, até que um grupo no Facebook ajudou Theresa a localizar as irmãs em julho de 2025.
Ela descreveu como "a experiência mais louca". "Foi simplesmente muito emocionante."
Dois dias depois do Natal de 1973, com as crianças dormindo em suas camas, Barnes, então com 35 anos, pegou um martelo e matou Helen, de 30 anos, a golpes.
Janet disse que o estopim foi a mãe afirmar que queria que ele fosse embora e que as crianças ficassem com ela.
Theresa, hoje com 59 anos e trabalhando como conselheira de saúde mental na Ilha de Wight, lembra-se de entrar no quarto escuro do casal. "Não sei se algo me acordou, mas lembro que não era algo que eu normalmente faria."
Barnes disse a ela para chamar as irmãs e se preparar porque ele as levaria para fora. "Sua mãe está dormindo", disse ele.
"Eu me lembro então de entrarmos todos no carro e sairmos dirigindo. Eu não sabia para onde estávamos indo nem por que naquele momento."
Malcolm levou as crianças em uma viagem de cinco dias até John O' Groats, uma pequena vila costeira no extremo norte da Escócia, e ficou em um hotel até se entregar — mas houve dúvidas se alguém em um posto de gasolina avisou a polícia.
Janet, 57, que hoje vive no sul do País de Gales, disse a primeira vez que souberam que algo estava errado foi quando a polícia apareceu e então levou todas as irmças para a delegacia. "É assustador porque, para onde teríamos ido depois de John O' Groats?"
Barnes se declarou culpado de assassinato e recebeu prisão perpétua, mas foi libertado após nove anos. Ele morreu em 2023.
Depois de as crianças terem sido inicialmente colocadas em lares temporários na Escócia, elas foram levadas de volta para Newport e ficaram sob cuidados do Estado por cerca de um ano. Elas eram obrigadas a visitar Barnes na prisão todos os meses por ordem judicial.
Nessa época, Theresa tinha oito anos e foi informada de que Barnes não era seu verdadeiro pai. Seu pai biológico, a esposa dele e o padrasto da esposa foram encontrá-la uma vez antes de levá-la embora.
Theresa disse: "Eu achei que estávamos só saindo, mas não me disseram que eu iria embora para sempre — e, obviamente, minhas irmãs também não foram informadas."
Janet lembra de Theresa "indo embora tão feliz com aquele homem" e então ouviu: "É isso, você nunca mais vai vê-la". "Partiu meu coração."
Theresa disse que o pai "não me deixava falar das minhas irmãs nem vê-las".
"Descobri depois de mais velha que ele chegou até a insinuar para outras pessoas que eu inventava minhas irmãs e minha mãe para chamar atenção", acrescentou.
Enquanto isso, Janet e os irmãos foram adotados e passaram a viver em Somerset, mas Janet disse que sua vida foi um inferno.
Por anos, a única informação que as irmãs tinham sobre a morte da mãe vinha de um recorte de jornal que dizia que Barnes a matou porque ela "levava uma vida gay" e negligenciava os filhos.
Mas as irmãs não acreditam nisso, e Theresa disse que a babá lhes contou que a mãe "as adorava" e trabalhava em um pub porque Barnes não trabalhava.
"Não tenho nenhuma lembrança da nossa mãe que não seja de alguém carinhosa conosco", disse Theresa.
Theresa afirmou: "Minha maior lembrança é da minha mãe tocando Elvis o tempo todo enquanto cozinhava, cantando, e todos nós ali na cozinha. Lembro que minha irmã Janet estava sempre ao meu lado.
"Não me recordo muito [da minha mãe e de Barnes] brigando, eu diria que isso provavelmente era mantido longe de nós."
Janet nunca deixou de pensar em Theresa, mas não sabia como encontrá-la.
Ela sabia que a irmã tinha um sobrenome italiano e, às vezes, encontrava um nome possível na internet, mas temia que Theresa ficasse com raiva porque "meu pai matou a mãe dela", o que a fazia recuar.
Theresa também pensou em tentar entrar em contato com as irmãs, mas não sabia se elas estavam juntas ou sequer vivas.
Tendo passado por uma infância tão traumática, ela não tinha certeza se conseguiria lidar com uma rejeição.
No ano passado, ela encontrou um grupo de famílias separadas no Facebook e pensou: "Estou chegando aos 60 este ano, não quero morrer sem saber se elas estão vivas."
Em dois dias depois de pedir ajuda aos pesquisadores do grupo, alguém respondeu: "Acho que encontrei suas irmãs."
Janet fez uma chamada de vídeo com Theresa e as duas caíram em lágrimas, com Janet dizendo: "Meu Deus, achei que ia morrer sem te conhecer de novo."
Theresa disse que a ligação foi "a experiência mais louca". "Foi simplesmente muito emocionante."
"Foi tão bom ter minhas memórias confirmadas, porque, quando você fica mais velho, começa a pensar: 'será que eu me lembro disso direito?'"
"Viver sem Theresa era viver com uma tristeza e uma saudade profundas", disse Janet. "Então, assim que nos reconectamos, foi tão alegre e um alívio saber que eu não teria que viver mais nenhum dia sem ela."
As irmãs passaram a fazer chamadas de vídeo todos os dias, e Theresa foi ver as irmãs pessoalmente pela primeira vez em meio século em agosto de 2025.
Janet disse que estava tão animada que convenceu funcionários da estação ferroviária a deixá-la entrar na plataforma para ver o trem da irmã chegar a Cardiff.
Theresa disse: "Eu desci do trem e ela estava vindo decidida pela plataforma, e foi tipo: 'meu Deus, não acredito que é você, que você está aqui'."
"Nós achamos tão fácil conversar uma com a outra, tão fácil nos dar bem."
Janet disse que "não conseguia parar de sorrir", e as duas irmãs começaram a tentar recuperar o tempo perdido e reconstruir sua história. "Todo dia eu fico planejando quando vamos nos ver de novo", afirmou.
Janet disse que, quando fala sobre a morte da mãe, as pessoas muitas vezes dizem: "ah, mas foi nos anos 1970".
"Me diga o que mudou nessa história hoje? Uma mulher morre porque quer deixar de estar com o marido ou parceiro. O motivo de eu falar publicamente é para encorajar outras mulheres a serem corajosas. É preciso fazer mais para proteger mulheres e meninas."
Um porta-voz do Home Office, o ministério do Interior do Reino Unido, afirmou que a violência contra mulheres e meninas é tratada pelo governo britânico como uma emergência nacional. Segundo ele, a nova e "ambiciosa" estratégia do país para enfrentar esse tipo de violência conta com mais de £ 1 bilhão (cerca de R$ 7.2 bilhões) em financiamento.
"Como parte da meta de reduzir pela metade esses crimes em uma década, o governo criou novas ordens de proteção contra abuso doméstico em áreas selecionadas e vai perseguir os agressores mais perigosos, além de dar mais poder à polícia e à Justiça para proteger as vítimas", disse.
Ele acrescentou que também foi lançada a Lei de Raneem, que coloca especialistas em violência doméstica nas centrais do número de emergência 999 — o equivalente britânico ao 190 no Brasil — para melhorar o atendimento às vítimas.
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