Bangladesh está caminhando para o que muitos consideram a eleição mais importante em décadas.
Na quinta-feira (12/2), 127 milhões de cidadãos devem votar na primeira eleição nacional desde o levante estudantil de julho de 2024, que derrubou o governo.
A eleição será um teste sobre a possibilidade de recuperação em um país abalado por anos de turbulência política, instabilidade, repressão e prisões em massa.
Mas onde estão os filhos da revolução de Bangladesh, considerada a primeira e mais bem-sucedida de uma série de protestos da geração Z (os nascidos entre 1995 e 2010; os anos são aproximados, porque não há um consenso claro desta classificação) em todo o mundo? E por que eles não estão se preparando para assumir o poder?
Como começou a revolução da geração Z em Bangladesh?
Há pouco mais de dois anos, a primeira-ministra mais longeva de Bangladesh, Sheikh Hasina, conquistou um quarto mandato sem precedentes.
Aquela eleição foi amplamente denunciada como fraudulenta, além de ter sido boicotada pelo Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB), então principal força de oposição à Liga Awami, de orientação liberal-centrista e liderada por Hasina.
As manifestações lideradas por estudantes começaram ainda naquele ano com a exigência de extinguir o sistema de cotas para cargos no serviço público. Um terço das vagas era reservado a parentes de veteranos da Guerra de Independência de Bangladesh, contra o Paquistão, em 1971.
O governo de Sheikh Hasina havia abolido o sistema em 2018, mas ele foi restabelecido em 2024. Diante da pressão, a Suprema Corte de Bangladesh anunciou a anulação da maior parte das cotas para empregos no governo, naquele momento.
No verão seguinte, o uso da polícia pelo governo Hasina para reprimir violentamente os manifestantes transformou os protestos em um movimento nacional contra o governo, com epicentro na capital, Daca.
Como o governo de Bangladesh reagiu aos protestos da geração Z?
O governo da Liga Awami – conhecido como Liga Popular de Bangladesh – desligou a internet, prendeu dissidentes com base na Lei de Segurança Digital e disparou munição real contra ativistas estudantis.
Diante do aumento dos pedidos para que renunciasse, Hasina se manteve desafiadora e chamou os manifestantes de "terroristas". Também colocou centenas de pessoas na prisão e apresentou acusações criminais contra outras centenas.
Um áudio vazado sugeriu que ela teria ordenado às forças de segurança que "usassem armas letais" contra os manifestantes. Hasina nega ter dado ordem para atirar contra civis desarmados.
Algumas das cenas mais violentas ocorreram em 5 de agosto de 2024, dia em que Hasina fugiu de helicóptero para a Índia, antes que multidões invadissem sua residência em Daca.
A polícia matou ao menos 52 pessoas naquele dia, em um bairro movimentado, tornando-o um dos piores casos de violência policial na história do país.
No total, cerca de 1.400 pessoas morreram durante os protestos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a ampla maioria por ação das forças de segurança.
O que aconteceu com Sheikh Hasina e a Liga Awami?
Hasina vive agora no exílio, na Índia, que se recusou a extraditá-la para que enfrente uma sentença de pena de morte pela repressão, dada à revelia dela no ano passado pelo tribunal de crimes de guerra de Bangladesh.
Muitos outros líderes da Liga Awami também estão abrigados na Índia com ela. Alguns foram presos em Bangladesh.
Muhammad Yunus, laureado com o Nobel da Paz, assumiu o comando dias após a queda de Hasina.
Uma das primeiras decisões de seu governo interino foi proibir a Liga Awami — o partido mais antigo do país, que reunia cerca de 30% do voto popular — e seus parceiros de coalizão de exercer qualquer atividade política.
A Comissão Eleitoral também cancelou o registro do partido, deixando o antes oposicionista PNB, liderado por Tarique Rahman e que passou por um reposicionamento para se apresentar como uma força liberal democrática, como o maior partido político na disputa eleitoral deste ano.
O que aconteceu com os revolucionários da geração Z em Bangladesh?
