O governo do Reino Unido, do primeiro-ministro Keir Starmer, sofreu uma baixa neste domingo (8/2) na esteira do caso Jeffrey Epstein, o bilionário americano condenado por crimes sexuais encontrado morto na prisão em 2019.
Chefe de gabinete de Starmer, Morgan McSweeney renunciou ao cargo ao assumir "total responsabilidade" por ter aconselhado o premiê a nomear Peter Mandelson, figura próxima a Epstein, como embaixador britânico nos Estados Unidos no ano passado.
"Nosso partido e eu temos uma dívida de gratidão com ele", disse Starmer sobre McSweeney neste domingo.
Líder do Partido Conservador, de oposição, Kemi Badenoch afirmou que o primeiro-ministro "precisa assumir responsabilidade por suas próprias decisões terríveis".
Em sua carta de demissão, McSweeney disse que a "a decisão de nomear Peter Mandelson foi errada. Ele prejudicou nosso partido, nosso país e a confiança na própria política".
A crise no governo britânico ocorre após a polícia iniciar uma investigação criminal sobre alegações de que Mandelson teria repassado informações sensíveis a Epstein em 2009. Os documentos revelados nos EUA revelaram e-mails da época em que Mandelson era secretário de negócios do Reino Unido.
Os documentos mostraram ainda que Mandelson enviou mensagens de apoio a Epstein quando o americano enfrentava acusações de crimes sexuais em 2008.
Além disso, os últimos documentos revelados mostraram que o marido brasileiro de Mandelson, Reinaldo Avila da Silva, recebeu pagamentos de US$ 75 mil (R$ 390 mil) do bilionário americano. Após essa revelação, Mandelson anunciou que estava deixando o Partido Trabalhista, de Keir Starmer, alegando que não queria "causar mais constrangimento".
Em setembro do ano passado, o primeiro-ministro já havia anunciado a demissão de Mandelson do cargo de embaixador nos Estados Unidos, alegando que surgiram novas informações sobre a profundidade da relação entre ele e Epstein.
"Os e-mails mostram que a profundidade e a extensão do relacionamento de Peter Mandelson com Jeffrey Epstein são substancialmente diferentes do que se sabia na época de sua nomeação", escreveu o Ministério das Relações Exteriores em um comunicado na ocasião.
Nos últimos dias, Starmer acusou Mandelson de mentir durante todo o processo de "verificação de segurança" para o cargo e de deturpar a extensão de sua relação com Epstein.
Segundo apuração da BBC, Mandelson avalia que respondeu de forma precisa às perguntas sobre sua relação com Epstein durante o processo de verificação para o cargo. O ex-embaixador também avalia que não agiu de forma criminosa em nenhum momento e que não foi motivado por ganho financeiro.
Análise: o 'para-raios' de Starmer
Por Chris Mason, editor de política da BBC
McSweeney há muito era visto como o gênio por trás da remodelação — ou do renascimento, como alguns preferem — do Partido Trabalhista. Ele fez campanha para transformá-lo novamente em um partido competitivo eleitoralmente. A ele é amplamente creditada a vitória esmagadora dos Trabalhistas na última eleição, que levou Starmer ao poder.
Há algum tempo o ex-chefe de gabinete vinha sofrendo forte pressão — ele se tornou, em certa medida, um para-raios.
McSweeney reconhece que teve papel central na nomeação de Mandelson — uma decisão que desde então provocou a maior crise do mandato do primeiro-ministro.
A grande questão agora é se a saída de McSweeney reduzirá a pressão sobre essa crise política. Ou se, ao retirar o próprio "para-raios" que ele representava, a pressão passará a atingir diretamente o primeiro-ministro.
Vale lembrar que, no momento da nomeação de Mandelson, muitas pessoas consideraram a escolha acertada, diante da necessidade de alguém com habilidade diplomática em Washington após o retorno de Donald Trump ao poder.
E as primeiras evidências indicavam que Mandelson estava desempenhando bem o cargo.
No entanto, as revelações extraordinárias que vieram à tona evidentemente mudaram o cenário.
Apesar da ampla maioria obtida por Starmer na eleição, seu governo tem sido ofuscado por turbulências em Downing Street, sede do governo birtânico.
Também é importante lembrar que este é um governo relativamente novo, mas a instabilidade observada ao seu redor é do tipo que normalmente se associa ao fim do mandato de um primeiro-ministro.