A queda de Hasina pareceu anunciar uma nova era. Alguns líderes estudantis passaram a ocupar cargos-chave no governo interino, na tentativa de moldar o país pelo qual haviam ido às ruas lutar.
Esperava-se que eles tivessem papel relevante na futura administração do país. No entanto, o Partido Nacional dos Cidadãos (PNC), voltado ao público jovem e formado por líderes estudantis que conduziram a revolução, já enfrenta profundas divisões internas.
O primeiro grande sinal de dificuldade para o PNC surgiu em setembro, quando os candidatos apoiados pelo braço estudantil do Jamaat-e-Islami, partido islamista anteriormente impedido de atuar na política principal, venceram por ampla margem as eleições estudantis nas principais universidades de Bangladesh. A votação foi vista como um termômetro do humor nacional.
Chamou atenção o fato de que, pela primeira vez desde a independência, um partido islamista assumiu o controle do diretório estudantil da prestigiosa Universidade de Daca.
Diante desse cenário, o PNC tomou uma decisão e, em dezembro, anunciou uma aliança multipartidária com o Jamaat.
Como os islamistas de Bangladesh ofuscaram os líderes estudantis?
O líder do partido Jamaat-e-Islami, Shafiqur Rahman, disse à BBC News que o partido se compromete a combater a corrupção e restaurar a independência do Judiciário — promessas que, embora difíceis de cumprir em um país com níveis historicamente elevados de corrupção, têm encontrado respaldo entre muitos eleitores.
O PNC também prometeu erradicar a corrupção. Seu manifesto inclui ainda propostas voltadas aos jovens:
- justiça para as famílias dos mortos durante o levante;
- redução da idade mínima para votar para 16 anos;
- criação de empregos por meio de reformas tributárias e econômicas.
Mas o Jamaat-e-Islami permite que o PNC lance apenas 30 candidatos, e apenas dois deles são mulheres.
O próprio Jamaat apresenta mais de 200 candidatos, todos homens. Embora haja alguns outros partidos menores, a disputa central na eleição deste ano será entre o Jamaat e o Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB).
Como o Partido Nacionalista de Bangladesh, que voltou a ganhar força, afeta o partido estudantil?
Após ver milhares de apoiadores e líderes presos sob o governo da Liga Awami, o PNB agora intensifica a pressão sobre o partido estudantil.
Assim como a Liga Awami — cuja líder, Sheikh Hasina, é filha de Sheikh Mujibur Rahman, considerado o fundador do país — o PNB está ligado a uma dinastia política.
Recém-retornado após 17 anos de exílio em Londres (Reino Unido), seu novo líder, Tarique Rahman, 60, é filho da falecida Khaleda Zia, primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra de Bangladesh, que chegou ao poder depois que seu marido, um ex-presidente, foi assassinado em um golpe militar.
Quais são os principais temas para os eleitores nas eleições de 2026 em Bangladesh?
Embora as preocupações cotidianas como alta de preços, emprego, corrupção e segurança pública predominem, a questão central é saber se o novo governo conseguirá implementar reformas políticas e assegurar um processo democrático.
Há anos o país registra episódios de violência política, incluindo repressões brutais, prisões em massa e desaparecimentos forçados. Cresce a demanda por responsabilização por abusos cometidos sob governos anteriores.
A corrupção é outro tema central, especialmente no exercício de cargos públicos.
Em novembro de 2025, o Banco Mundial afirmou que a pobreza em Bangladesh havia aumentado e que havia menos empregos, sobretudo para as mulheres.
Com mais de 40% do eleitorado apto a votar na faixa de 18 a 37 anos, emprego e segurança física estão entre as principais prioridades.
Para a maioria dos eleitores, a eleição gira em torno de saber se a próxima liderança será capaz de trazer estabilidade, equidade e a percepção de que o Estado funciona em favor da população.
Como funciona o sistema eleitoral de Bangladesh?
Bangladesh elege os 300 integrantes de seu Parlamento por meio do sistema "first-past-the-post" (um sistema de maioria simples determinado por meio de uma única votação): um distrito eleitoral, um parlamentar.
O candidato que obtém o maior número de votos — ainda que receba menos de 50% do total — é eleito. A maioria simples no Parlamento é suficiente para formar o governo.
Neste ano, pela primeira vez, bangladeshianos que vivem no exterior poderão votar com cédulas enviadas por correio.
A Comissão Eleitoral emitiu mais de 800 mil cédulas, que precisam chegar ao respectivo presidente de mesa até a tarde de quinta-feira (12/2).
Embora tenham sido levantadas preocupações sobre atrasos e possíveis fraudes, a Comissão Eleitoral adotou medidas preventivas, como reconhecimento facial e rastreamento por aplicativo móvel, para garantir transparência.
O que é a Declaração Nacional de Julho e por que ela é importante?
Além de eleger um novo governo na quinta-feira (12/2), o eleitorado também votará em um referendo constitucional para decidir se a Declaração Nacional de Julho será implementada.
A declaração define como Bangladesh será governado.
O objetivo é reduzir a concentração de poder no Executivo, fortalecer os mecanismos de freios e contrapesos e impedir o tipo de predominância política que marcou o país nas últimas décadas.
Uma vitória do "Sim" obrigará legalmente o novo governo a implementar um conjunto de 84 mudanças, entre elas a criação de um Parlamento com duas Casas, uma Alta e uma Baixa (no Congresso brasileiro, por exemplo, o Senado é tido como a Casa Alta, e a Câmara dos Deputados, a Casa Baixa).
Há preocupações quanto à credibilidade e à integridade das eleições de 2026 em Bangladesh?
As três últimas eleições nacionais do país foram amplamente contestadas, marcadas por acusações de fraude eleitoral e episódios de violência. O PNB as boicotou em 2014 e 2024.
Desta vez, a ausência da Liga Awami levanta questionamentos sobre inclusão e competitividade nas eleições.
A eleição também tem as redes sociais como eixo central da campanha, com redes sociais como TikTok, Facebook e YouTube convertidos em um novo campo de disputa para conquistar o amplo eleitorado jovem.
Uma avalanche de conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) suscitou preocupações quanto à desinformação e à disseminação de narrativas fabricadas capazes de manipular os eleitores.
Qual é o risco de violência nas eleições de 2026 em Bangladesh?
Impulsionadas por rivalidades históricas e pela polarização política, as eleições em Bangladesh têm sido propensas à violência.
O período que antecede as eleições de 2026 reforçou esse padrão, com relatos de confrontos, assédio a militantes de campanha e intimidação de eleitores em diversas regiões do país.
Nos últimos dias, surgiram informações sobre a morte de vários ativistas políticos, o que levou organizações de direitos humanos a manifestar preocupação.
As inquietações com a segurança são ampliadas pelos desdobramentos do levante de julho de 2024 — centenas de armas de fogo saqueadas continuam desaparecidas, o que eleva o risco de confrontos armados.
Muito dependerá da Comissão Eleitoral implementar adequadamente as medidas de proteção previstas.
O que as eleições de 2026 em Bangladesh significam para o Sul da Ásia?
A política no Sul da Ásia é profundamente entrelaçada com religião e identidade, e o resultado da eleição em Bangladesh pode alterar o cenário político regional, com impactos sobre migração e segurança de fronteiras.
As relações bilaterais com Índia e Paquistão podem mudar, a depender de quem formar o governo.
Os laços com a Índia se tornaram tensos desde que Hasina buscou refúgio no país. Já as relações com o Paquistão, há muito marcadas pelo legado da Guerra de Independência de Bangladesh, em 1971, têm dado sinais recentes de arrefecimento.
Bangladesh também está no centro de uma disputa estratégica entre os Estados Unidos e a China. Para os chineses, o país é visto como porta de entrada para o Sul da Ásia e elo relevante na Iniciativa Cinturão e Rota (One Belt, One Road), conhecida como a nova rota da seda.
Como segunda maior economia do Sul da Ásia, a estabilidade de Bangladesh pode influenciar de forma significativa o cenário diplomático regional.
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